Educadores

  • 14

    MAR

    2014

    O Condor

    por Beatriz de Paula em 14/03/2014

    Leo nasceu e cresceu na região da Patagônia, no Chile. Extremo sul, aquela pontinha das Américas, quase na Antártida. Lugar de ventos uivantes e forças geológicas poderosas.

    Sua mãe campesina lhe apresentou seu primeiro condor. E o amor àquela terra de amplos espaços e natureza pulsante. Criado solto, quando não tinha de ir à escola -ou fugia dela- ia aprender na imensa sala de aula de sua região. Apaixonava-lhe, em especial, o maciço de Torres del Paine.

    Sentidos aguçados, corações fora do peito e pensamento vivo, observava as pedras de variados formatos, as paredes nuas das montanhas cheias de desenhos e tentava ler o que nelas estava escrito. Voltava de suas incursões cheio de percepções e perguntas. Aprendeu, observando e pensando, perguntando e lendo, que Torres emergiu do mar. Brotou empurrado por encontros de placas tectônicas. Que dobraram, torceram, viraram, inclinaram e fizeram camadas em ordem não linear que a crueza das rochas expostas registra e conta.

    Extasiava-se com os gelos vivos e ativos, que cavavam vales e empurravam pedras, espessos e impositivos. Que se derramavam em avalanches, se compactavam em geleiras e se transmutavam em água leitosa, fecundando a terra e trazendo movimento e beleza.

    Especialmente no verão, encantava-se com a vida exuberante. A multiplicidade de florzinhas, arbustos, liquens e musgos. A multidão de sementes que repovoava áreas queimadas por incêndios geralmente iniciados por pequenas ações de estranhos à região, ignorantes do poder dos fortes ventos e arrogantes diante de alertas dos nativos.

    A vida multiplicava-se também em pássaros e outros bichos. Imponentes condores que subiam as montanhas em seu voo elegante, passarinhos, patos e outras aves variadas, que atraiam e alimentavam predadores como raposas e pumas.  Aprendeu suas cores, sons e hábitos; suas relações e como estas teciam e perpetuavam a rede eternamente em movimento dos seres vivos. Sentia-se tocado pelo pulsar de sua própria natureza animal, revelada indelevelmente pela identificação com estes semelhantes.

    Era um universo encantado pelas as histórias sobre ele contadas por seus antigos habitantes, em que o tico-tico, com seu colarzinho ocre, é um jovem índio carregando um guanaco no pescoço, transformado em passarinho por mentir, dizendo que o caçara com as mãos nuas, como exige o rito de passagem dos seus para a vida adulta. Leo aprendeu sobre a riqueza cultural dos Selk´nams, Tehuelches, Yaganes e outros povos indígenas, com seus mitos, máscaras, pinturas corporais, arqueria e adaptação nua ao frio e vento extremos. E que foram caçados, adoecidos, embebedados, levados a zoológicos de gente na Europa e exterminados.

    O pai de Leo era um trabalhador da construção civil cuja família tinha tradição em lutas sociais. Com ele, avós e tios paternos, aprendeu de modo vivo sobre a presença forte do anarquismo no Chile nos inícios dos anos 1900. Ao som da música do altiplano, de grupos como Quilapayun e Inti Illimani, soube de acontecimentos políticos dessa época tais como o massacre de escravos rebelados em Iquique e histórias semelhantes em sua própria região.  O horror do desaparecimento de parentes, a dor e o medo intensos instalados em sua família lhe ensinaram sobre a crueza dos anos de chumbo chilenos.

    Criado imerso em experiências, cenários e histórias fortes, como ser feliz com uma vida morna? Leo lança-se à construção de um mundo melhor, em que relações bonitas entre os seres humanos predominem, e enfrenta o que identifica como forças em contrário. Engaja-se visceralmente na luta política, em tempos obscuros, e não tarda para temer e temerem por sua vida. Clandestino, um exilado em seu próprio país, o medo passa a constituir seu cotidiano. Antes acostumado aos amplos espaços, vê-se restrito até em seus movimentos corporais, nos muitos momentos em que sua existência não pode ser percebida.

    Valeu a pena. Sopros de democracia passam a fazer-se sentir, ainda que não vigorosos como os ventos de sua terra. Valeu a pena? Os sonhos pelos quais se entregou de corpo e alma, corações e mente nos anos difíceis não chegaram à metade em sua realização. Um gosto de decepção amarga-lhe a boca.

    A necessidade do extraordinário segue pulsando forte. Clama por seu nascedouro e leva-o a revigorar-se na natureza extrema. Leo vai, então, ao cume do Aconcágua. Três vezes, duas pela dificílima via Polacos.

    Reencontrado, faz dos amplos espaços naturais seu escritório. Para a sorte desta contadora de histórias, que bebeu da alegria, densidade e vigor deste incógnito e belo ser humano, ao ser acompanhada e ter apresentado por ele o Parque Nacional de Torres del Paine. Descobriu, assim, a profundidade da palavra Guia.

    Há conceitos fortemente arraigados nos meios educacionais e no imaginário social, estruturantes e estruturados por modos de ensino predominantes. São idéias como: que para estudar bem são necessárias quatro paredes, protetoras da concentração; que movimento e aprendizagem são incompatíveis; que o bom professor dá muitas aulas expositivas, ou é provavelmente um enrolador; que emoção e sentidos como olfato e tato são fontes de enganos e dispersão, pois o conhecimento verdadeiro vem do raciocínio claro, despido deles.

    Tive recentemente uma experiência de intensa aprendizagem que traz elementos para revisitarmos idéias pedagógicas como estas e outras. Geografia, Geologia, Espanhol, História, Botânica, Ecologia e outras áreas de conhecimento se alargaram e por vezes se transformaram, em uma imensa sala de aula ao ar livre, caminhando e com alguém que foi um mestre marcante e inspirou esta história que acabo de contar, na qual tais aprendizados –e muitos outros – podem ser lidos.

    A Leo González, com amizade e eterna gratidão.

    ...

Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza é psicóloga e Mestre em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da USP, onde coordena o serviço de Orientação à Queixa Escolar. É membro do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade e do Grupo Interinstitucional Queixa Escolar -GIQE. Organizou os livros "Orientação à Queixa Escolar", "Medicalização de Crianças e Adolescentes" e "Saúde e Educação: muito prazer!".