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    OUT

    2013

    Siri na lata: três histórias de candidatos a TDAH

    por Beatriz de Paula em 25/10/2013

    Júlio era um menino danado. Puxava os bigodes do cachorro, cutucava os coleguinhas, comia pasta de dente, subia no telhado, ligava a furadeira, não parava na sala de aula, despencava da mangueira, brigava na escola, fazia perguntas inconvenientes… ô inferno!

    Um dia sua professora passa à classe uma redação: três coisas maravilhosas que Deus fez. Fácil! Escreve: três bananas. Anuncia à mestra espantada: “Professora, acabei!”. Sai e vai para a quadra, pois sabe que seus colegas vão demorar para terminar e não quer ficar esperando parado.

    É sua vez de se espantar quando descobre que levou um zero na redação, redondo como um biscoito de polvilho. Briga com a professora: “mas tá certo!” E a chama de burra, motivando sua imediata ida à diretoria, para o já costumeiro carão.

    Episódios como esse vinham fazendo de Júlio uma figura controversa na escola: amado e odiado. Amavam sua criatividade, seu espírito inquieto como seu corpo, as situações engraçadas que criava. Odiavam o tumulto que gerava, o desrespeito diário às normas escolares, o incômodo que causava aos que queriam estudar direitinho, o desbocamento, o mau exemplo. Uma unanimidade: era famoso, uma celebridade local.

    Sua mãe, D. Neusa, cansou-se de ir à escola para levar carão também. Na primeira fase, conversava e repreendia o filho arteiro. Na segunda, batia e punha de castigo. Na terceira… passou a mandar que fosse todo dia jogar futebol. Todo dia. Tinha um campinho não tão perto de casa, mas Júlio já tinha idade para ir e voltar de lá a pé. “Mas mãe, hoje não tem jogo”. “Não faz mal, vai assim mesmo”.

    Na escola, intrigados, percebem que o garoto anda mais sossegado. E menos bravo. Chamam novamente sua mãe para conversar. Ela vacila, dá uma desculpa para não ir na primeira chamada, falta à segunda. Está cansada de broncas e acusações, sutis ou nem tanto; não é a mãe relapsa que a acusam de ser. E não aguenta mais ficar ouvindo falar mal do seu filho, saco!

    Na terceira, resolve ir para ver se para essa amolação das chamadas. “Mãe, o que você fez com seu filho?”, pergunta a diretora. “Como assim?”. “O comportamento dele melhorou. Não virou nenhum anjinho, mas agora dá pra levar”. Aliviada, D. Neusa conta o seu método futebolístico.

    A diretora fica pensativa. Vem-lhe à mente outros alunos irrequietos, às vezes agressivos, que a escola teve e tem. Será que funcionaria com eles? E se a própria escola aproveitasse mais seu espaço gigante para as crianças correrem, brincarem…? Em classe, parecem siris na lata: clé-clé-clé-clé... No recreio, sua histeria dá nervoso. E se tivessem mais brincadeiras, mais momentos para isso? Ah, muito complicado. Como vai ser para cumprir a grade curricular? Foi só um pensamento, não dá, deixa pra lá.

    Júlio foi crescendo, sempre meio problemático na escola. Agora que era um rapaz, além do futebol, descobrira outra paixão: a escalada em rocha. Sua aptidão e gosto, que se revelara quando pequeno na escalada de armários, telhados e vãos de porta, encontra a grandiosidade e os amplos espaços das montanhas rochosas em ambientes naturais.

    As escaladas em chaminés de rocha, como a das Prateleiras em Itatiaia ou da Agulha do Diabo na Serra dos Órgãos, eram desenvolvimentos do que fazia para subir o vão das portas. Costas e mãos em uma parede, pés na outra, subir, subir, subir.

    As fendas, como as da Pedra do Baú ou as do Pão de Açúcar, não eram tão difíceis de escalar para quem tinha subido na geladeira pelo puxador vertical da porta tantas vezes, quando pequeno. E quando ninguém estava vendo, claro.

    Um dia, Júlio descobriu algo inesperado: que gostava de estudar! Na escola não, que era muito chato. Não aguentava aquelas longas aulas expositivas e sessões intermináveis de cópias. Ia dando uma fervura por dentro, uma agonia. Descobriu então as livrarias, a biblioteca e, mais tarde, a internet. Fuçava e encontrava muitos assuntos interessantes, respostas para muitas perguntas que tinha e outras que nunca havia feito, ou se feito. Sua inquietude corporal era também intelectual!

    Descobriu o movimento das sufragistas americanas. As placas tectônicas e seus deslocamentos. Os números triangulares e a teoria das supercordas. O mito da caverna de Platão, o conceito de infinito, o mistério da Santíssima Trindade (que continuou misterioso). A injustiça entre os homens, a luta de classes, o cenário de destruição da vida planetária em que ela se desenrola. Estudar é ótimo!

    Esta história é inspirada em duas pessoas que existem. É um ajuntado, com costuras bordadas, de fragmentos dos percursos pessoais de Guillermo Arias Beatón e Silvério José Nery Filho, que ouvi aqui e ali. Guillermo é presidente da Cátedra Vigotsky da Facultad de Psicologia da Universidad de La Habana. Silvério é presidente da Federação de Montanhismo do Estado de São Paulo.

    Agora, outra história. Curta, pois é de uma criança que ainda não cresceu.

    Olavo foi fazer avaliação com uma psicóloga. Não foi o primeiro profissional de Saúde que o avaliou, um neurologista. A escola que mandou. Ele não se concentra nas aulas e tarefas na classe, não para na sala de aula, cutuca os colegas, briga com eles e com a professora.

    A diretora, a coordenadora e a professora informaram-se, com colegas de outras escolas e em revistas e livros de Educação, de que estamos na década do cérebro. Neurologistas e psiquiatras, hoje, são a fonte de soluções para problemas que antes faziam sofrer crianças, pais e professores porque não se percebia que eram questões médicas. Dizem que são, agora, rápida e facilmente eliminadas com diagnósticos e tratamentos novos, para problemas cerebrais antes desconhecidos.

    Tem um que está uma praga na criançada de hoje em dia: o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, o TDAH. Mas tem jeito, um santo remédio: uma ritalinazinha todo dia e pronto!

    Olavo? Ah, está com muito jeito de TDAH. Vai para o neuro.

    A família procura um profissional recomendado por um amigo, que tivera uma boa experiência com ele. Dr. Marcius espera seu novo paciente na hora marcada. Quando a porta do consultório se abre, seu olhar, automaticamente voltado para o meio da fresta, tem de baixar para encontrá-lo. Entra uma criancinha de quatro anos. Quatro.

    O relatório da escola e a descrição que os pais de Olavo fazem dele encaixam-se nos indicativos diagnósticos de TDAH, uma lista de comportamentos chamada SNAP-IV. São atitudes como “não consegue prestar muita atenção a detalhes ou comete erros por descuido nos trabalhos de escola ou tarefas”, “mexe com as mãos ou com os pés e se remexe na cadeira” e “tem dificuldade de esperar sua vez”.

    É, ele é assim mesmo. No consultório também. Brinca com os clips, fuça o estetoscópio, não fica quieto na mesa de exame. Mas esse inventário de comportamentos tem uma coisa (dentre outras) que o incomoda: não se diz para que idade é. Será que serve para uma criancinha de quatro anos??

    Não encontra, no exame clínico, qualquer sinal de alteração. Pedir um exame de neuroimagem caríssimo, com aparelhagem sofisticada e rara como o SPECT ou o PET? Pensa, para além da literatura médica, que Olavo não lhe parece muito diferente de um punhado de crianças de sua idade que conhece. Decide, antes de pedir qualquer exame, mandar para uma psicóloga.

    Helena, a profissional indicada, vem fazendo mudanças em seu trabalho. Insatisfeita com a linha mais descritiva e psicométrica com a qual vinha atuando, vem integrando sua experiência anterior, de professora, à atual profissão. Assim, quando recebe Olavo, decide pesquisar não apenas o menininho, mas também os ambientes que ele frequenta, modo de vida, relacionamentos e história, buscando sentidos. Seu passado de professora a leva a fazer algo raro na profissão de psicóloga: pesquisar como é e como ensina a escola dele, ao invés de satisfazer-se com a descrição do seu comportamento nela.

    Descobre uma escola pequena, de ambientes apertados e abafados para o número de crianças que abriga. As práticas pedagógicas nas classes de pequenininhos como Olavo mais parecem típicas de Ensino Fundamental, ou seja, para crianças mais velhas: ficam longos períodos sentados e têm lição de casa quase todos os dias, geralmente envolvendo alfabetização e aritmética.

    Em casa, outro lugar pequeno e apertado, as coisas não andam bem. Estressados com as constantes reclamações da escola sobre seu único e precioso filho, os pais andam brigando. Olavo percebe, culpado, que é o estopim de muitas dessas muitas desavenças que são, a maioria, sobre como educá-lo.

    Helena comunica, ao neuro, à família, à escola e ao próprio menino, que não vê sinais de qualquer transtorno neurológico nele. Baseada, claro, em outras informações e situações também, além das que vivera com ele. Orientações? Bem, várias. Mas as principais eram desdobramentos dos mesmos temas: Olavo tem sede de espaço! De lugares e situações em que possa se movimentar e viver mais plenamente seu corpo! De brincar!

    Será que a diretora do Júlio conseguiu inventar uma escola em que movimento, brincadeira e aprendizagem não precisem andar separados, para o Olavo estudar nela? Será que os pais dele vão conseguir administrar a vida para encontrar maneiras de seu filho querido poder ter lugar para sua inquietude de corpo e alma?

    Já pensou se Guillermo e Silvério tivessem quatro anos agora?

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Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza

Beatriz de Paula Souza é psicóloga e Mestre em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da USP, onde coordena o serviço de Orientação à Queixa Escolar. É membro do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade e do Grupo Interinstitucional Queixa Escolar -GIQE. Organizou os livros "Orientação à Queixa Escolar", "Medicalização de Crianças e Adolescentes" e "Saúde e Educação: muito prazer!".