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    MAI

    2015

    Comunidade de Aprendizes, uma boa aventura - Parte IV

    por Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti em 27/05/2015

    Parte IV

    Um diabo que não à toa é confundido com o ser maléfico das religiões. Porém, aqui, trata-se do daimon grego, o guardião do conhecimento do EU SOU... Um guardião que é convocado pela divindade Laquesis a quem as almas se apresentam após escolherem a vida que lhes servirá de escola para conhecerem a si mesmas. Com este poderoso acompanhante as almas humanas vão frequentar a escola onde terão a chance de se conhecer e, uma vez conhecidas suas aptidões, habilidades, e sensibilidade, se oferecer ao mundo, à rede da vida.

    Este guardião, como o Grilo Falante do Pinóquio, não deixará de lembrar, seja em sonhos ou em momentos de revelação, os chamados insights, quem é cada um, o EU SOU... Por isso, por ser este incansável protetor da vocação pessoal, é muitas vezes sentido como inoportuno, diabólico no dizer de muitos, pois fala o que não desejamos ouvir, grita quando tapamos os ouvidos, reclama indignado quando a escolha não é a leal escolha do si mesmo, briga conosco quando abrimos mão de nós mesmos, quando nos rendemos às probabilidades que ilusoriamente apaziguam nosso medo de não ser aceito, de não existir – probabilidades que um longo hábito nos leva a tomar como verdadeiras, como únicas, como única realidade de vida. Entretanto, também esquecemos que o guardião é parte de nós, e, por isso, não pode ser afastado totalmente. Aliás, mais do que não pode ser afastado, ele não se afasta independente do que nossa vontade ordene.

    Para que o mito das Moiras não fique apenas em seu início, vamos resumir seu final: Laquesis envia a alma, agora com seu guardião, o daimon, para Cloto que ratifica a escolha feita pela alma – isto é, confirma que naquele lugar, junto a aquelas pessoas, a alma vai aprender o que precisa. Cloto então a manda para Átropos que torna este destino uma vocação. Depois, sem olhar para trás, a alma – e seu incorporado guardião, seu daimon – atravessa o Deserto do Esquecimento, senta no Trono da Necessidade, esquece-se de tudo isso e busca a vida na qual cumprir seu destino, ser quem ela é, será uma necessidade como beber e comer. E todos sabemos o que acontece quando não bebemos ou não comemos: infelicidade, tristeza, mal estar, doença.

    Enquanto escrevia este texto uma pessoa telefonou-me e contou sobre um conhecido seu que, para ascender no plano de cargos e salários de sua empresa, iniciou um curso superior que ele detesta, mas, nas regras sociais-trabalhistas onde ele está submerso, absolutamente necessário para suas pretensões. A pessoa comentou que seu conhecido está com ódio da faculdade, chega a ficar doente por conta disso. Creio que podemos dizer que ele percebe o ódio em relação à faculdade, mas não percebe com a mesma clareza o ódio ao sistema que dita as regras, assim como, menos ainda, percebe o ódio contra ele mesmo que, aprisionado, aceita estas regras para se manter, ilusoriamente, livre para “fazer o que quiser” com o salário ganho no fim do mês. Trata-se, portanto, de uma escolha. Uma escolha realizada já com o coração, há muito tempo, fechado para si mesmo, esquecido de si mesmo. A escolha do ódio, da doença.

    Estas escolhas são realizadas, como vimos, precocemente, com mais ou menos intensidade, por cada um de nós, por cada criança, dentro de suas famílias, de suas escolas, de suas sociedades, de suas culturas. Escolhas que vão tomar forma na organização da vida de cada um, pois, cada criança percebe, de variadas maneiras, que “há perigo na esquina, (que) eles venceram e o sinal está fechado para nós que somos jovens” (Belchior). Na verdade, fechado já antes da juventude, já na infância.

    De todo modo, sempre serão escolhas. Felizmente são escolhas, pois, quando percebermos nossos equívocos, podemos, com grande esforço (é certo!), retomar a rédea da vida, ao invés de, depois do tempo passado, das forças esgotadas, nos darmos conta que este sofrimento, esta doença e infelicidade fundam-se no fato de que “(...) , apesar de termos feito tudo, tudo, que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos, como nossos pais”. (Belchior)

     Por isso, precisamos criar Comunidades de Aprendizes, uma comunidade na qual as crianças, nas expedições do dia a dia, possam conhecer a si mesmas, suas paixões, sensibilidade e interesses – seu bem estar, sua boa aventura, sua bem-aventurança.

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Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti: Médico homeopata formado pela UFRJ, atua como Médico-Educador na Vila-Escola Projeto de Gente, em Cumuruxatiba (Bahia).