Educadores

Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza é psicóloga e Mestre em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da USP, onde coordena o serviço de Orientação à Queixa Escolar. É membro do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade e do Grupo Interinstitucional Queixa Escolar -GIQE. Organizou os livros "Orientação à Queixa Escolar", "Medicalização de Crianças e Adolescentes" e "Saúde e Educação: muito prazer!".

  • 11

    AGO

    2016

    O Caçador

    por Beatriz de Paula Souza em 11/08/2016

    Antes de escurecer, Calangão pegou a canoa e partiu para o igarapé que seu primo indicara. Na mata à margem esquerda, perto da sumaumeira maior, disse que vira a boca de um caminho de anta.

    Chamava-se Charliston, como o ator de cinema americano, mas virara Calangão nos seus tempos de coureiro. A atividade dava um dinheiro que ajudava bem: comprava sal, açúcar, café, óleo, arroz, feijão e farinha para o mês inteiro, além da carne com gosto de peixe do jacaré. E uma pinguinha também, que ninguém é de ferro! Depois o IBAMA proibiu. O bicho estava rareando mesmo, mas foi duro ficar sem essa renda. Caçou escondido por mais um tempo, até ficar muito perigoso desobedecer os homens.

    Hoje desafiava outra proibição de caça, mais recente e bem maior que a anterior, incluindo macacos, queixadas e outros bichos. Eles garantiam carnes à família para além da fornecida pelos tambaquis, pirarucus, tucunarés, pacus e outros peixes que habitavam as águas da região. Enriqueciam a dieta que também incluía cupuaçus, tucumãs, taperebás, buritis, castanhas do Pará e outras frutas, coquinhos e castanhas. Mas não davam o ano todo e, com isso, a fome e a falta de saúde eram velhos conhecidos. Ia caçar a anta sim senhor.

    Dá motor rio Negro acima, rumo ao igarapé indicado. Ao longe, vislumbra um temporal que avança em sua direção. Abandona o canal e chega mais rente à vegetação, procurando abrigo. Entra pelo igapó e esconde-se a tempo de proteger-se do pé d´água e da ventania que não tardam. Vai dar um banzeiro danado.

    Enquanto espera, seu olhar volta-se para a mata alagada. A água ainda calma, escura e avermelhada como mate, reflete árvores e cipós de formas variadas. Finas, grossas, retorcidas, secas ou com folhas, desdobram-se no espelho fluido e pontilhado de folhinhas coloridas, criando formas bonitas ou assustadoras, conforme o que sua imaginação faz delas.

    A quietude e o devaneio são interrompidos pela chegada da chuva e do vento. As imagens desfazem-se, transformam-se com a água agora crespa e fosca, cheia de pontinhas e esbranquiçada pelos pingos em saraivada. Passada a adaptação à mudança brusca, a beleza da nova cena revela-se e Calangão, encolhido e parado como os pássaros e macaquinhos ao seu redor, espera e aprecia.

    Em uns vinte minutos, o temporal estia e ele retoma seu caminho. Entardece quando chega ao igarapé indicado, mas está tudo dentro do tempo necessário: anta se caça à noite. No remo para não fazer barulho e deixar cheiro de diesel, avança e logo avista a imensa sumaúma. Como o primo dissera, perto aparece uma abertura arredondada, uma boca de túnel no emaranhado de raízes aquáticas, troncos e cipós: é o caminho da anta.

    Uma quentura percorre-lhe o corpo. Sentidos aguçam-se: as narinas expandem-se, perscrutando cheiros; os olhos avivam-se, atentos a detalhes e movimentos. Intuição, instinto e o corpo todo preparam-se, intensos: vai começar a caçada.

    Encosta a canoa, pega a espingarda. Segue silencioso em paralelo à trilha da presa, cuidando para o vento não levar seu cheiro a ela. Sobe em uma árvore, posiciona lentamente a espingarda e espreita. Cai a noite.

    Ouve. A mata viva inunda seus ouvidos de muito mais sons do que de dia. Grilos, sapos e aves noturnas exigem-lhe atenção redobrada para distinguir o que finalmente chega: a bulha da anta. No breu, percebe seu movimento no raio do cano e atira.

    O bicho cai sem um grito: a bala pegou na cabeça. Ouve, no entanto, um guinchozinho inesperado, agudo demais para ser daquela caça grande. Aguça o olhar. A tênue luminosidade de um fiapo de lua revela uma forma pequena e rajada ao lado do animal abatido: é sua cria.

    Assustado com sua presença, o bichinho foge. Mas logo volta, chorando e tocando a mãe com a trombinha. Novamente percebendo ali o predador mais perigoso da natureza, afasta-se correndo, para logo voltar à mãe, em desespero. Esse vai e vem repete-se inúmeras vezes diante de um Charliston paralisado. Seu coração de pai dilacera-se, tomado de dor e culpa.

    Estende as mãos grossas com leveza para o bichinho exausto e o aninha no peito. Ele deixa-se acariciar e sua respiração arfante vai acalmando-se, enquanto lágrimas escorrem dos olhos daquele homem rústico, rompendo a dureza que uma vida muitas vezes no limite da sobrevivência o fizera construir. Com o tapirzinho no colo, pega a canoa e, sob um céu de luzinhas que testemunham e cobrem aquele momento sagrado, toma o caminho de volta à sua comunidade.

    Caudalosos como o rio Negro, fluem sentimentos e recordações. Emergem, intensos, mal estares que passaram batidos, à força ou não, nascidos em situações de caça. Sem terem podido manifestar-se por tantos anos, encontraram uma brecha durante uma conversa do agente do IBAMA sobre os porquês da proibição de matar animais silvestres. Naquela noite, não dormiu. Mas no dia seguinte, conseguiu prender sua perturbação em um poço fundo e bem tampado da alma e a vida seguiu igual. Agora, no entanto, a tampa explodira com a pressão enorme do que havia prendido. Dores, horrores e culpas jorravam, quentes.

    Reflete sobre como a ação do IBAMA dessa última vez tinha sido diferente. Viera junto com ensinamentos sobre como não precisar da atividade proibida. Veio gente mostrar como melhorar a horta e outros plantios, a criação de galinhas e porcos e como aproveitar restos. Além disso, começou a ter cesta básica com uma relativa regularidade.

    Apanha a espingarda e arremessa-a ao rio. Ela submerge, para nunca mais.

    -----***-----

    A discussão sobre a necessidade do mundo e da vida serem apresentados a educandos de maneira integrada, contrapondo-se à predominante fragmentação dos conhecimentos, divididos em disciplinas-compartimentos incomunicáveis, é antiga. No entanto, o positivismo é tão arraigado que ainda temos muito a construir em matéria de práticas que, como dizia o sábio Morin, religuem os saberes, possibilitando uma melhor aproximação do real.

    Histórias, contos e causos mostram-se um caminho fértil para isso, pois permitem percorrer paisagens, culturas, climas, história e outras fontes de conhecimento de maneira entrelaçada e indivisível. Ademais, podem tocar quem as ouve ou lê pelas informações objetivas que contêm, mas também pelos diferentes sentidos, emoções, memórias e apelos à imaginação. Esses diferentes modos de conhecer também se apresentam simultâneos e interligados. Assim, a experiência da integralidade é favorecida em conteúdo e forma.

    Que essa história, que Calangão/Charliston protagoniza, possa inspirar e servir de instrumento em situações educativas que tenham, como horizonte, o pleno desenvolvimento humano.

                     

                     

                      

    ...