Educadores

  • 04

    JUN

    2015

    O bando

    por Carla Ferro em 04/06/2015

    O bando não é o grupo dos melhores amigos. Não é a turma, nem a multidão.
    O bando não existe antes nem depois da ação que o constitui.
    O bando aparece quando a criança cai de cabeça no parquinho.
    Quando alguém encontra nascentes de rio brotando do lixo entulhado.
    Quando as ruas entardecem repletas.
    Quando alguém nasce. 
    Quando alguém agoniza.
    Quando alguém precisa.
    O bando é uma configuração.
    Dizem que é retrocesso ver no bando humanidade.
    Dizem que é melhor se organizar. Garantir a cada um as condições de não precisar do bando, essa coisa primitiva, precária, incerta.
    Então o plano de saúde, o hospital, o celular do médico, a cirurgia agendada. A mulher não precisa urrar de dor de parto. Nem de dor. Nem de parto.
    O bando perde a função. E a condição de possibilidade.
    Então os hospícios, abrigos, a prisão, as escolas, o sindicato, a herança, a sedação.
    Uma pessoa amanhece na rua, com fome e sem banho e as outras passam por ela, no caminho entre a estação e o escritório.
    O bando não se configura.
    Porque se o bando pode ser humano, o sujeito de direitos não.

    ...

Carla Ferro

Carla Ferro

Filósofa e pesquisadora em ética e educação.

É co-fundadora do Café Filô e promove grupos de estudos de filosofia e educação.

É autora do livro É necessário, o impossível.

Para encomendar o livro: carlaferrolivros@gmail.com