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    ABR

    2016

    Chamado selvagem: manifestações de uma essência negada

    por Beatriz de Paula Souza em 26/04/2016

    O grupo de meninos montava, animado, um quebra cabeças na terapia. De repente, um sabiá surge na janela.  Denis percebe e dá o sinal. Todos, inclusive a terapeuta, vão ver a maravilha!

                      Caio é disperso na escola. Como o descrevem? “Não pode ver uma borboleta passar que para de prestar atenção na aula”.

                      Tiago vive sujo. É só ver uma terrinha ou uma poça d´água, que vira um menino-lama.

                      Denis, Caio e Tiago vivem em São Paulo. Onde não se vê crianças nas ruas, a não ser algumas raras, que vão firmemente presas pelas mãos de adultos. Onde estão as crianças da cidade? Na maioria das vezes, em espaços confinados, estudando presas a carteiras ou brincando com objetos industrializados.

                      Os adultos acham que aqueles três têm problemas psicológicos, talvez neurológicos. São desinteressados na escola, onde se comportam e se relacionam mal. Nas férias, costumam ir para ambientes bem diferentes: sítios de familiares, casas em vilarejos de ruas de terra nos quais ainda se veem carroças e cavalos. Nestes lugares, seus problemas como que desaparecem. Até as letras ficam mais próximas.

                      O que indicará essa reação tão viva, de encantamento e atração irresistíveis, que irrompe quando um pedacinho de natureza vem quebrar a artificialidade das paredes, dos plásticos, acrílicos e metais? O que é essa súbita demonstração de saúde que exuberam, quando em ambientes naturais e amplos? O que esses meninos estarão nos dizendo, tentando revelar, com suas reações e mudanças?

                      Nikolái Fiódorov, um bibliotecário e filósofo com quem Tolstói e Dostoievsky gostavam muito de conversar, no final do século XIX preocupava-se com os rumos da humanidade. Percebia a ampliação, então recente, do espaço do pensamento positivista, elevando a racionalidade acima de todas as outras dimensões do ser humano, secundarizando a corporeidade, as emoções e a religiosidade. No rastro da ascenção da racionalidade à condição de uma espécie de Demiurgo, a humanidade passa a relacionar-se com a natureza como algo separado de si e a ser dominado. Deixamos o reino animal, considerando-nos seres separados dessa morada dos irracionais.

                      Esse sábio russo dizia algo que talvez nos dê o fio da meada do que pode estar acontecendo com os três meninos dos quais falamos no início -e com tantos outros que com eles se parecem. Meninos e meninas, pequenos e grandes. Fiódorov via tomar corpo o que chamou de o mais terrível desenraizamento que a humanidade poderia pretender operar: o da natureza, pois esta é sua (nossa) essência primordial, fundante.

                      Não seriam as cenas iniciais que relatamos a ponta do iceberg da necessidade de retomarmos o cultivo de nossa pertença ao mundo natural? Não estariam essas crianças nos indicando o caminho para superar esse desenraizamento, tantas vezes adoecedor? Não é difícil encontrar relatos de pessoas ligadas a esportes de natureza, como escalada em rocha, montanhismo ou surf, dizendo do quanto estas experiências fazem-nas sentir-se vivas como nunca. De como foram transformadoras com relação a uma vida pregressa de submissão, consumismo e relações desumanizadas.

                      Nesta direção, é bem conhecido e explorado por profissionais de marketing, o sucesso potencial de propagandas e embalagens que usam temas ou elementos de natureza como, por exemplo, bichos, aventuras em ambientes preservados e cenários cheios de verde.

    Diversas iniciativas, hoje, nos dizem de uma necessidade de retomar esta dimensão essencial da vida. Umas são as incursões em ambientes selvagens, que tem feito explodir a prática de esportes de natureza, as expedições etc. Mas este tipo de atividade, para uma população como a brasileira, 84% urbana, muitas vezes é elitista.

    Outras iniciativas, mais democráticas, procuram reduzir o subaproveitamento dos recursos naturais ainda presentes nos espaços urbanos, mesmo em uma megalópole inóspita como São Paulo.  Como exemplo, temos escolas e famílias passando a utilizar com maior frequência seus espaços verdes, a ter bichos de estimação e a cultivar pequenas hortas.

    Outras, ainda, são de transformação do espaço urbano. Um exemplo são os eventos de plantio de árvores em praças, calçadas e até lixões, como o que foi recentemente promovido pelo movimento Muda Mooca em Itaquera e gerou, inclusive, o Muda Itaquera.                

    Finalizo com fragmentos de um poema do Drummond (Carlos Drummond de Andrade), especialmente oportuno, por sinal.

     

    A flor e a náusea

    ...

    Uma flor nasceu na rua!
    Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
    Uma flor ainda desbotada
    ilude a polícia, rompe o asfalto.
    Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
    garanto que uma flor nasceu.

    ... 

    Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

                     

     

     

     

     



    [1] Alusão à obra Chamado Selvagem, de Jack London, de 1903. No Brasil, foi publicada por diversas editoras. A versão da Rocco é uma adaptação feita por Clarice Lispector. 

     

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Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza é psicóloga e Mestre em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da USP, onde coordena o serviço de Orientação à Queixa Escolar. É membro do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade e do Grupo Interinstitucional Queixa Escolar -GIQE. Organizou os livros "Orientação à Queixa Escolar", "Medicalização de Crianças e Adolescentes" e "Saúde e Educação: muito prazer!".