Educadores

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    JUL

    2015

    Educação transformadora: independência ou morte? Chamado à II CONANE

    por Beatriz de Paula Souza em 17/07/2015

    A insatisfação e a crítica ao modelo hegemônico de Educação atual vêm, há décadas, gerando experiências educacionais que se fundam em concepções diferentes acerca do que é educar, compromissadas com a integralidade, o respeito à diversidade e a busca de uma sociedade humanizada, solidária e sustentável. Isto vem acontecendo, com maior ou menor intensidade, no mundo todo.

    No Brasil, o desastre educacional que, embora apresentando alguns avanços recentes, segue merecendo esta denominação, tem impulsionado a multiplicação de experiências que apontam na direção de sua superação operando rupturas paradigmáticas.

    No entanto, tais esforços, que vêm se mostrando bem sucedidos e promissores em vista de seus objetivos, vinham (e vêm) muitas vezes enfrentando sérios obstáculos legalistas, descrença e desincentivos.

    Nos contornos deste quadro de contracorrente, realizou-se, em 2013, o I CONANE, em Brasília. Foi um momento fundamental de congraçamento, articulação e afirmação dos que lutam por uma Educação transformadora, configurando-a mais claramente como movimento social. Diversas experiências foram expostas e discutidas, revelando, fomentando, aperfeiçoando , apoiando e inspirando práticas. Um manifesto deste movimento, o III Manifesto pela Educação Brasileira (http://romanticos-conspiradores.ning.com/profiles/blogs/iii-manifesto-pela-educa-o-brasileira-mudar-a-escola-melhorar-a), afirmando princípios e práticas e reivindicando condições de implantação e sustentação das mesmas, foi entregue ao Ministério da Educação, quando estava à sua frente Aloisio Mercadante.

    De lá para agora, um crescimento exponencial da Educação transformadora veio acontecendo. O I CONANE marcou a conquista de reconhecimento oficial e legitimidade. O aumento do conhecimento acumulado gerou novas pautas. Emergiu a necessidade de realização do II CONANE. Quais são os contornos desse movimento? Quais as semelhanças/ pontos comuns e as diferenças e/ou divergências internas? Que formas e coloridos tem? Qual o lugar existente e potencial do uso de mídias nas diferentes experiências educativas que o compõe? Como a medicalização da Educação, a onda (tsunami) de diagnósticos e tratamentos de crianças e adolescentes que não se encaixam, comparece? Quais as perspectivas políticas presentes? O que vem acontecendo pelo mundo na mesma direção e como conversar com esses movimentos irmãos?

    O espaço político da Educação transformadora brasileira ampliou-se nestes dois anos. Uma concretização importante foi a recente nomeação de sua pioneira e incansável lutadora Helena Singer como assessora direta do novo Ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro. Sua missão é dar visibilidade a experiências educacionais inovadoras (em relação à Educação hegemônica, pois várias são antigas) e estudar a viabilidade da implantação de políticas públicas em Educação que estas indicam.

    Urge, no entanto, levar em conta o cenário internacional de interesse de grandes grupos empresariais e bancos -ou seja, dos detentores do poder econômico e político em nossa sociedade opressora- em uma transformação importante na Educação. O modo de produção contemporâneo vem, cada vez mais, prescindindo do tipo de mão de obra que as escolas atuais tendem a produzir: repetidora, submissa e de baixa qualificação. Os avanços tecnológicos, o aumento da concorrência e outros fatores passaram a exigir um trabalhador mais autônomo, criativo, pensante, com nível de instrução formal mais alto e que saiba trabalhar em equipe.

    O remodelamento do trabalhador ideal, a ser explorado para gerar riqueza a seguir essencialmente concentrada nas mãos de poucos, trouxe interesse e investimentos em experiências educacionais que a Educação transformadora vem realizando, no Brasil e no mundo. Filtram estratégias e técnicas pedagógicas e as esvaziam de significado ético, compromisso social, integralidade e humanidade, de modo utilitário e coisificado. 

    Assim, a II CONANE surge como lugar privilegiado de construir uma clareza sobre esta tentativa de captura, por forças conservadoras, das alternativas para uma nova Educação predominantes. Estas sim, constroem uma sociedade onde a opressão e a exploração do homem pelo homem não têm lugar.

     À II CONANE! Inscreva-se logo, são só 600 vagas! De 4 a 7 de setembro, em São Paulo, no CEU Profa.  Arlete Persoli, na comunidade de Heliópolis, de que faz parte a emblemática Escola Municipal de Ensino Fundamental Campos Salles.

    www.conane.pro.br

     

    16 de julho de 2015

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Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza é psicóloga e Mestre em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da USP, onde coordena o serviço de Orientação à Queixa Escolar. É membro do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade e do Grupo Interinstitucional Queixa Escolar -GIQE. Organizou os livros "Orientação à Queixa Escolar", "Medicalização de Crianças e Adolescentes" e "Saúde e Educação: muito prazer!".