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    MAI

    2014

    Cleide e Cleusa: mulheres no espelho

    por Beatriz de Paula em 30/05/2014

    São nove horas, hora marcada para a entrevista de emprego de arrumadeira. Um toque na campainha da casa elegante, a porta que se abre revela uma mulher elegante que sai ao portão. Um arrepio percorre a espinha de ambas: são tão parecidas…

    A entrevista segue seu rumo costumeiro: experiência, exame da carteira de trabalho, acertos de tarefas, horários e salário. Tudo ok, início segunda-feira. Permeando a conversa, a sensação de familiaridade que causa estranheza, paradoxal.

    O convívio, quase diário, só a aumenta. As histórias que vão emergindo esclarecem: ambas nasceram na Bahia, há quarenta anos. Em regiões pobres, de dinheiro e recursos, e ricas, de culinária e festas. Pobres, de boas escolas, e ricas, de espaço para correr e brincar… que saudade! Sons e cheiros e cores queridos e familiares em comum passam a povoar cada vez mais os momentos que compartilham. Entre risos e entendimento, recordam as tapiocas, os cuscus, as rapaduras. As festas juninas, os reizados. A barra manteiga, a mãe da rua e o pique alto.

    A história de ambas se separa depois da vinda a São Paulo.

    A de Cleide, improvável, a conduz a uma educação aristocrática e a uma vida de confortos. Marluce, sua mãe, veio a São Paulo em busca de ganhar mais, trazendo-a ainda criança. A patroa que encontrou, Pérola, imersa na tragédia de perder uma filha, arrepia-se ao conhecer a menina: tem a idade e a aparência daquela que a deixou com o colo vazio e o peito sangrando. Marluce aceita, grata, as roupas, os carinhos, a educação e as chances de vencer na vida que sua empregadora oferece a sua própria filha. Pérola aceita, grata, o bálsamo deste aceite.

    Cleide cresce imersa em contradições. Sai-se bem nos estudos e aprende a se comportar adequadamente nos grupos e ambientes da mãe postiça, o que  lhe custa um sentimento de culpa por estar traindo sua mãe e suas origens. Este seu pertencimento primeiro lhe dá vergonha, o que lhe custa um outro sentimento de culpa por, ao envergonhar-se, estar traindo sua mãe e suas origens.

    Princesa de pé no chão, conhece um príncipe lindo, rico e surfista. Apaixonam-se, casam-se e são suficientemente felizes para sempre.

    A história de Cleusa, provável, a conduz a uma escola de ambiente conturbado e muitas faltas de professores, na qual se paralisa e da qual rapidamente desiste. Sai analfabeta, cabisbaixa e conformada em levar uma vida de trabalhadora doméstica.

    Há uma colorida feira próxima à casa de Cleide, na qual ela se deleita comprando frutas e outros vegetais frescos e apetitosos, além de um irresistível pastel. Mas naquela quinta-feira terá de abrir mão desse pequeno prazer: um compromisso inesperado a chama.

    Cleusa já é de casa e de confiança. Faz uma lista de compras e dá-lhe dinheiro para ir à feira em seu lugar. Surpresa,  percebe o rubor e o constrangimento instalarem-se, em ambas: a lista é um imenso problema.

    Cleide sabe o que Cleusa está sentindo. Recorda-se de seus primeiros tempos em São Paulo, de sua luta para não perceberem que não sabia ler, nem escrever. Disfarçava: fazia o gestual de leitura e escrita, caprichava nas cópias. Afinal conseguiu aprender, ufa!

    Os olhares encontrados de ambas com a lista nas mãos falam. Contam da comunidade de universos e sentimentos. Criam um lugar onde a vergonha se dissolve. Pelas mãos de Cleide, Cleusa aproxima-se da lista. E pode examiná-la e descobrir que reconhece algumas letras e que, por essas letras e por saber que são de nomes de verduras, legumes e frutas, consegue descobrir quase tudo o que nela está escrito. Sim, pode ler!

    Cleusa pede licença e vai ao seu banheiro chorar, de uma alegria triste e uma tristeza alegre. Cleide aproveita para fazer o mesmo.

    Saber ler e escrever tornou-se algo tão importante, nos dias de hoje, que não ter esta possibilidade traz prejuízos de um nível muitas vezes insuspeito. Sua face mais visível são os impedimentos de acesso a trabalhos dignamente remunerados e socialmente valorizados, de poder transitar nos espaços urbanos com desenvoltura, de evitar ser enganado com contratos mal intencionados, dentre muitos outros.

    Menos visíveis são, muitas vezes, os prejuízos psicológicos, advindos de intenso sofrimento decorrente de situações humilhantes, vividas na escola, na família e em outros meios sociais. Condições de ensino e de vida pouco propícias, por vezes aversivas, para o aprendizado das letras não costumam ser devidamente levadas em conta para entender as dificuldades desta aquisição acontecer a contento. Assim, aquele que não está aprendendo a ler aprende outra coisa: que é incapaz. Mais recentemente, tende a aprender que é doente e precisa de tratamentos.

    Cleide e Cleusa nos contam da possibilidade de retomar esta senda de saber pelo resgate do valor de quem aprende, como ser inteiro, incluindo de modo importante seus pertencimentos culturais socialmente desqualificados. Ainda, proporcionando o contato com as letras em uma situação que tem sentido, conectada com a vida. Tudo envolto em terna amorosidade.

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Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza é psicóloga e Mestre em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da USP, onde coordena o serviço de Orientação à Queixa Escolar. É membro do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade e do Grupo Interinstitucional Queixa Escolar -GIQE. Organizou os livros "Orientação à Queixa Escolar", "Medicalização de Crianças e Adolescentes" e "Saúde e Educação: muito prazer!".