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    AGO

    2015

    CONANE 2015

    por Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti em 14/08/2015

    O genial Isaac Newton observando corpos trombando uns contra os outros formulou, em 1687, um dos pilares da mecânica clássica. Sua 3ª lei diz: “para toda interação, na forma de força, que um corpo A aplica sobre um corpo B, A irá receber, do corpo B, uma força de mesma direção, intensidade e sentido oposto”. A velha e conhecida “para toda ação existirá uma reação igual e contrária”.

    Se entre corpos inanimados esta é uma lei natural, brilhantemente observada, entre seres humanos ela apenas tem validade quando não usamos, em harmonia, as ferramentas que nos distinguem (apenas distinguem, não nos tornam superiores): razão e emoção. Vale dizer, a 3ª lei de Newton vale para os humanos quando agimos, melhor, reagimos como bolas de bilhar, cabeças duras e corações de pedra.

    Vou me permitir, aceitando minhas raízes homeopáticas, relembrar o que outro genial observador da natureza, o médico alemão Samuel Hahnemann, escreveu, em 1810: “No estado de saúde, a força vital de natureza autocrática (para ele, espiritual), que dinamicamente anima o corpo material (o organismo), reina com poder ilimitado e mantém todas as suas partes em admirável atividade harmônica, nas suas sensações e funções, de maneira que o espírito dotado de razão, que reside em nós, pode livremente dispor desse instrumento vivo e sadio para atender aos mais altos fins de nossa existência”. (no “Organon da Arte de Curar”)

    Newton fala dos corpos inanimados – as tais bolas de bilhar –, Hahnemann fala de corpos animados capazes de buscar o que é, para cada um, o “mais alto fim de sua existência”; capazes de reconhecer o que dita o misterioso “espírito dotado de razão” que o habita (e, por espírito dotado de razão, podemos entender a consciência singular, legítima e intransferível de cada ser humano – sua lei, sua autonomia); e capazes de escolher modos de viver e de, assim, oferecer sua contribuição à rede da vida.

    Cientes de que o parágrafo acima merece muito, mas muito mais conversa, vamos arriscar e dizer que, entre os humanos, bem pode existir uma lei que poderia ser formulada deste modo: “para toda ação corresponderá outra ação”. Simples assim, pois cada ser humano tem em si a possibilidade de reconhecer sua autonomia, manifestá-la, escolhendo sua ação; uma ação eleita entre muitas possíveis; eleita e, por isso, de inteira responsabilidade daquele que a elege; ações que serão vitais se colaborativas. Então, para cada ação corresponderá uma outra ação, escolhida e de absoluta responsabilidade daquele que a elege.

    Entretanto, as instituições humanas mais parecem formadas por seres humanos-bolas de bilhar trombando uns contra os outros, cabeças e corações encouraçados, defendidos, formando guetos, lutando por dominância, solitários, sociedades formadas por pessoas que buscam garantias, mas, de fato, promovendo falta, desperdício, competindo quando o que se pede é o colabor. E esta escolha perversa está presente em todos os campos da organização humana: na economia, na saúde, na justiça, nas cidades, nos campos, nas escolas...

    E então, chegamos à CONANE 2015 do título deste texto.

    A palavra educar vem, quase todos que estão lendo este texto sabem, do latim educare, por sua vez ligado a educere, verbo composto do prefixo ex (fora) + ducere (conduzir, levar), e significa literalmente “conduzir para fora”. Mas, conduzir o que para fora? Ora, nossa autonomia, a autonomia de cada um (nossa lei própria, nossa alma, nossa psique, nossa consciência, nosso self – marque sua(s) palavra(s) preferida(s), acrescente outra(s), pois não vamos discutir por isso). Educar, portanto, pode ser também entendido como a arte de ajudar uma criança a trazer para fora o ser que cada um é antes mesmo de poder ser quem é, como disse J. Hillman; a arte de ajudar a todos a trazer à tona o mistério de sua individuação que, se desobedecido, inevitavelmente promoverá mal estar, insatisfação, tensão, corações e mentes encouraçados, doença.

    Todos os que, por paixão, dedicam energia e trabalho à educação, que buscam alguma alternativa à modelos de educação regidos pela dura 3ª lei de Newton, têm na CONANE um espaço de conversa saudável, regida pelo afeto colaborativo, um espaço de leis gentis, uma fonte de trocas amorosas e nutritivas.

    Assim foi a CONANE 2013; assim se organiza a CONANE 2015!

     

     

     

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Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti: Médico homeopata formado pela UFRJ, atua como Médico-Educador na Vila-Escola Projeto de Gente, em Cumuruxatiba (Bahia).