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Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti: Médico homeopata formado pela UFRJ, atua como Médico-Educador na Vila-Escola Projeto de Gente, em Cumuruxatiba (Bahia).

  • 20

    ABR

    2017

    O que aprendi na Vila-Escola Projeto de Gente? - Educação Libertária

    por Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti em 20/04/2017

    Frequento a Vila-Escola, em Cumuruxatiba, desde agosto de 2007 quando o trabalho chamava-se apenas Projeto de Gente. Porém, entrei para o Projeto de Gente antes de 2007, ainda no Rio de Janeiro. Fiz essa escolha, antes de tudo, porque o trabalho tinha uma vocação primordial: criar um campo propício à livre experimentação e livre expressão das crianças.

    Isso me interessava, pois esse fundamento está profundamente ligado à um conceito de saúde e aponta para um caminho de cura conforme percebe a homeopatia cuja filosofia fala sobre a descoberta da autonomia e sua livre expressão como pano de fundo da saúde, ou da doença se esses aspectos forem negados. Assim, contribuir para que o Processo de Individuação aconteça serenamente, isto é, que o processo de descoberta do EU SOU e sua manifestação aconteça era, e é, estar afinado com os ideais homeopáticos. Era isso que procurava e isso estava ali, vivo e ativo, no fundamento do trabalho.

    Desde essa época ouvia e sentia uma fala de W. Reich como fala do Projeto de Gente: “Esta é nossa grande obrigação: capacitar o animal humano para que aceite a natureza que existe dentro de si, para que deixe de fugir dela e possa gozar aquilo que hoje tanto teme”.

    Esses foram aprendizados anteriores ao Projeto de Gente em si.

    Ainda antes de 2007, isto é, antes de Cumuruxatiba, conhecemos o que acontecia na Escola da Ponte, em Portugal, e imaginamos – o grupo de amigos que sentia e pensava o trabalho –, que criar uma escola poderia ser interessante. Essa proposta ganhou força com a participação no curso de pedagogia democrática, em São Paulo. Pensamos que criar uma escola seria uma maneira de suavizar, ou mesmo evitar, zonas de conflito entre o Projeto de Gente, a escola convencional da criança, e a própria família. Uma boa reflexão, embora ainda não tivéssemos a exata dimensão da profundidade desses conflitos.

    Também nessa época aprendi que ao falar sobre o Projeto de Gente – já como escola – a maioria das pessoas tendia a considerar como muito bonito o princípio que fundava o trabalho. Porém, à medida que conversávamos sobre os problemas da escola convencional, as questões formais sobre aprendizagem, formas de avaliação, vestibular, etc, aquele princípio era relegado a um segundo, terceiro, quarto plano. Isso me impressionava muito, pois, eu mesmo era “tomado” pelos aspectos ditos objetivos e precisava fazer certa força para relembrar e manter vibrando as dimensões mais sutis do trabalho – a saber: o processo de individuação, a liberdade de experimentação necessária para que o processo aconteça o mais limpamente possível, isto é, sem interferências direcionadoras, a eterna vigilância para não nos arvorarmos como donos do saber e, principalmente, do saber o que é melhor para as crianças, etc..

    Já em contato com as crianças, em Cumuruxatiba, creio que meu primeiro aprendizado foi ganhar consciência de como elas estavam mais que acostumadas a não pensar nada, nada, por si mesmas, viciadas no distanciamento de si mesmas; aprendi que, precocemente, muito precocemente, tinham respostas prontas apenas para agradar aos adultos – sintoma do afastamento de si. O trem dessas crianças, percebi, já corria firmemente em trilhos colocados por adultos através de muitas gerações: pai, mãe, responsáveis, família, escolas, religiões, etc. As crianças não tinham, via de regra, nenhuma possibilidade de questionamento sobre a rota pretraçada. Vi as crianças caminhando dentro da linha. Alguns adaptados; outros, os chamados rebeldes/crianças-problema, brigavam, apenas brigavam, contra um sistema, mas não questionavam seus fundamentos ou filosofia. De fato, nem umas nem outras percebiam tais fundamentos. Um triste aprendizado, meus amigos, entretanto, ainda não percebia sua dimensão maior.

    Outro aprendizado. A roda se organizou deste o primeiro momento do projeto. Todos os dias nos reuníamos para deliberar sobre as combinações de convivência. Pouco a pouco fui aprendendo que as crianças, mesmo com um campo acolhedor e atento às suas possíveis falas, não sabiam o que queriam – acostumadas que estavam às regras sempre prontas e impostas; mais: elas não acreditavam que seriam ouvidas de verdade por um adulto; mais: elas não acreditavam que sua palavra, seu desejo, sua necessidade seriam levadas em consideração e, mais ainda, valer, valer pra valer! Importantíssimos aprendizados, acho. Vale dizer que, hoje, na V-E, este já não é o cenário absoluto. Entretanto, muitas crianças rejeitam as rodas (fiéis a outros aprendizados?) – creio que aceitam a contrapartida do tudo mastigado e dado, ao invés do trabalho de escarafunchar o que se quer de verdade, e depois manifestar, e depois trabalhar para concretizar; daí, com tanto trabalho a fazer, aceitam a submissão. Disse que muitas rejeitam, mas outras aceitam, propõem suas demandas e ideias, e, aos poucos, outras crianças se aproximam. Aprendi também que, muitas vezes, os educadores é que se impacientam desejando que a roda  rodasse sem nenhum obstáculo.

    Ainda dentro do assunto “voz ouvida e escuta amorosa”: aprendi que, apesar da roda ser muitas vezes contestada e rodar muito devagar, ainda assim, é o lugar de aprendizagem. Já havia aprendido que a roda é o coração da V-E, o lugar-síntese e simbólico do mais importante aprendizado: o direito de cada um, sem medo, em paz, se descobrir, se manifestar, e se organizar junto ao direito do outro de, sem medo, em paz, se descobrir, se manifestar; todos se organizando em torno de todos. Para mim, este é um aprendizado consolidado e segue sendo um aprendizado cotidiano. A roda é, para mim, o coração da Vila-Escola.   

    Mais aprendizado: o projeto era, ainda hoje é, percebido como uma válvula de escape, um lugar onde a energia reprimida das crianças pode se expandir e não ser pura e simplesmente reprimida novamente. Muitos educadores “enlouqueceram” com isso, diziam: “o controle está perdido” – tenho guardada uma carta nesses termos escrita por uma educadora. Ora, a ideia é justamente NÃO ter controle, organizar em comum acordo o dia a dia, a convivência, a vivência comunitária de necessidades e desejos. Foi então que percebi com mais clareza como o Projeto de Gente era, e é, um campo de desaprendizagem e reaprendizagem para os adultos, para os educadores. Mais que nunca estava claro: todos eram educandos e educadores, sem exceção. Aprendi!

    Aprendi que a V-E tem a mesma dinâmica de um tratamento psicoterapêutico, tanto em relação aos adultos quanto às crianças: alguns avançam por certo tempo em direção a si mesmos, sentem, vislumbram medos e sentimentos dos quais se defenderam e então... interrompem a caminhada. Desistem, sentem que já está bom. Outros avançam um pouco mais, mas também desistem, sentem que chegaram a seu limite. Poucos seguem e seguem e seguem em frente percebendo que “se eu quiser falar comigo, tenho que ficar a sós, tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz, (...), tenho que esquecer a data, (...), tenho que ter mãos vazias, ter a alma e o corpo nus, tenho que aceitar a dor, (...) tenho que lamber o chão dos palácios, dos castelos suntuosos (da ilusão), (...) tenho que me aventurar sem cordas pra segurar, tenho que dizer adeus, dar as costas, caminhar decidido, pela estrada que ao findar vai dar em nada, nada, nada, nada, nada, do que eu pensava encontrar”.

    Aprendi que o Projeto de Gente é um campo de acolhimento de projetos de gentes diversos, tanto crianças (logicamente!) quanto adultos; percebi que o projeto de um não pode ferir o projeto de outro, isto é, o que cada um considera como essencialmente necessário ao seu projeto não pode ser atropelado pelo que o outro também considera essencialmente necessário – e haja trabalho, amor e tempo para descobrir o que pode ser essencial –; percebi que aspectos menos primordiais podem se aconchegar, porém, temas nucleares para uns podem ser vistos como divergentes ou tão pouco importantes que podem ser negligenciados por outros; que, nesse caso, configura-se a existência de dois, ou mais, projetos, talvez todos éticos e legítimos.

    Anos se passaram, tripulações renovadas, mais aprendizados. Velhos conceitos ganharam novas dimensões. Por exemplo, eu, que gosto tanto das palavras, aprendi que autonomia significa: auto – próprio, nomos – lei. Lei própria. O que já havia aprendido com James Hillman: “(...) para se entender a vida humana (não podemos) omitir algo essencial: a particularidade que você sente que é você” e confirmado no consultório de homeopatia e psicoterapia ganhou, como disse, uma nova dimensão. A particularidade, bem dita por Hilmann, é justamente uma lei própria e misteriosa que nos identifica como ser singular entre tantos seres na espécie humana. Bem dito por Hillman e ampliado por Maturana e Gerda Verden ao escreverem o que, para eles, é “(...) o cerne do humano: a convivência no respeito por si mesmo e pelo outro, que nasce da auto-aceitação”.

    Aprendi que as crianças querem muito uma escola diferente. Às vezes, desejam isso por conta de argumentos bem singelos mas importantes mesmo assim, como, por exemplo, não ter prova – o que, claro!, significa que não querem ser pressionados, tensionados. Porém, e aí o mais importante, aprendi que muitos percebem, de várias maneiras e em seu tempo, a importância de ter sua voz ouvida e considerada. Em mais de uma ocasião tive a oportunidade de ouvir, viva voz de criança, sobre as diferenças entre um espaço repressor e outro não – isso, para mim, equivale, embora diga com cuidado, a diferença entre um espaço de medo, rejeição e outro de amor, acolhimento.

    Aliás, o parágrafo acima descreve um pouco de minhas principais motivações para desejar estar com as crianças durante mais tempo do que apenas no contra turno. Gostaria que elas não se sentissem divididas entre ambientes com fundamentos tão divergentes; então, desejei participar da criação de um espaço formal de aprendizagem diferente do convencional, que fosse desejado por crianças, pais e mães, e educadores. Daí, a retomada da proposta de percorrer os caminhos burocráticos para legalizar a Vila-Escola.

    Aprendi que esse desejo, para ser realizado, precisaria da união de crianças, pais e mães, educadores. Aqui em Cumuruxatiba, como em outros lugares, é preciso, como disse Helena Singer, criar a demanda, principalmente entre os pais e mães que, por variadas razões, não imaginam que haja alternativa ao sistema vigente. Aliás, veem no sistema a única chance de uma “boa” vida para seus filhos e filhas.

    Nos últimos meses, meio de repente, por conta do dia a dia na Vila-Escola, conversas e algumas leituras, algo se catalisou e aprendi que estávamos, desde o início, nos defrontando com uma estrutura milenar, neolítica; que negamos nossa identidade – individual e como espécie – há milênios; que vagamos, perdidos, em um labirinto constituído pelos bilhões de muros erguidos por cada um; que criamos este labirinto para esconder as aparentes ameaças que a natureza humana sapiens sapiens traz, a saber, e enumero talvez para facilitar: (1) independência profunda traduzida na individuação, na autonomia – apenas eu posso oferecer o ser que sou –; (2) tal independência, por sua vez, nos remete à mais profunda solidão; (3) dependência total, pois apenas somos quem somos por conta da existência do outro; (4) responsabilidade imensa advinda da emergência do sapiens sapiens – do sei e sei que sei que nos coloca sabedores das consequências de nossos atos na cocriação do mundo, da vida; aprendi que, como defesa dessas aparentes ameaças e medos, passamos a “não confiar nos processos naturais que nos constituem”, e então, criamos um sistema de domínio, um sistema de apropriação de nossos parceiros na rede da vida, e assim brotaram inimizades, guerras; que este sistema exigiu a criação de uma cadeia de comando e obediência, hierarquia; que criamos instituições de controle que pretendem garantir (ilusão) a estrutura defensiva que, por sua vez, vitoriosa, quase autônoma!, segue compulsiva escondendo o que já nem lembramos – o ser que cada um é –; que, dia a dia, nos tornamos mais e mais insensíveis a nós mesmos e ao outro; que, dia a dia, mais negamos a nós mesmos e ao outro; que criamos uma cultura centrada na produção sem a qual não temos direito a existir – uma cultura onde “não fazemos o que apenas fazemos”, mas lutamos para estar vivos; uma cultura que pede descanso e alimentação para recuperar energias para a sobrevida, não para a vida; uma cultura “onde não brincamos com nossas crianças, (onde) nós as preparamos para o futuro”; uma cultura que se revela cega às crianças que vivem um sistema de pressão e direcionamento a metas que já consideramos naturais – tanto a pressão quanto o direcionamento –; uma sociedade cega às crianças, pois não ousa olhar para si mesma.

    Já que falamos em muros e labirintos, lembrei-me de um trecho de uma entrevista com Krishnamurti. Nela ele diz, entre outras coisas: “Qual é o propósito da disciplina? Quando você disciplina, o que acontece? Você está forçando, obrigando; há compulsão, mesmo delicada, mesmo gentil, o que significa conformidade, imitação, medo. A disciplina só pode construir muros em sua volta. A disciplina é sempre exclusiva, ao passo que a compreensão é inclusiva. A compreensão chega quando você investiga, quando examina, o que requer consideração, cuidado, pensamento, afeição”. Aí estão as principais ferramentas para descontruir muros: amor, compreensão, ausência de disciplina.

    Aprendi que ao criar, mesmo que uma escola ou um espaço de aprendizagem diferente, corremos o risco de, ao fim e ao cabo, ainda estarmos preparando as crianças para passar pelo funil do vestibular, entrar no mercado de trabalho; aprendi que, por estar a cadeia de comando-obediência cristalizada, a criança segue sem alternativa: tem que – tenqui, escrevia meu filho Lucas – obedecer ao adulto que cuida dele, pois a não obediência implica em consequências que a criança ainda não dá conta; aprendi que, mesmo crianças mais ajustadas consigo mesmas e com os outros, mais críticas em relação ao sistema posto, estarão presas no mesmo labirinto, talvez um pouco diferentes, mas regidas pelos mesmos princípios que vigem aqui e agora. Enfim, mantendo um sistema e não propondo possibilidades outras, alimentando, mesmo através de palitos pequenos, a fogueira que não quero alimentar.

    Aprendi, na V-E, que quero, preciso, trabalhar no avesso disso; na intenção constante do avesso disso; quero, preciso, colaborar na organização de uma estrutura que não alimente o que está posto, que interaja com o que está posto mas intente, todo o tempo, colocar-se sobre fundamentos diferentes dos sistemas de apropriação, cadeias de comando-obediência, hierarquias, sistemas que focam o futuro da criança, não ela em si mesma. Por isso, para isso, é preciso buscar pais e mães, educadores que afinem profundamente com os aspectos nucleares dessas ideias.

    Outro dia, lendo uma publicação de um amigo, fui tocado por uma frase dele. Meu amigo disse, em relação a uma instituição religiosa que ele frequenta, que estava um tanto pessimista quanto à possibilidade de conversar e ser ouvido nas questões que observava, que se sentia um tanto cansado de ter que explicar muitas e muitas vezes o que, para ele, poderia estar simplesmente incluído na proposta do coletivo e que, por isso tudo, preferia jogar suas energias na “reinvenção” e construção de um espaço; um novo espaço.

    Há tempos tenho dito sobre ter a sensação de perceber um portal se aproximando. Com naturalidade sempre imaginava que este portal se referia à V-E. Porém, agora, me dou conta de que, além do portal V-E, existe um portal Alexandre – um que apenas eu devo assumir e me responsabilizar. Me dei conta, mais uma vez na vida, de que estou em busca de um mergulho mais profundo. Dessa vez no mar que os 10 anos como aprendiz na Vila-Escola me permitiu descobrir. Tenho me sentido atraído por experiências mais radicais, comunitárias, nas quais a energia do que tentei explicar acima está colocada em prática dentro das possibilidades e com intenção sempre forte. Sinto que estou aberto para isso.

    Não sei ainda o que pode acontecer, o que está para se abrir. Sinto-me sereno e atento aos movimentos, aos sinais, à bússola; acima de tudo, sinto-me grato à Vila-Escola Projeto de Gente – e, todos sabem, que quando falo V-E estou falando de cada um que aqui passou e aqui está.

    O QUE FAZER COM O QUE APRENDI NOS 10 ANOS NA VILA-ESCOLA PROJETO DE GENTE?

    (ou, quais as consequências de ter aprendido o que aprendi na Vila-Escola?)

    Nos últimos dias tenho feito a mim mesmo essas perguntas. Ao mesmo tempo sou remetido à pergunta proposta como condutora do próximo encontro dos educadores da Vila-Escola: o que identifico como necessidades que precisam estar presentes em meu trabalho na V-E para que me sinta feliz, em paz? Não me lembro se estes são exatamente os termos da questão proposta, mas creio que, em linhas gerais, aí esta o conteúdo.

    As duas, as três, perguntas estão escritas bem no alto do portal ao qual me referi; falo no singular, o portal, pois, o portal Alexandre e o portal V-E formam, para mim, um só portal; um portal quântico. É, devo assumir antes de tudo, um portal presente em meu processo de individuação, representa minha responsabilidade, pessoal, legítima e intransferível. Ao mesmo tempo, acho que não são exatamente perguntas que preciso responder usando apenas uma ferramenta mental; mais que racionalizar, o que preciso é perceber o fluxo, o rumo de meu processo, perceber a corrente que guia minha existência.

    Hoje, quando abri o computador para começar a escrever esse texto, reencontrei trechos de uma entrevista de Pepe Mujica, publicada no site argentino El Puercoespín. Acho que Mujica pode me ajudar, pelo menos começar, a esclarecer o que preciso. Em negrito as palavras de Mujica:

    “A batalha agora é mais longa. (prefiro, ao invés de batalha, trabalho, pois, como vocês sabem, acho que batalha favorece o paradigma vigente que funciona tendo como base a competição, a luta, a guerra, a batalha, os grupos separados, a existência de inimigos. Porém, concordo profundamente que o trabalho é longo, muito longo, talvez por isso classificado na categoria do utópico)

    As mudanças materiais, as relações de propriedade, nem sequer são o mais importante. O fundamental são as mudanças culturais (mudanças que, como diz Maturana, são acontecimentos que se fazem ao longo de conversações sobre conversações, de emocionares sobre emocionares, compondo e organizando uma forma; as relações de propriedade, o materialismo, o consumismo de fato não são o mais importante, são apenas os sintomas mais visíveis, moldados ao longo de gerações e gerações – são ponta de iceberg) e estas transformações exigem muitíssimo tempo.

    Mesmo nós, que não podemos aceitar filosoficamente o capitalismo, estamos cercados de capitalismo em todos os usos e costumes de nossas vidas, de nossas sociedades. Ninguém escapa à densa malha do mercado, a sua tirania. (O que nos leva a um tema de conversa comum na V-E: não podemos negar o que está à nossa volta, não podemos fingir que somos, ou seremos, um bolsão invulnerável às influências do que nos cerca. Fato! Porém, como dialogar com o extraordinário radicalismo do “mundo real” moldado por relações intransigentes e intolerantes à diversidade, à alternativa? Aos habitantes do “mundo real” parece que o problema são as pessoas “de outro mundo” que apenas desejam questionar e propor outros modos de estabelecer relações. Na melhor das hipóteses as pessoas do “mundo real” consideram as “de outro mundo” como pessoas com lindas ideias, mas vivendo no mundo da lua. Desse modo, tais pessoas passam a ser percebidas como utópicas, sinônimo de lunáticos. Os habitantes do “mundo real” dizem com frequência: sempre foi assim e para sempre será. Porém, se os lunáticos passarem de certos limites, serão intolerados, considerados subversivos, fora da lei e da ordem, condenados, pois ninguém deve escapar “à densa malha” do “mundo real”, do mercado e sua tirania.)

    Os setores proprietários dizem que não se deve dar o peixe, mas ensinar as pessoas a pescar; mas quando destroçamos seu barco, roubamos sua vara e tiramos seus anzóis, é preciso começar dando-lhes o peixe. (A única alternativa entrevista pela imensa maioria é – bela isca – exatamente comprar os peixes, barcos, varas e anzóis que estão nas vitrines das lojas dos proprietários do “mundo real” – comprar após ganhar o rico dinheirinho na labuta cotidiana não importando à custa de quais sacrifícios. Porém, comprando lá, mordendo a isca, mantemos acesa a fogueira que, afinal, consome nossa capacidade vital, nossa energia, para que possamos... comprar peixe, barco, varas e anzóis. “Dar peixes” pode não ser literalmente dar peixes – embora eventualmente, isso seja necessário –, pode ser propor alternativa, defrontar o sistema, ir à raiz, pelo menos a raiz perceptível, da questão, diagnosticar e tentar o tratamento mais profundo, mais verdadeiro)

    A vida é muito bela e é preciso procurar fazer as coisas enquanto a sociedade real funciona, ainda que seja capitalista. (Um “enquanto” que pode ser bem curto, talvez menor do que o tempo necessário para conversar, conversar, conversar, propor e construir uma nova sociedade fundada em bases não competitivas, solidárias, sem inimizades. Estamos perto do cheque mate; a sociedade vigente está naufragando, é o que muitos dizem e muitos índices apontam, contudo ainda tem um imenso cacife e potencialidade para muita reação)

    Tenho que cobrar impostos para mitigar as enormes dificuldades sociais; ao mesmo tempo, não posso cair no conformismo crônico de pensar que reformando o capitalismo vou a algum lado. (Aqui está a voz do presidente de uma pequena nação, um homem atento ao que se passa ao seu redor, às pessoas que precisam do tal peixe vendido nas lojas do “mundo real”; atento também ao fato de que não basta uma reforma do capitalismo – reform de ponta de iceberg –, mas uma nova proposição) Não podemos substituir as forças produtivas da noite para o dia, nem em dez anos.

    São processos que precisam de coparticipação e inteligência. Ao mesmo tempo em que lutamos (novamente, prefiro o “trabalhamos”, mas concordo profundamente com a necessidade de coparticipação; quando Mujica fala de coparticipação, repito, sou muito tocado, profundamente tocado.) para transformar o futuro, é preciso fazer funcionar o velho, porque as pessoas têm de viver. É uma equação difícil. O desafio é bravo. Mas isso não significa que vá engolir a pastilha do capitalismo, nesta altura de minha vida.

    É preciso criar mundos de felicidade com poucas coisas, com sobriedade.(e então sonho com a possibilidade de estar junto a pessoas que querem, necessitam, organizar um pequeno mundo no qual as pessoas estarão unidas por propósito comuns: reconexão com vínculos afetivos sem que exista apropriação de qualquer espécie, ausência de hierarquia, ausência de cadeias de comando e obediência, atenção à máxima que ensina: “de cada um, de acordo com suas capacidades; para cada um, de acordo com suas necessidades”) Refiro-me a viver com bagagem leve, a não viver escravizado pela renovação consumista permanente que é uma febre e obriga a trabalhar, trabalhar e trabalhar para pagar contas que nunca terminam. Não se trata de uma apologia da pobreza, mas de um elogio à sobriedade. (Mujica fala do consumismo, da pobreza e, por consequência, do acúmulo – a tal da riqueza –, mas, creio, também podemos pensar e sentir outros excessos, outras compulsões que nos aprisionam e nos colocam na rota do sistema. Fala de febre, trazendo, e concordo com isso, à tona o conceito de doença para o que a espécie humana tem construído)

    E aqui termina a entrevista do velho Pepe.

    Seguindo: quando me perguntam qual é minha profissão, meu trabalho, comento que descobri minha profissão aqui em Cumuruxatiba. Aqui me formo médico-educador na Vila-Escola Projeto de Gente.

    Quando digo educador em médico-educador, não estou me referindo ao educador convencional ligado a processos intelectuais, cognitivos, pedagógicos. Prefiro beber na fonte da etimologia que ensina que “educar” é conduzir para fora; não diria conduzir, no sentido de levar, nem sequer apontar um caminho, mas sim no sentido de dar a mão, apenas dar a mão e acompanhar a criança em sua jornada de descoberta, sobretudo a descoberta de si mesmo; nesse caminho, certamente, a curiosidade de cada criança– inata na espécie sapiens sapiens – vai apontar o interesse por conhecer o mundo que a cerca.

    E quanto ao médico? Pois bem, ao longo desses dez anos, jamais fui tão médico, é o que sinto, e digo quando me preguntam se tenho saudade da medicina.

    Quando era médico homeopata – e amava o ofício! – já tinha muito cuidado em relação aos diagnósticos, pois sentia que, muitas vezes, diagnosticar implicava em certo “empacotamento” e daí a possibilidade de descuido com o que acontecia à volta do diagnóstico e principalmente da pessoa doente. O diagnóstico muitas vezes me parecia uma caixinha onde uma pessoa era guardada. Claro que, com atenção, um diagnóstico pode ser orientador e, ao contrário do que disse antes, revelador, pois a doença é simbólica, isto é, expressa no visível, uma organização que se faz em muitas dimensões, que se faz de dentro pra fora, do sutil ao visível. Claro que essa é uma maneira não convencional de perceber a doença e a saúde – nesse caso, percebidos como uma construção na qual temos coparticipação.

    Estou falando disso, pois, principalmente nos últimos meses, percebo, cuidadosamente, que concordo com certo diagnóstico. Concordo por perceber sinais e sintomas e juntá-los em uma síndrome que, para mim, faz bastante sentido. Felizmente, não estou só, pois muitas pessoas estão percebendo a mesma cadeia de sinais e sintomas, fazendo, assim, diagnósticos e prognósticos semelhantes.

    Entretanto, antes de falar do diagnóstico em si, quero dizer duas coisas. A primeira: concordar e fazer esse diagnóstico me colocou em uma posição radicalmente comprometida já que, médico-educador, não posso me imaginar não cuidando da melhor maneira possível da doença diagnosticada. Tal radicalidade torna-se particularmente importante quando levo em consideração a pergunta que dá título ao texto. A segunda afirmação: desde já devo dizer que o prognóstico que o diagnóstico carrega é severo, sombrio mesmo. Diagnóstico de doença terminal. Digo terminal pois tenho muitas dificuldades em perceber a possibilidade de um retorno ao estado de saúde pelo próprio movimento do ser doente - e, como homeopata e terapeuta, não antevejo um caminho de cura senão pela ação clara e consciente do ser doente. De modo geral, o que vejo são tratamentos que agem sobre os sintomas da doença, porém não atuam na fonte da desarmonia; não vislumbro assim mudança no rumo do processo. Infelizmente, a onda conservadora, fascista, que varre o planeta parece confirmar o aprofundamento da doença. Na outra ponta, felizmente, vemos belos esforços de muitas pessoas, mas não vejo o sistema se abalar significativamente.

    Assim, me parece mais atraente trabalhar no sentido de criar condições para que novas estruturas possam germinar, brotar e proliferar oferecendo alternativa ao sistema vigente – como uma plantinha sã nascendo no meio do cimento.

    Porém, vamos voltar ao tal diagnóstico. Um ponto importante: a doença é crônica! Muito crônica, com milhares de anos de existência. Sua origem pode ser vislumbrada – é possível que existam elos ainda mais antigos – desde a aurora da emergência do humano nesse planetinha, possivelmente no Paleolítico e, adiante, no Neolítico. A importância desse aspecto reside no fato de que essa origem está esquecida, perdida nas brumas de milhares de anos de ações, reações e reações e reações e reações... Reações que ganharam, ao longo desses milhares de anos, foro de naturalidade, uma estrutura forte e cristalizada forjada ao longo dos tempos. É essa dinâmica que me faz muitas vezes repetir uma conclusão: hoje, lidamos com sintomas sobre sintomas sobre sintomas. Tratamos de um sintoma, porém, atrás, encontramos outro... e outro... e outro... e outro... gerações de sintomas.

    Vou usar um texto, escrito por mim há alguns meses, que fala sobre uma hipótese de dinâmica do processo de organização dessa estrutura na comunidade humana: “um processo, provavelmente não percebido durante sua formação nos grupos comunitários - famílias -, ocorreu. Possivelmente um "processo sem reflexão, fora de qualquer intencionalidade". Conforme nos ensinou Maturana: povos (...)paleolíticos (...), na Europa - se tornaram sedentários, agricultores. Outros seguiam manadas de animais em migração. Não eram proprietários nem mesmo pastores, pois não impediam o livre movimento destes animais. Do mesmo modo não impediam de maneira significativa a ação de predadores - lobos, por exemplo -; isto é, partilhavam o alimento com os lobos. A apropriação não constava na forma de viver destes povos. Ocasionalmente protegiam sua fonte de alimento rechaçando algum lobo, porém este ato não constituía, nem tampouco organizava, uma mudança no emocionar da comunidade. O grupo não sentia os lobos como inimigos (...).

    Entretanto, talvez por conta de um emocionar mais sensível de alguns membros de certas comunidades, este rechaçar transformou-se em prática comum, deliberada em tais comunidades. Aos poucos, os lobos passaram a gerar sentimentos de inimizade, a serem sentidos como inimigos pelos humanos. A ação de simples rechaço evoluiu para a morte destes animais como uma busca de garantia do alimento. Com esta busca de garantia gerada, talvez, pela insegurança de membros daquelas comunidades, novos fios foram se enredando: a manada não era mais partilhada, o senso de apropriação se constituiu, a figura do inimigo foi forjada, o direito a eliminá-lo também – o sentido de legítima defesa origina-se, assim, do medo e da possibilidade de impor, de esmagar aquele que, pretensamente, ameaça a comunidade humana.

    (...)"Por conta de um emocionar mais sensível de alguns membros de certas comunidades", o que isto quer dizer? Cada humano é único - isto é, é um ser singular e com sentimentos intransferíveis. Cada um sente e age – e tem esse direito – de acordo com seu sentir único e intransferível, porém é importante lembrar dois aspectos: (1) a imensa responsabilidade que isso acarreta, e (2) podemos negar esta singularidade e (re)agir até mesmo contra nossos sentimentos mais profundos; vale dizer, podemos escolher negar nossa ética, nossa responsabilidade pessoal e intransferível, negar nossa identificação com a energia arquetípica do "eu sou", podemos, com variadas motivações, seguir a voz de outros, o comando de outros. Também é importante lembrar que somos semelhantes uns aos outros, não iguais nem completamente diferentes, sim semelhantes; vale dizer, nenhum de nós tem um sentimento que qualquer outro humano não tenha, mas, ao mesmo tempo, apenas cada um sente o que sente. Por isso, uma mesma experiência, mesmo que de todos, atinge cada um de modo único. Aqueles mais sensíveis a uma determinada circunstância podem, e vão, agir de maneira compatível a seu sentimento pessoal e esse é o “emocionar mais sensível de alguns membros de certas comunidades”. Um emocionar e agir que pode – e vai – influenciar no emocionar e no agir dos que estão ao redor. (...)

    Assim, pode acontecer um super-agir, um reagir para além do necessário. Movidos pelo super-medo, pela super-sensibilidade, pela super-necessidade, alguns e a comunidade, sem se dar conta do exagero , organizam super-ações. As super-ações propõem um novo fluxo no desenrolar da vida cotidiana de uma comunidade. O um se entrelaça com o um, conversa com todos, e uma mudança pode tomar curso, imperceptível, mas definidora de novas rotas.

    “Quando estas (super-ações) começam a ser conservadas transgeracionalmente, na rede de conversações que define essa comunidade, ocorre uma mudança cultural”, as crianças aprendem a viver sob esses signos, a considerá-los naturais em suas existências – para elas, dependentes de quem as cuidem, de quem as mantenham vivas, agasalhadas, alimentadas, o sentimento de pertença a uma comunidade é vivido profundamente, e levado ao extremo com a ideia de que fora de sua comunidade não há existência possível.

    Além disso, o fluxo organizativo dessa nova cultura vai espalhar-se para outros domínios da existência da comunidade – não apenas no campo objetivo das necessidades do alimentar, mas também no campo das ideias e das crenças.

    E assim, comunidades se separaram entre si em busca de garantias oriundas de emocionares próprios. Comunidades se separam e a inimizade, a agressão, a defesa contra a agressão tornam-se parte do cotidiano. Nações são organizadas, fronteiras solidamente desenhadas, ideias e formas de viver são transformadas – dentro do senso de apropriação – em verdades absolutas e que devem, “naturalmente”, ser defendidas de seus inimigos.

    Fanatismo e guerra – discursos e ações de autoritarismo e subordinação, poder e obediência atendem às fantasias de proteção e garantias de muitos que negam fantasias e garantias de outros. Porém, ao fim e ao cabo, todos negam a si mesmos, pois, na mesma busca de garantia, seja pelo comando seja pela obediência, todos entregam suas ideias próprias, sua autonomia, seu amor-próprio, em troca da pretensa segurança.

    Assim, seres humanos e suas identidades pessoais organizam uma identidade cultural, coletiva – identidade coletiva gerada não pelo compartilhar de sensibilidades, por compaixão, empatia e ternura, e sim pela reação ao medo, pela negação do outro, pela apropriação de objetos e ideias, pela férrea determinação de um grupo sobre o que é errado e sobre o que é certo, sobre o que é legítimo e ilegítimo, pelo poder conferido por uma hierarquia fundada na autoridade e na obediência, ação ativa ou ação passiva de cada um. Tal organização acontece em um processo, gradativo e escolhido, que nos “torna insensíveis para as bases emocionais de nossos atos. Em consequência, nos tornou inconscientes de nossa responsabilidade em relação a eles, e obstruiu nossa possibilidade de entender que a história humana segue o caminho do emocionar, e não um curso guiado por possibilidades materiais ou recursos naturais. Nossa visão torna-se obscurecida para o fato de que são nossos desejos e preferências que determinam aquilo que vivemos como verdades, necessidades, vantagens e fatos.”.

    Maturana nos ensina que não é uma natureza humana – inata e determinística, biológica – que nos leva a construir uma sociedade culturalmente agressiva e competitiva. Tal sociedade é fruto de um continuado, transgeracional, exercício de reação ao medo de não existir dentro de um grupo, de não pertencer, um exercício de negação da existência livre do outro, de formação de inimizades, de percepção do outro como inimigo, da apropriação deste outro, da manipulação da natureza, “coisificação” e organização de mecanismos de produção dessas, e/ou através dessas, coisas; enfim, uma (re)ação, ilusória mas viva, organizativa, que aprofunda uma atitude de esquecimento de princípios e a uma construção que nega “nossa condição de filhos do amor”, que nega a biologia do amor e da colaboração.” (aqui termina o tal texto que escrevi há tempos)

    A competição, o senso de apropriação, a negação de si e do outro, a formação de inimizades, não são inatos à espécie humana, mas são vividos, no dia a dia social, inter-relacional, como se assim fossem: uma condição inata. Nossos filhos e filhas sentem tais circunstâncias como incrustadas em seu DNA. Como se fossem inatas, um “como se” que revela a ilusão sobre a qual se funda a construção social. Em suma, aprendemos cotidianamente tais circunstâncias. Aprendemos em casa, na rua, na escola, nas igrejas, nos empregos, nos casamentos.

    Foi assim, através de sentimentos, reflexões, leituras, muitas conversas, muita escuta, que o tal portal citado lá no outro texto foi, aos poucos, se tornando visível para mim. Um portal além do qual se divisa um campo no qual pessoas se organizam com uma proposta profunda, radical, exigente, psicológica, espiritual no sentido mais amplo da vida em comum – uma experiência cotidiana de aprendizado, de inter-relações alicerçadas em princípios éticos, acordados, conscientes e partilhados por cada membro constituinte da comunidade. Escrevi “experiência de aprendizado”, porém, devo, de fato, escrever “experiência de reaprendizagem”, pois se trata de um recontato consciente com a matriz que gerou o humano.

    Peço atenção aqui, pois não estou falando de algo como as primeiras comunidades cristãs: “grupos de amizade e ajuda mútua, na base do desinteresse e abnegação pessoais, no seio de uma sociedade profundamente egoísta”, nem tampouco estou falando sobre experiências de grupos “mais ou menos privilegiados ou místicos voluntariamente separados do mundo”, belas “tentativas artificiais e frágeis de idealistas religiosos ou leigos”, muito menos um condomínio no qual amigos vivem próximos, apenas próximos.

    Estou falando de recontatar uma matriz que, mantendo-se por gerações e gerações deu campo ao início da humanidade através de “um modo de viver em conversações que envolviam a colaboração dos sexos na vida cotidiana, por meio do compartilhamento de alimentos, da ternura e da sensualidade, (...) de uma colaboração que não quer dizer obediência, (...) que ocorre na realização espontânea de comportamentos coerentes de dois ou mais seres vivos (...), que surge de um desejo espontâneo, que leva a uma ação que resulta combinada a partir do prazer”, que se funda, portanto, na confiança da autonomia de cada um, em conversações de participação – não de apropriação –, de sexualidade associada à sensualidade e ternura – não controlada como instrumento de poder procriativo e/ou de dominância de um gênero sobre outro –, da valorização da cooperação, repito, e co-inspiração, como modos naturais de vida – não a competição e o confronto como modos naturalizados de convivência –, onde o místico surge como observação simples e consciente do complexo contínuo e coerente da vida e da morte – não como subordinação a uma autoridade superior e transcendente que exige submissão e obediência –, onde o diferente não é, de modo algum, negado, onde não há oposição nem subordinação entre homens e mulheres. Essa matriz existiu, deixou pistas e uma marca viva: a emergência e os primeiros passos da humanidade.

    É bastante comum ouvirmos que o que está posto está posto, é assim e sempre será. Felizmente, podemos apresentar fortes evidências de que o campo no qual a espécie humana encontrou possibilidade de se desenvolver e organizar uma rede de inter-relações, uma sociedade, não era assim como hoje se manifesta, era alimentado pela colaboração, pela troca, pelo exercício da autonomia. Algo no caminho nos levou a uma alteração desse paradigma, como comentamos parágrafos acima. Uma escolha foi feita, perdemos o contato com a autoridade interna e desenvolvemos o autoritarismo. Porém, sempre podemos refazer nossas escolhas.

    Aliás, nesse sentido, Noam Chomsky nos mostra que aquele que eventualmente está no lugar de autoridade tem a obrigação de demonstrar que ela – a autoridade – é legítima.  Se consegue demonstrar é então um ato legítimo, é autoridade interna. Dá como exemplo o cuidar de uma criança – podemos puxar uma criança que corre de repente na direção da rua, pois temos como argumentar: é uma clara ação de cuidado e proteção. Se não o consegue estará demonstrado que é uma forma de dominação, coerção, de autoritarismo. E o autoritarismo é campo para que o outro, legitimamente, o conteste – e precisa fazê-lo quando percebe isso. Parece óbvio, porém muitas vezes os adultos – inclusive porque acham que estão fazendo o certo e o justo – não questionam a si mesmos sobre a qualidade de seu ato – se autoritário ou se cuidadoso – e assim frequentemente alimentam e naturalizam a cadeia de comando-obediência.

    Foi assim que, no dia a dia da V-E, principalmente durante o ano de 2016, passei a experimentar novos sentimentos ao lado de outros já conhecidos. Por um lado, a conhecida alegria e profundo entusiasmo por trabalhar no sentido de aperfeiçoar o campo de atenção, escuta viva e crédito na manifestação das crianças; campo, aliás, que também me permite observar minhas próprias contradições e tentar a correção de meus equívocos; por outro lado, passei a sentir a angústia de perceber que, mais dia menos dia elas, as crianças, estariam inevitavelmente envolvidas pelas super-ações esperadas, exigidas pela sociedade, palas famílias. Super-ações segundo as quais serão julgadas – absolvidas, se se adaptam ou condenadas, se se rebelam. E como exigir diferente uma vez que elas, crianças, são e estão profundamente dependentes do apoio de adultos que, como vimos, pensam a ordem social de modo convencional, “naturalmente” opressor, dominante e autoritário?

    Nesse sentido, escreveu Daniel Quinn, dando voz a Ismael, um gorila: “— Ontem você me disse que tem a impressão de ser um cativo. E isso porque sofre uma enorme pressão para ocupar um lugar, qualquer que seja, na história que sua cultura está encenando no mundo. Essa pressão é exercida de todas as maneiras, em todos os níveis, mas basicamente desta maneira: quem se recusar a ocupar um lugar na história, não será alimentado. A Mãe Cultura ensina que é assim que deve ser. Seu lugar é aqui, participando dessa história, fazendo parte da engrenagem e, como recompensa, sendo alimentado. Não há “outra coisa”. Sair dessa história é sair dos limites do mundo. Não há saída, a não ser a morte”.

    Também passei a perceber, creio, melhor o que parecia essencial para cada um de nós, educadores, o que cada um sentia como responsabilidade pessoal na constituição do campo de atenção e cuidados para as crianças, isto é, o que cada um sente como responsabilidade pessoal e uma necessidade essencial a ser oferecida às crianças.

    Assim, para uns, me parece, o aspecto libertário é prioritário. Eu sinto a necessidade de trabalhar nesse sentido. Nos últimos tempos, tivemos boas conversas sobre isso – o que é mesmo liberdade?, ela existe?, não existe?, e a religião “Perfeita Liberdade”, tem um nome pertinente?, somos, afinal, dependentes uns dos outros, portanto não há liberdade possível? Para mim, em singela reflexão, se há opressão e submissão, há necessidade de libertação; se existe cadeia de comando-obediência, há necessidade de libertação; se existe algum tipo de repressão, seja de fora para dentro seja de dentro para fora, há necessidade de libertação. A liberdade é um caminho, uma construção infinita em nossa limitação. Para outros educadores talvez a necessidade de aquisição de conhecimentos como instrumentos valiosos para a vida social cotidiana parece ganhar importância, pois essa é mesmo uma necessidade para que a criança possa se desenvolver com possibilidades de transformar e melhorar o que está posto.

    Importante dizer que uma visão não exclui a outra, isto é, o trabalho prioritariamente libertário, no sentido dito, não exclui outras qualidades de atenção – nem o revés. Tampouco digo que uns e outros não estão atentos a todas as questões. Trata-se de tendências pessoais, fluxos organizados pela sensibilidade de cada um, pela história de cada um.

    De todo modo, fui sendo atraído pela possibilidade de viver em comunidade, junto a pessoas que partilhassem dessas reflexões e sentimentos. Essa comunidade, fui me dando conta, talvez não fosse exatamente a V-E, pois seria um espaço mais amplo que um espaço de aprendizagem; nela, nessa comunidade, a aprendizagem seria um dos temas a ser sentido, pensado.

    Comecei a procurar, me antenar para conhecer experiências de organizações comunitárias com busca semelhante. Em casa, estamos, Perpétua e eu, mais atentos a qualquer indício de prática autoritária, conversando mais e mais com Paula e Leticia, e entre nós, sobre como a hierarquia está entranhada em nosso cotidiano.

    Cada dia, cada conversa, cada leitura, e meu ser médico era tocado. Conheci falas e textos de pessoas que me tocaram. Tenho vontade de trazer alguns exemplos. Em um livro sobre a República dos Guaranis li: “De cada um, de acordo com sua capacidade; para cada um, de acordo com sua necessidade”; em Agostinho: “Amai uns aos outros, e o resto façam como quiserem”; o Rabino Hillel disse: “Se eu não for por mim, quem o será? Mas, se eu for só por mim, quem serei eu?”; Daniel Quinn escreveu esse diálogo: “— Tenho a impressão de ser um cativo, mas não sei explicar por que tenho tal impressão — disse eu. — Anos atrás (você devia ser criança na época, talvez não se lembre), muitos jovens (...) tiveram a mesma impressão. Fizeram um esforço ingênuo e desorganizado de escapar do cativeiro, mas acabaram fracassando, porque não foram capazes de encontrar as grades da jaula. Se você não descobre o que o está prendendo, a vontade de sair logo se torna confusa e ineficaz.”; finalmente, Janine Benyos: “Para mim é ter realmente a floresta como modelo. A estrutura da floresta, a função de verdadeira abundância.”.

    Estou me formando, há bastante tempo, médico, educador, médico-educador, cuidador, e preciso me sentir vivo, ativo, leal a mim mesmo, oferecendo o melhor cuidado que posso. Eu, que sou por natureza uma pessoa insegura, com pequena dose de auto confiança, me sentia mais e mais certo do que preciso fazer, embora ainda não saiba nada sobre como fazer exatamente. Viajei ao Rio no fim de dezembro com essas sensações, pensamentos, sentimentos. Voltei mais firme – nas certezas e nas incertezas...

    Creio que já é hora d’eu aceitar que minha energia não é confrontadora, não aprecio o embate, a luta, que sou, via de regra, conciliador. Não sou um guerreiro, não quero ser, pois receio que guerras e combates apenas alimentem a doença – mais ou menos como o combate que a medicina alopática pratica e alimenta a doença ao eliminar um ou mais sintomas, mas não alcançando um campo mais fundo e sutil da organização da patologia.

    De modo que, amig@s, estou me sentindo como no início desse século quando me vi tomado por uma ideia-sentimento que me trouxe a Cumuruxatiba, que está na base de minha contribuição na construção cotidiana de nossa Vila-Escola Projeto de Gente. Sinto que estou preparando um novo passo. Não sei o que está se abrindo, sei que algo se movimenta. Em Cumuruxatiba? Na Vila-Escola? Em algum outro recanto? Não sei, sei apenas que estou dedicado completamente à Vila-Escola e escrevendo um projeto de vida comunitária fundado no que apenas esbocei para vocês aqui nesse texto.

     

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