Educadores

  • 01

    SET

    2015

    Relações entre a desescolarização e a qualidade da educação escolar

    por Carla Ferro em 01/09/2015

    A desescolarização tem sido tema de diversos encontros e conferências sobre educação. Está também na programação da CONANE 2015, que acontecerá entre os dias 5 e 7 de setembro.

    Se a perspectiva da recusa à educação escolar é bem-vinda nessa discussão, deve ser porque se pode imaginar relações entre a desescolarização e a qualidade da educação escolar.

    Qualidade não tem apenas um significado, e em pelo menos dois deles o cruzamento dessas perspectivas pode inspirar uma e outra.

    Quando falamos em qualidade como menor ou maior grau de excelência, é porque conhecemos ou criamos os critérios que definem a excelência. Entre os novos critérios que definem uma boa educação têm sido mencionados com frequência: a liberdade para aprender, o espaço para conteúdos que possam emergir do desejo e do interesse do aprendiz, o papel menos diretivo e mais acolhedor do educador e a aprendizagem ativa ou significativa, que se aproxima da vida a ponto de se identificar com ela. 

    Nesse sentido a aprendizagem livre, que muitas pessoas têm preferido experimentar e deixar experimentar, pode ter algo de inspirador para a busca de uma melhor qualidade da educação escolar. Embora se trate mais precisamente de levar esses desejos, quando se manifestam, às últimas consequências para aqueles que os realizam, em vez de defini-los como critérios universais.

    Mas há um outro sentido em que a qualidade da educação escolar está em questão. Um sentido não quantitativo, em que não é possível falar em mais ou menos qualidade, em melhor ou pior. 

    Como "tipo" de educação, a educação escolar tem sido afirmada desde o século XIX como a única qualidade legítima de acesso, produção e certificação do conhecimento.

    É nesse ponto que a desescolarização, em vez de subtrair qualquer característica da realidade, acrescenta a ela novas qualidades, criando outras e mutáveis formas de educar, ou melhor, de cuidarmos uns dos outros e das coisas de que nossa existência depende.

    Não se trata de um novo modelo que vem se substituir ao modelo vigente e se impor como a nova única qualidade legítima, mas de abertura para criação incessante de caminhos e conexões. 

    A realização da aprendizagem livre, a ocupação das ruas por pessoas de todas as idades inclusive em horário comercial, o acesso, a produção e o reconhecimento dos saberes e das competências independente de instituições ou títulos, oferecem à qualidade escolar da educação um novo lugar neste mundo cada vez mais inteligente: o de uma qualidade entre outras possíveis, já existentes e ainda por vir.

     

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Carla Ferro

Carla Ferro

Filósofa e pesquisadora em ética e educação.

É co-fundadora do Café Filô e promove grupos de estudos de filosofia e educação.

É autora do livro É necessário, o impossível.

Para encomendar o livro: carlaferrolivros@gmail.com