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    MAR

    2016

    Pedagogia e Holocausto

    por Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti em 21/03/2016

    Lendo o prefácio do livro de Zygmunt Bauman, “Modernidade e Holocausto”, me assombrei com uma certa correlação que penso ter percebido ali. Não à toa demorei para tentar escrever sobre ela.

    Logo no início de seu texto, Bauman fala sobre sua esposa que, durante dois anos, escreveu sobre a experiência de ter vivido no gueto de Varsóvia e também comenta o agradecimento que ela lhe fez por ter suportado sua ausência durante o tempo em que reviveu aquele mundo “que não foi o dele”. Bauman, de fato, escapou do horror: “Com efeito, escapei (...) e, como muitos de meus contemporâneos, nunca tentei explorar (este mundo) depois que desapareceu da face da Terra, deixando-o ficar na lembrança assombrada e nas feridas jamais cicatrizadas (...)”.

    Porém, podemos perceber que, se ficou na lembrança, não desapareceu; mais ainda, ficou e assombrou aquele homem. Tornou-se um fantasma – e fantasmas, vale lembrar, são imortais e cada vez mais assustadores por isso. Ali estava presente um ativo e real fantasma; um fantasma que toca em “feridas jamais cicatrizadas”. Fantasma que assombra, atormenta, a alma, o corpo, a vida, não apenas daqueles que foram atingidos naqueles tempos. Atinge a todos nós, pois o Holocausto foi construído por seres humanos e, portanto, diz respeito aos seres humanos, a todos os seres humanos, a cada um.

    Talvez este fantasma tenha uma outra função. Talvez ele seja uma face do daimon grego: a entidade que, incorporada em cada ser humano, não permite que este esqueça o que precisa ser vivido, o que é essencial, necessário, para que este ser se sinta em paz. O daimon é o guardião do mundo inconsciente, desconhecido e a ser reconhecido. A missão do daimon é justo manter as feridas abertas, manter a dor viva, dor a ser cuidada, cuidada até que a cicatrização aconteça. Mas, até que isto aconteça, muitos curativos serão necessários na limpeza diária do ferimento que deve, portanto, ser tocado, e tocado, e tocado, cotidianamente, até que, pouco a pouco, se torne menos doloroso e então cicatrize.

    Bauman segue seu texto fazendo uma simples e muito profunda metáfora: “(...) minha imagem do Holocausto era como um quadro na parede: bem emoldurado para fazer a separação entre a pintura e o papel de parede e ressaltar como diferia do resto da mobília. ”

    Pois bem, e aqui está a correlação a que me referi, a mim parece que no mais das vezes, quando falamos sobre educação, fazemos a mesma imagem: um quadro no qual pintamos textos sobre o processo de aprendizagem das crianças, sobre produção de conhecimento, saberes, sobre pedagogia enfim ("paidos" – da criança – e "agein" – conduzir –, vale lembrar), mas cuja moldura separa, guetifica, a criança do processo natural da vida, do processo natural de conhecer a si mesma. E um holocausto segue em andamento.

    Bauman, mais adiante, revela que a partir de certo momento constatou que o “Holocausto era uma janela, mais do que um quadro na parede”, e que, “olhando por essa janela, pode-se ter um raro vislumbre de coisas de outro modo invisíveis. ”

    O que está mantido invisível no quadro da pedagogia enquanto não o vemos como janela? Minha resposta: a criança viva, a criança única, a criança pura, “a Criança Nova que habita onde vivo (e que) dá-me uma mão a mim e a outra a tudo que existe. E assim vamos os três pelo caminho que houver (...). A Criança Eterna (que) acompanha-me sempre. A direção do meu olhar é o seu dedo apontando”, como, poetizando a resposta, cantou Fernando Pessoa. O que está invisível, desconsiderado, é a criança que ensina a nós adultos a direção que devemos tomar, os cuidados que devemos ter para com elas.

    Beatriz de Paula escreveu: “Invertem-se os papéis: às crianças, e não mais aos adultos, atribui-se o cuidar da humanidade. Perdemos o prumo e a capacidade de encontrá-lo”. Concordo, e muito.

    Uma grave questão então se impõe: como vamos ajudar as crianças se estamos, adultos, educadores e educadoras, encouraçados, defendidos, com nosso prumo perdido? Como vamos interromper o holocausto?

    Quem já viveu a experiência – consigo mesmo ou junto a um amigo ou amiga em empática solidariedade – de tentar romper um vício, uma adicção, sabe que, em vários momentos, não há o que fazer exceto estar ao lado, pois a decisão, a luta contra a fissura, está nas mãos de apenas um: o adicto. Ninguém pode fazer por ele o que apenas ele pode fazer – e ainda bem que seja assim, pois, de outro modo, esta pessoa estaria para sempre na absoluta dependência do outro e a vida estaria rompida de todo modo, pois ela, a vida, se organiza na interdependência. Para ser na rede da vida temos apenas uma coisa a fazer: oferecer o ser que apenas cada um pode ser.

    Quando um adulto conduz uma criança – que é o que, escondido, a pedagogia pede – está, ao fim e ao cabo, ensinando uma terrível lição: você é quem eu desejo que seja, você é o que eu ensino. Porém, o adulto é – deveria ser – apenas aquele que tem a possibilidade de tentar manter a existência, não o ser, de uma criança; este adulto deve estar atento, extremamente atento, ao fato de que esta possibilidade – tentar manter a existência de uma criança – dota cada um deles de imensos poderes sobre a criança. A criança sente isso, sabe disso e, justo por isso, se entrega aos cuidados dos adultos. Ela sabe, em profundos recantos de seu ser, que para estar viva, para ter a sensação de existir, depende deles, dos adultos.

    Esta sensação de existência, tão necessária, de fato instintual, pode, em algum momento, fazer com que uma criança aja de uma maneira que, de verdade, não gosta, uma maneira que, de verdade, não deseja. Age assim, pois, a ameaça da não-existência assusta, dói, dói muito, assusta muito, dói tanto que faz com que ela seja capaz de escolher opções que, de outro modo, não escolheria, mas o faz para manter a ameaça afastada. Faz então, e muitas vezes, o que não quer, o que não concorda, pode até mesmo esquecer o porquê de, um dia, ter feito esta escolha, pode até mesmo se viciar nessa ação, agora transformada em (re)ação.

    Contudo, sempre terá a chance de reorganizar este estado e recuperar sua autonomia.

    Então, assim estamos organizados: adultos, que um dia foram crianças, viciados, esquecidos de si mesmos, reativos, robotizados, anestesiados, constroem uma sociedade à sua imagem e semelhança, e conduzem as crianças, naturalmente – triste naturalidade! –, ensinando a cada uma delas como manter em funcionamento esta sociedade viciada, reativa, robotizada, anestesiada.

    Pois bem, aparentemente chegamos a um beco sem saída. A doença é grave, talvez terminal, os sintomas sociais, ambientais, são claros e inquestionáveis.

    Quando chegamos a um beco sem saída só nos resta lembrar que existe a entrada, agora única saída, e apenas uma possibilidade se faz presente: enfrentar os fantasmas que nos assustaram, assustam, e nos fizeram caminhar até onde chegamos. Não há outra alternativa.

    Está mais que na hora de tentarmos, nós adultos, recuperar nossa autonomia – dura e trabalhosa tarefa, um trabalho contra uma adicção e suas possíveis e prováveis recaídas.

    Conclusão: cabe, portanto, a cada um – e apenas cada um – buscar em si mesmo a ferida que nunca cicatriza, trazer à tona a dor que, não cuidada, nos leva a construir estruturas holocaustícas.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

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Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti: Médico homeopata formado pela UFRJ, atua como Médico-Educador na Vila-Escola Projeto de Gente, em Cumuruxatiba (Bahia).