Educadores

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    MAI

    2015

    Comunidade de Aprendizes, uma boa aventura - Parte III

    por Alexandre Cavalcanti em 15/05/2015

    Parte III

    Agora, vale a pena voltar à Educação, ao Processo de Individuação. Alexander Lowen escreve que o ato de buscar ALGO deve ter como base uma experiência prazerosa. Uma interpretação possível para este “algo”, aparentemente um tanto vago no texto de Lowen, pode ser compreendê-lo como sendo a verdade de cada um, sua bandeira, seu refúgio. O termo vago não é tão vago assim, pois está aberto para ser preenchido pela individuação de cada ser, de cada criança; o vago nos convida a refletir, e buscar, o que é próprio, pessoal e intransferível; o vago nos convida a preencher, a construir, a corporificar a vida; nos convida a viver um – prazeroso – processo de conhecimento, conhecimento de si mesmo, da Individuação, conhecimento dos outros que nos cercam. O que posso, devo, desejo, manifestar para sentir-me feliz, que “algo” me proporciona prazer e paz de espírito? Assim, podemos dizer que a experiência prazerosa deve estar na base da busca de ser, ser quem se é, pois nada deve trazer mais paz e prazer do que a livre manifestação do ser que sentimos emergir, natural, de nosso misterioso, e individual, centro.

    O Processo de Individuação é, pois, uma busca que deveria estar assegurada para cada criança. Assegurada e prazerosamente assegurada. Conhecer a si mesmo deveria ser uma experiência de prazer e alegria. Entretanto, o que as crianças percebem – mas não podem dizer? R. D. Laing escreve o que poderia ser a resposta das crianças: “Eles, os adultos, estão jogando o jogo deles. Eles estão jogando o jogo de não jogar um jogo (o jogo paralítico). Se eu lhes mostrar que os vejo tal qual eles estão, quebrarei as regras do jogo e receberei a sua punição. O que eu devo, pois, é jogar o jogo deles, o jogo de não ver o jogo que eles jogam.” E assim, dia a dia, passo a passo, a busca deixa de ser busca, alegre e séria brincadeira, para se tornar um jogo, tenso, de cartas marcadas, no fim do qual todos devem esquecer sua colorida bandeira e desenhar uma mesma bandeira. Neste jogo o gol será descobrir que bandeira é essa e assim responder a resposta certa. Jogo paralisante e, deste modo, uma monótona bandeira tremulará sobre um falso refúgio, onde impera o “jogo de não jogar”, o jogo que não diverte, jogo árduo, preocupante, onde não se pode errar, onde os dados têm que cair no número predeterminado. Um jogo onde se briga apenas pelos primeiros lugares oferecidos aos que levantam a bandeira certa, pois os demais serão excluídos, discriminados, ridicularizados. E aquele “algo” vago, vago porque, como dissemos, expressa uma verdade única e intransferível a ser conhecida ao longo das experiências da vida de cada criança, será substituído por um algo conhecido por todos, repetido por todos, robotizado, industrializado.

    Infelizmente, a isso chamamos a Escola da Vida. A escola onde aprenderemos a “ganhar a vida”; vale dizer, ganhar dinheiro para viver – devemos dizer, sobreviver, pois, nesta circunstância, não há mais vida em sentido pleno, abundante.

    Alguns mestres, mesmo carinhosos, desta escola, bons discípulos, bem esquecidos de si mesmos, bandeira monótona empunhada, disciplinadores, conhecedores da “verdade”, sabedores do que é a “vida de verdade”, percebem, genericamente, que “algo de errado deve haver com [algumas daquelas crianças], pois é certo que assim não agiriam se algo de errado não houvesse. (...) [Estas crianças] não se apercebem de que há com elas algo de errado porque uma das coisas que nelas andam erradas é não se aperceberem de que há com elas algo de errado. Portanto, temos que ajudá-las a aperceberem-se de que o fato de não se aperceber de que há com elas algo de errado é uma dessas coisas que nelas andam erradas.” (Laing)

    Porém, existem aquelas crianças que, ultrapassando obstáculos, criticam, apontam o jogo de não jogar. Os mestres, então, se debruçam sobre elas comentando que “algo de errado com elas está havendo posto que elas pensam que é conosco que algo anda errado porque tentamos ajudá-las a perceber que algo de errado com elas deve haver por pensar que conosco algo anda errado porque tentamos ajudá-las a perceber que as estamos ajudando a perceber que as não estamos perseguindo quando as estamos ajudando a perceber que algo de errado deve haver com elas quando não percebe que algo de errado deve haver com elas quando não nos agradecem sequer pelo fato de tentarmos ajudá-las a perceber que algo de errado deve haver com elas quando não percebe que algo de errado deve haver com elas quando não percebe que algo de errado deve haver com elas quando não percebe que algo de errado deve haver com elas.” (De novo, Laing, e exatamente como ele escreveu, sem pontuação, revelando o embaralhamento de uma mente defendida, perdida, que anda em círculos)

    Por um tempo as crianças tentam, à custa de sua imaginação, proteger seu mundo pessoal, vasto mundo, que elas, misteriosamente, já trazem consigo – e que apenas desejam explorar em uma prazerosa e possível expedição. Agem assim, pois, “por não terem quase nada, as crianças precisam confiar mais na imaginação do que na experiência” (Eleanor Roosevelt).

    Porém, poucos, pouquíssimos, conseguem manter contato com este mundo invisível, já que a experiência ao fim revela que devem abrir mão de quem são para serem aceitos, para terem a sensação de ser amados. Como têm pouca força frente ao mundo adulto, defendido mundo, resta pouca chance para as crianças. Rendem-se, pois sentem sua vida, sua existência, ameaçada.

    A vocação pessoal é assim, via de regra, substituída por um equivalente menor, apenas um compartimento da vocação maior: a vocação profissional – que vai gerar recursos para seguir com certa sensação de vida.

    Alguns, também poucos, pouquíssimos, irão, mais adiante, recuperar o senso de vocação pessoal, o senso de que existe uma fonte de vida pessoal, natural e legítima, que foi escondida, escondida a ponto de ter seu gosto, gosto de águas puras, cristalinas, esquecido. Poucos, pouquíssimos, vão se dar conta de que no lugar do poço limpo foi aberto, à força, outro, e neste foi colocada água estagnada, contaminada. Águas contaminadas, mas que passam a ser a aparentemente única fonte possível de vida – mesmo que vida desagradável, como desagradável é o gosto desta água. Vida possível, menor, não a possível e abundante vida, fruto da vocação viva que fez Josephine Baker perguntar: “É isso que chamam de vocação, o que a gente faz com alegria como se tivesse fogo no coração e o diabo no corpo?”

    Diabo? Que diabo é isso?

    ...

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti: Médico homeopata formado pela UFRJ, atua como Médico-Educador na Vila-Escola Projeto de Gente, em Cumuruxatiba (Bahia).