Educadores

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    DEZ

    2015

    Por que cargas d'água é preciso dar uma resposta?

    por Carla Ferro em 01/12/2015

    Assim que percebemos o lento ou súbito despencar de uma certeza, nos apressamos em colocar alguma outra no lugar.

    Vivemos em uma cultura que valoriza o ato de consertar tudo o mais rápido possível. Cultivamos nossa mania de tapar buracos como se fosse uma qualidade evidente, e agora inovação é o nome da nossa recém-inventada técnica para fazer exatamente a mesma coisa. 

    Um exemplo disso é como estamos interpretando a ocupação das escolas, mesmo quando vemos valor nesse acontecimento. É claro que o que apareceu com o plano de reorganização foi uma enorme rachadura nas estruturas do sistema educacional. Mas os estudantes que ocuparam as escolas certamente não precisaram compreender o problema e muito menos precisaram chegar a um consenso sobre suas motivações para fazer o que estão fazendo. A palavra de ordem "Não feche minha escola" não passa de uma palavra de ordem. Não contém, e nem poderia conter, todas as motivações para ocupá-las. Por baixo das boas, mas frias, razões, existe a lava da adrenalina de dormir fora de casa, da alegria de se cercar de amigos e desconhecidos simpatizantes, da vontade de testar uma vida mais independente e - por que não? - da chance de matar aulas e provas… com toda razão. A incompreensão da amplitude do problema aliada ao entusiasmo foi o que gerou a oportunidade não de resolver, mas sim de criar novos problemas.

    Apesar de evidentemente mais fortes do que uma luta política organizada, apoiada e bem argumentada, essas motivações não parecem dignas de ser expressas. Ao contrário, sem dúvida nenhuma são consideradas - pelos próprios estudantes - menores. Eles sabem que o reconhecimento de que talvez estejam movidos principalmente pelo entusiasmo e por uma certa ignorância poderia desqualificar as ocupações. 

    Simplesmente imprimir outros gestos em suas vidas quotidianas, sem um objetivo definido, sem uma causa por que lutar, sem saber aonde isso vai dar, lhes parece indigno.

    As manifestações de junho de 2013 podem ter ajudado muita gente a perceber que aglomerações são algo poderoso. Mas junto com essa inexplicável sensação, chegaram às pressas os esclarecimentos: é preciso saber o que se quer, ou não se chega a lugar nenhum.

    Mas aonde é que se deve chegar? Por que a pressa em dar uma resposta? Por que a necessidade de reivindicar, propor, negociar?

    Uma vez ocupadas, as escolas passaram a ser palco de transformações muito mais sutis na vida dessas pessoas e na vida de quem as assiste. Enquanto as faixas recusam os planos de mudança, outra mudança acontece. Cozinhar uma panela de arroz para dezenas de pessoas não é tapar buraco. É aumentar a extensão da rachadura. E é por ela que se pode vislumbrar algo que nunca se viu. 

    As reivindicações indicam o que os estudantes pensam que devem desejar. Mas o que fazem ali dentro indica que não precisam saber o que desejam, e mais: que desejar é fazer.

    ...

Carla Ferro

Carla Ferro

Filósofa e pesquisadora em ética e educação.

É co-fundadora do Café Filô e promove grupos de estudos de filosofia e educação.

É autora do livro É necessário, o impossível.

Para encomendar o livro: carlaferrolivros@gmail.com