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  • 15

    SET

    2015

    Educação em busca do prumo perdido: As crianças e a esperança de resgate do humano

    por Beatriz de Paula Souza em 15/09/2015

    Nos anos 1960, uma experiência inglesa impactava o mundo ocidental, produzindo controvérsias: Summerhill. Circulavam notícias de uma escola permissiva, laissez-faire, em que crianças e adolescentes eram abandonadas a si mesmas por adultos omissos e irresponsáveis. A qualificação hippie era utilizada para desqualificá-la.

    Fecha a cena, por 50 anos. Abre: anos 2010. Identificam-se em número crescente experiências que parecem derivadas, ou inspiradas, pelo mesmo princípio básico da velha (no bom sentido) Summerhill: liberdade sem medo para os educandos se constituírem. Porque esse princípio aparentemente doido floresceu? Cresceu e multiplicou-se? Como compreender isso?

    Arrisco uma hipótese, a ser discutida. Certeza nenhuma.  Lá vai ela: vivemos tempos em que o projeto e as ações da civilização sob o primado do capitalismo está com suas decorrências amadurecidas. Produziu-se uma sociedade tão desigual, com tal concentração de renda, que até multibilionários deram de envergonharem-se e doarem parte de suas fortunas a despossuídos. Até alguns desses “vitoriosos” estão achando que ganharam em excesso, principalmente em excesso de prejuízo a multidões.

    O planeta reage a tanta agressão que o bicho gente, em sua fúria expansionista e seu distanciamento da consciência de ser parte orgânica dele, produziu, sob a batuta deste mesmo capitalismo em que a dimensão humana racional e a competição se descolam de todas as outras. Assim, emoção, corporeidade e outros aspectos do humano são secundarizados, subjugados e desqualificados, perdendo-se a integralidade.

    A percepção, ou intuição, de que algo vai profundamente mal e de que, se não houver uma guinada de curso, a espécie e mesmo a vida podem até extinguir-se, busca saídas para esta situação próxima do limite -e no rumo firme para ele- em que nos encontramos. Quem pode encontrar estas saídas?

    É preciso que as pessoas se reconectem com sua pertença orgânica/sistêmica com o humano em sua plenitude, com o planeta e com o cosmos. Quem tem capacidade para fazer isso? Quem está começando! Os adultos, de modo geral, perderam muito desta possibilidade, pela trajetória racionalista que há gerações está instalada. A esperança reside nas crianças. É preciso abrir espaço para um livre curso/desenvolvimento de sua conexão planetária e cósmica se garanta. Brincar; criar; ter tempo, lugar e continência para a interiorização; intuir e fazer intuitivamente; ver-se pertencendo a coletivos. É preciso favorecer o acontecer humano pleno. Assim, a cena educativa vai se enchendo de experiências que procuram criar condições para isto.

    Invertem-se os papéis: às crianças, e não mais aos adultos, atribui-se o cuidar da humanidade. Perdemos o prumo e a capacidade de encontrá-lo. Sem querer ser “global”, a criança é a esperança!

     

                setembro de 2015, pós-II CONANE

     

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Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza é psicóloga e Mestre em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da USP, onde coordena o serviço de Orientação à Queixa Escolar. É membro do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade e do Grupo Interinstitucional Queixa Escolar -GIQE. Organizou os livros "Orientação à Queixa Escolar", "Medicalização de Crianças e Adolescentes" e "Saúde e Educação: muito prazer!".