Educadores

  • 08

    MAI

    2015

    Comunidade de Aprendizes, uma boa aventura

    por Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti em 08/05/2015

    Parte II

    Ora, se os ambientes que recebem as crianças são cheios de regras predeterminadas, preconceituadas, somos obrigados a reconhecer que somos nós, adultos e principais construtores destes ambientes, que estamos carregados de tais preconceitos, pois somos nós que assentamos os “tijolos” desta construção. Geração após geração, apenas mudando o estilo da época, repetimos estes gestos. Assim, as regras, preconceituosas, predeterminadas, passam a ser consideradas naturais, ditas normais. E, agravando tudo, aqueles que estiverem contra elas serão considerados marginais, desregrados e anormais.

    Infelizmente, começando a tentar responder as perguntas feitas no primeiro módulo, revela-se que a educação não é, via de regra, uma tentativa de propiciar condições para que a criança conheça a si mesma – pois, como uma criança pode conhecer a si mesmo em um ambiente criado por pessoas que escondem-se de si mesmas? Defendemos, portanto, uma ação complexa e radical que exige uma nova organização levada a efeito por pessoas que reconheçam que devem desconstruir preconceitos, reformular regras, para então propiciar condições para que a criança (re)conheça a si mesma, (re)lembre quem ela é, traga à tona o que foi negado, esquecido e substituído pelas tais exigidas atitudes. Pessoas adultas – mães, pais, educadoras, educadores – que aceitem sua condição de aprendizes e formem a Comunidade de Aprendizes junto aos pequeninos e pequeninas. Assim, para que estas condições possam se organizar, é necessário que, antes de tudo, os adultos voltem sobre si mesmos, desçam de seus pedestais de senhores e donos de verdades, e criem, em si, escolas para si mesmos. Felizmente, estas escolas podem ser, ao mesmo tempo, escolas para os pequenos: as Comunidades.

    Mas, vamos voltar à primeira pergunta, feita lá em cima, cuja resposta, já sabemos, é simples, embora complexa: não, não nos conhecemos. Por isso, por ser uma resposta simples porém definindo uma posição paralisada, quase um beco sem saída, é necessário buscar coragem, e repetir a perguntar: conhecemos de nós o suficiente para nos sentir, mínima e realmente, satisfeitos com o que sabemos de nós mesmos? Estamos, mínima e realmente, apontando nossa vida na direção de nossas verdadeiras crenças? Estamos, mínima e realmente, em paz com nossas consciências? Podemos nos responsabilizar, mesmo frente a toda e qualquer consequência, em qualquer espécie de tribunal, por nossas ações? Podemos, como disse Jean Yves Leloup, afirmar que “posso me equivocar, mas não minto para mim mesmo”? Um educador não pode deixar de responder a esta pergunta senão com um firme: não posso mentir para mim mesmo. Se não percebemos isso, vamos cobrar das crianças a nossa própria mentira. E, assim, estaremos ajudando a matar a verdade de cada uma delas. De fato, nem mesmo estaremos vendo a verdade de cada uma delas.

    O pensamento e ação budista podem ajudar a refletir – voltar sobre si – a respeito do que estamos escrevendo. Disse o Buda: “Sede vós mesmos vossa própria bandeira e vosso refúgio. Não vos confieis a nenhum refúgio exterior a vós. Apegai-vos fortemente à Verdade, que ela seja vossa bandeira e vosso refúgio.” A verdade é, podemos ler nessas palavras, a misteriosa identidade que trazemos entranhada em nosso interior: o arquétipo do EU SOU... A bandeira deve representar este arquétipo. O refúgio está em cada um, está no EU SOU e na coragem de manifestá-lo. Aliás, a mesma coragem exigida quando estamos no beco sem saída, escondidos de nós mesmos e só nos resta encarar o que quer que nos levou a este lugar paralisante, semimorto. Ou isso ou enfrentar o mais profundo e inescapável mal estar.

    Por isso, segue o Buda em seus ensinamentos: “Não acrediteis numa coisa apenas por ouvir dizer. Não acrediteis na fé das tradições só porque foram transmitidas por longas gerações. Não acrediteis em alguma coisa só porque é dita e repetida por muita gente. Não acrediteis em uma coisa só pelo testemunho de um sábio antigo. Não acrediteis numa coisa só porque as probabilidades a favorecem ou porque um longo hábito vos leva a tê-la por verdadeira. Não acrediteis no que imaginaste pensando que um ser superior a revelou. Não acrediteis em alguma coisa apenas pela autoridade dos mais velhos ou de vossos instrutores. Mas, (...) aquilo que corresponde ao vosso bem e ao bem dos outros, isso deveis aceitar, e por isso moldar sua conduta”.

    Vamos retomar perguntas, pois por muito tempo precisaremos retomá-las, repeti-las para nós mesmos, em voz alta, em silêncio, sozinhos, em grupo. Nossas escolas se organizam para ajudar as crianças a desenhar sua bandeira, lhes dão chance de conhecer seu refúgio? Os mestres dessas escolas estão dispostos, além de desenharem também eles mesmos suas próprias bandeiras, a não impor bandeiras apenas porque são ditas e repetidas por muita gente, apenas porque foram transmitidas por muitas gerações, apenas porque os favorecem- mesmo que ilusoriamente – e, por um longo hábito, passaram a tê-las como verdadeiras? Estão dispostos a desconstruir muros que ergueram, também por necessidade em algum momento de suas vidas, ao tentar fazer frente a seus próprios e exigentes ambientes?

    Quando leio a expressão milenar, budista, que foi aqui transcrita: “(...) aquilo – um algo – que corresponde ao vosso bem e ao bem dos outros, isso deveis aceitar, e por isso moldar sua conduta”, lembro de dois outros personagens, que viveram em tempos muito distintos, e trabalharam em direções aparentemente também muito distintas do Buda. Apenas aparentemente. O mais antigo foi Agostinho, padre da igreja católica, que em uma carta dirigida a jovens, escreveu: “Enfim, amem uns aos outros e, de resto, façam como quiserem”. Esta é uma afirmação que dota quem a deseja praticar de imensa responsabilidade, tanto no que diz respeito ao autoconhecimento quanto ao conhecer o outro. No mesmo rumo, escreveu Malatesta, anarquista: “Tudo se resume em: Liberdade total! Solidariedade total!”. Os três apontam para o mesmo lugar: a responsabilidade de ser quem somos e, por isso, conformam bons lemas – lemas libertários – para Comunidades de Aprendizes.

    E, assim, nos preparamos para a parte III.

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Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti: Médico homeopata formado pela UFRJ, atua como Médico-Educador na Vila-Escola Projeto de Gente, em Cumuruxatiba (Bahia).