Educadores

Carla Ferro

Carla Ferro

Filósofa e pesquisadora em ética e educação.

É co-fundadora do Café Filô e promove grupos de estudos de filosofia e educação.

É autora do livro É necessário, o impossível.

Para encomendar o livro: carlaferrolivros@gmail.com

  • 16

    OUT

    2017

    Como educar para um mundo agonizante?

    por Carla Ferro em 16/10/2017

    “Recordaremos a Idade das Profissões como aquele tempo em que a política entrava em decomposição quando os cidadãos confiavam a tecnocratas o poder de legislar sobre suas necessidades, a autoridade de decidir sobre quem necessitava de tal coisa e o monopólio dos meios que satisfaziam estas necessidades. Lembraremos como a Idade da Escolarização os tempos em que se treinavam as pessoas durante um terço da vida para que acumulassem necessidades prescritas, para durante os dois terços restantes passarem a ser clientes de prestigiosos traficantes que dirigiam seus hábitos.”
    (Ivan Illich, O direito ao desemprego criador)

     

    Até há bem pouco tempo a educação era uma tarefa difícil, mas clara. Nossos pais e nossas mães sabiam que a eles cabia nos educar e à escola cabia nos instruir.

    A educação era compreendida como o conjunto de valores e comportamentos que as famílias consideravam os mais adequados para se viver em sociedade. Fossem eles a competição ou a colaboração, a defesa dos próprios interesses ou o apreço pela justiça, a agressividade ou a cordialidade...

    A instrução era a transmissão de um conjunto de conhecimentos e habilidades que seriam exigidas mais tarde para a continuidade da instrução em níveis superiores e para a inserção no mundo do trabalho.

    A progressão funcional e salarial era o objetivo dos indivíduos, enquanto o desenvolvimento econômico e social do País era o meio pelo qual a sociedade buscava o seu bem-estar.

    Quase literalmente pode se dizer que foi assim até ontem. Da noite para o dia, esse cenário parece ter mudado. Conhecemos as consequências tanto do desenvolvimento das nações como do sucesso dos indivíduos. E elas podem ser descritas como a agonia de uma cultura.

    O que as primeiras gerações pós-industriais acreditavam ser a construção de uma sociedade próspera, está se revelando, hoje, insustentável em todos os seus aspectos: econômico, ambiental, social e mesmo humano.

    Não se trata de fazer apelo a um mundo idílico que algum dia tenha existido ou a alguma utopia futura que aponte na direção de um paraíso terrestre, mas sim de perceber que, embora não saibamos o que colocar no lugar, nosso modo de organização social está se esgotando, e que seu limite somos nós.

    Mesmo que isso não nos atinja de maneira decisiva em nossas vidas privadas, a insustentabilidade dessa forma de vida fica cada vez mais clara e seus buracos cada vez mais difíceis de tapar. Medidas econômicas para diminuir o desemprego, reformas na política, na saúde, na educação; terapia, parques públicos e viagens de férias, não vão dar conta de cuidar da próxima geração, a dos nossos filhos.

    Nós somos talvez a última geração que buscou ativamente sua própria incapacitação. Estamos nos dando conta de que passamos a depender, para viver, do que nos adoece. Diante dessa percepção, o que temos para oferecer às gerações que devemos educar?

     

     

     

     

     

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