Educadores

  • 21

    FEV

    2014

    Tortura, resistência, libertação

    por Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti em 21/02/2014

    Não resisto e inicio este texto transcrevendo um trecho de outro. Refiro-me ao início do capítulo “De tortura, torturados e torturadores”, do livro de Cid Benjamim, “Gracias a la vida – memórias de um militante”.

    Vamos lá: “O homem é o único animal que tortura seu semelhante (…)”, e cita Hélio Pellegrino, em “A burrice do demônio”: “A tortura reivindica, em sua nefanda empreitada, uma rendição do sujeito.” Segue Cid: “É isso. Na tortura, tudo o que a vítima deseja é o fim do martírio. Sabe que pode conseguir. Mas, a que preço? O mais alto que lhe poderia ser cobrado: a abdicação de princípios. (…) (Através da tortura tenta-se) fazer com que uma pessoa renegue seu sistema de valores (…). Em outras palavras, é uma tentativa de fazer com que a pessoa negue a si mesma.” No parágrafo seguinte o autor sublinha novamente o que Pellegrino, contundente, escreve: “(…) enquanto para o supliciado há uma alternativa para a afirmação do humano – a resistência –, para o algoz não existe saída. A este último está reservado um único papel: o de tentar esmagar a humanidade alheia. Derrotado ou vitorioso, não se afirmará como ser humano.”

    E aqui parei, buscando ar. A frase que afirma ser a tortura “uma tentativa de fazer com que a pessoa negue a si mesma” foi como um soco no estomago.

    O soco é desferido no momento em que, concordando com o texto, precisamos confessar que somos torturadores de nós mesmos quando nos negamos, quando abrimos mão de nossa identidade intransferível, de nossa sensibilidade, de desejos tão profundos que são, mais que desejos, necessidades. Somos torturadores quando esquecemos quem verdadeiramente somos, quando damos as costas aos nossos princípios, quando nos voltamos contra forças arquetípicas, primordiais, que apontam, certeiras, para nosso cerne. Somos torturadores quando tentamos esmagar nossa manifestação mais pura, mais legítima, quando tentamos esmagar nossa liberdade de ser, nosso bem estar mais profundo. Torturadores de nós mesmos, reivindicamos nossa rendição como sujeito, abdicamos de nossos princípios vitais.

    Prisioneiro de uma ditadura auto-construída, somos sequestrados por nós mesmos e jogados, incomunicáveis, isolados, em uma masmorra pútrida. Carrascos e vítimas, a um só tempo, consolidamos e globalizamos esta ditadura. O esquecimento do si mesmo – que nos leva a esta postura guetificada, opressora ou oprimida, que nos aprisiona seja dentro ou fora das grades – é o triste lugar comum entre nós, humanos.

    De fato, a imensa maioria de nós abre mão, na organização de sua vida, de ser quem de fato é. Como resultado mais amplo, como espécie, também nos alijamos, guetificados, da rede da vida que se caracteriza, como lembra Maturana, pela troca, pela colaboração, pela sensualidade – o avesso da prisão e da tortura.

    Ainda concordando com o texto percebemos então que temos apenas uma alternativa: resistir ao torturador que tenta esmagar nossa própria humanidade, nossa identidade. Resistir ao torturador que somos. Ou isso ou, como qualquer torturador, não nos afirmamos como ser humano.

    E eu concordo com o texto.

    Tal não afirmação como ser humano se configura ao negarmos o arquétipo que enlaça todos os outros. O arquétipo-eixo, a trança de fios multicoloridos, única em cada ser humano – discutida, tecida, entrelaçada e cortada pelas misteriosas Moiras da mítica grega: o “Eu Sou”. O arquétipo que enfaixa todos os outros em um só, uma estrutura que marca a identidade única, pessoal e intransferível de um ser humano. Eu sou quem sou, não sou uma tabula rasa na qual alguém inscreve quem sou, eu sou quem sou…

    Arquétipo, palavra que se origina do grego “arkhe” – primeiro, arcaico –, e “typon” – marca, cunho, modelo. Arquétipos são, portanto, energias ou marcas ou modelos primordiais que emergem de misteriosas fontes e constituem “uma tendência instintiva” no ser humano, como explicou Jung. Este psicólogo utilizou-se do pensamento platônico para referir-se a imagens universais, que são preexistentes no ser – que procedem dos ancestrais – desde tempos imemoriais. Imagens vivas e partilhadas com povos distantes uns dos outros, em tempos de informações dificilmente trocadas – ou mesmo impossíveis.

    Durante uma entrevista – em um tom coloquial que muito nos ajuda –, Jung comentou: “O arquétipo é uma força, possui autonomia – uma energia que lhe é peculiar –, e se configura como uma ordem biológica do nosso funcionamento mental e emocional. Exatamente como, por exemplo, a nossa função bio-fisiológica obedece a um padrão (por isso seu fígado e seu coração funcionam de certo e conhecido modo – seu padrão). (…) O ser humano tem um determinado padrão que o faz especificamente humano – e também não outro ser humano – e nenhum homem nasce sem ele. Só que estamos profundamente inconscientes destes fatos (…)”.

    Um padrão que nos faz especificamente humanos e, em cada humano, uma única identidade. Nascemos e já somos quem somos. Em todos os seres humanos fluem os arquétipos, porém, em cada um forma-se um arranjo singular; singular e intransferível. Uma conjunção tão única e fundamental que fez James Hillman escrever que “(…) para se entender a vida humana (não podemos) omitir algo essencial: a particularidade que você sente que é você.”.  Precisamos ter campo para nos reconhecer, portanto.

    As pistas dos arquétipos podem ser claramente percebidas nos mitos e símbolos de todas as culturas espalhadas na face do planeta. Mitos muito semelhantes, essencialmente semelhantes, apenas revestidos por roupagens e vividos em cenários diferentes dependendo das diferentes culturas. Mitos que eram contados por avós e pais que, mestres, ajudavam suas crianças a se conhecerem – ou melhor, a se reconhecerem nos personagens extraordinários que, para cada uma delas, mais brilhavam à luz das fogueiras ao lado das quais estas crianças ouviam, boquinhas abertas, olhinhos esbugalhados, as maravilhosas histórias. Assim, através de relatos sobre o herói que se entregava, de corpo e alma, à busca de si mesmos, os mais velhos ajudavam a jornada de seus pequenos e pequenas.

    Como ensina Joseph Campbell, em todos os relatos míticos, de todas as partes do mundo, esta “jornada sofre poucas variações no plano essencial”. Suas pesquisas e estudos mostram que, via de regra, os contos populares revelam, em um plano físico, a ação do herói. Em outra dimensão, metafísica, as religiões – em sua essência não corrompida – apresentam esta ação de um ponto de vista espiritual. Aliás, justo aí encontramos o sentido mais sublime da religião: o religar consigo mesmo. Religar que implica em enfrentamentos, medos e oferecimento de si mesmo, isto é de nossa pessoal e intransferível potência ao mundo – este sim, o verdadeiro sacro ofício.

    Campbell explica – aqui em linhas muito, muito, gerais – que devemos perceber o “chamado da aventura”, os indícios da vocação do herói; enfrentar as dificuldades em atender este chamado – a frequente “recusa do chamado” – por conta das ameaças quase sempre presentes na família, na sociedade, na escola; os possíveis “auxílios inesperados”, na figura de um professor ou professora, um avozinho ou avozinha, ou mesmo um estranho; o estágio das provas e possíveis vitórias – ou derrotas – durante a busca de si mesmo; o “encontro com a deusa, com a mulher”, a “sintonia com o homem”, com o pai – encontro com o aspecto feminino e masculino, introspecção, extroversão, a possibilidade de ser pai e mãe de si mesmo; o retorno e reintegração à sociedade, à vida – retorno que nem sempre garante compreensão e consideração, pois muitas vezes o herói encontrará reação e impopularidade.

    Mesmo em nossas vidas dimensionadas neste Tempo Menor marcado pelo relógio somos convidados a viajar por um misterioso Tempo Maior, campo do autoconhecimento, para então emergir desta aventura e integrar o ser que somos à sociedade, à vida. Cocriadores da vida natural e da organização social.

    Assim, vamos nos dando conta de que todos temos uma jornada a realizar, uma aventura mítica na qual devemos nos atirar como heróis. Aventura revelada a nós por Jasão, Enéias, Prometeu, Buda, Cristo.

    O educador é guardião desta jornada. Guardião, não guia, pois quem conduz é o educando. O educador é apenas um sujeito que se oferece como campo para que outro ser humano se reconheça o mais pleno possível. Um sujeito que deve, todo o tempo, iluminar o caminho do menino, da menina, mas não apontá-los. Alguém que apenas protege, pois a experiência é – precisa ser – da pequena, do pequeno. Protege, mas não deve deixá-lo, deixá-la, esquecer de que apenas um caminho existe: o que bate no ritmo de seu particular coração. Para isso, ele – o guardião – precisa estar plenamente atento, despreconceituado, em relação aos indícios da vocação do pequeno herói, da pequena heroína. Apenas assim ele poderá acompanhar a pessoinha em sua trajetória de autoconhecimento, de conhecimento, de livre manifestação – do contrário, contribuirá para a prisão e tortura deste pequeno ser humano.

    ...

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti

Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti: Médico homeopata formado pela UFRJ, atua como Médico-Educador na Vila-Escola Projeto de Gente, em Cumuruxatiba (Bahia).