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    OUT

    2013

    Calisto e o pé de caju

    por Beatriz de Paula em 07/10/2013

    Era uma vez um professor. Seu nome era Calisto. Era moçambicano, da Província de Niassa. Tinha se proposto, como tantos conterrâneos, a reconstruir um país devastado pela guerra de independência política do colonizador europeu.

    Sua contribuição seria prover o acesso às letras e, consequentemente, a um mundo de informações e possibilidades. Foi designado para a escola de uma comunidade próxima a Metangula, quase à beira do magnífico lago Niassa, um portento azul de 500 km de extensão.

    Professor Calisto chega a seu destino, após hora e meia de ônibus por uma estrada enlameada pelas chuvas de monções.  Derrapando, o coletivo segue passando por povoados em que as casas têm paredes de taipa e telhado de palha. Ele olha as crianças a brincar na terra e as mulheres a pilar milho. Uma sensação de paz se instala, morna.

    Custou mas chegou. O diretor que o recebe, sisudo, pergunta-lhe: você fala Chiyao? Fala. Ainda bem. Sua turma é o primeiro ano “bilíngue”. Descobre, então, que o uso que esta escola (e provavelmente não só esta escola) faz deste termo é falar-se apenas na língua local. Nada de Português.

    Seus alunos o aguardavam. Oitenta e dois pares de olhinhos alegres e esperançosos, a cinco palmos do chão: são crianças de seis anos. O tamanho da turma não o surpreende. Fica aliviado, pois sabe que há muitas em que o número de alunos chega a cem, cento e vinte. Mas desconcerta-se ao encontrar uma situação de que já ouvira falar, mas não esperava –e portanto não se preparara para ela. Ao perguntar sobre sua sala de aula, o diretor aponta para cima. Para a copa frondosa de um magnífico e antigo cajueiro.

    Professor Calisto começa pelo que sabe: após os cumprimentos de praxe entre ele e as crianças, posta-se ao lado da tosca lousa apoiada no tronco da árvore e inicia o ensino das letras: a, e, i, o, u. Não tarda para que a alunada se disperse. O campo convida, a aula desconvida. O que fazer?

    O inusitado cria a pergunta, o inusitado oferece a resposta. Em meio a um certo desespero, percebe ordem no caos: as crianças não estão dispersas, mas concentradas em seus interesses, que cultivam em pequenos agrupamentos. Neles, conversam, inventam, aprendem uns com os outros, descobrem juntos.  E o professor volta para casa com esta percepção lhe inundando os pensamentos.

    No dia seguinte, esta passa a ser a base do seu trabalho: deixar que as crianças se agrupem, ao invés de lutar contra esse movimento delas. Adapta-se e nada neste fluxo, ao invés de debater-se contra ele. Assim, vai passando pelos grupos e lhes propondo desafios envolvendo letras: escrever seus nomes, os de seus pais, irmãozinhos. E o que mais soubessem ou quisessem saber escrever.

    As crianças escrevem à sua maneira, discutem, mudam o que fizeram, intrigam-se e entregam-se. Professor Calisto vai passando nos grupinhos e ajuda. Uns ficam mais, outros menos, nessa brincadeira. Quando o período termina, o mundo das letras impregnou quase todos. Cansou, mas valeu. É por aí.

    Nos dias seguintes, ele segue observando os modos e meios das crianças. Sua alegria, suas corridinhas de vez em quando, que essa escola-cajueiro proporciona. Mais uma vez, experimenta nadar neste fluxo de vida e não debater-se e afogar-se lutando contra ele. Inventa brincadeiras de imitar bichos com o nome começado com esta ou aquela letra. Em grupinhos ou grupões. As crianças passam a inventar brincadeiras também. Com ou sem letras. Também pode.

    Há dias que são muito duros. A chuva não deixa ter aula, faltam alunos que têm de ajudar em casa ou na machamba (plantação), alunos nervosos com a perda de parentes por AIDS brigam. O pagamento, pequeno e atrasado, deve ser buscado em uma cidade longínqua. Neste dia, a escola toda fica sem professores, que precisam viajar para receber. A condução de ida e volta consome quase um terço da minguada quantia.

    O ano vai transcorrendo. Surpreso, percebe que sua “pedagogia do cajueiro” está funcionando! Todos aprendem bem? Não. Mas já lecionara para turmas que tinham salas de aula convencionais, dando aulas convencionais. E os resultados haviam sido bem piores. Além disso, agora se divertia muito mais.

    No ano seguinte, Professor Calisto não voltará. Passou na seleção para dar aulas na Faculdade de Ciências da Educação e Psicologia, próxima à casa que está acabando de construir em seus períodos de folga, com a ajuda da esposa e de parentes. E ganhando bem melhor.

    Com um aperto no coração, no último dia colhe uns cajus. Seca suas castanhas e as enterra no quintal de sua casa. Elas brotam. No quintal e na alma. Para sempre.

    ...

Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza é psicóloga e Mestre em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da USP, onde coordena o serviço de Orientação à Queixa Escolar. É membro do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade e do Grupo Interinstitucional Queixa Escolar -GIQE. Organizou os livros "Orientação à Queixa Escolar", "Medicalização de Crianças e Adolescentes" e "Saúde e Educação: muito prazer!".