Educadores

Carlos Eduardo Lima Braga (Kadu)

Carlos Eduardo Lima Braga (Kadu)

Estudante de Ciências Sociais (Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e Educador, com atuações na Secretaria Estadual da Cultura, enquanto Educador Cultural, e atualmente no Colégio Oswald de Andrade. Cofundador do Cursinho Livre da Lapa - projeto que integra a Casa Mafalda, Espaço Autônomo onde leciona na área de Geografia.

  • 08

    MAI

    2018

    Sobre ocupações e ensino-aprendizagem - “Se morar é um privilégio, ocupar é um direito”

    por Carlos Eduardo Lima Braga (Kadu) em 08/05/2018

     

    Para escrever esse texto se faz necessário primeiro construir uma cronologia um pouco diferente do que a que está estampando os principais jornais e noticiários de nosso país. Acontece que devemos lutar pela narrativa, devemos lutar pela história e pela maneira como ela é apresentada ao público. Resistir é também construir uma narrativa condizente com os fatos históricos, possibilitando assim uma história cada vez mais completa de ser contada. O edifício, construído na década de 60 - projetado por Roger Zmerkhol realizado pela Morse & Bierrencach - era, antigamente, um símbolo da arquitetura modernista da São Paulo do século XX. Já no século XXI o prédio se encontrava abandonado desde 2003, simbolizando mais uma faceta da São Paulo excludente e impiedosa com a população pobre e negra da cidade.

     

    fotos: Larissa Zaidan/ Angústia foto

     

    Ocupado há alguns anos por pessoas, sim, pessoas - é que tendo em vista o quanto se desumaniza pessoas em situações delicadas, se faz necessário um clamor pelo óbvio. Um prédio não é ocupado por ideologias, um prédio não é ocupado por movimentos, um prédio não é ocupado por debates teóricos, um prédio - abandonado há mais de 10 anos - é ocupado (e não invadido) em sua essência, por pessoas.

     

    O imóvel havia sido ocupado por pessoas em situações delicada. Estamos falando de famílias cujos processos históricos e sociais as afastaram dos privilégios comuns à elite branca paulistana (acesso à faculdade, bons empregos, bons salários, casa própria, etc). Essas famílias, ao se confrontarem com a possibilidade de dormirem na rua, ao relento, ou em comunidades - também tidas como ‘irregulares’ e ‘ilegais’ - nas periferias da cidade; somaram-se em grupos e decidiram então ocupar o imóvel abandonado. Repito, é necessário lutar pela narrativa e sua história. O imóvel se encontrava há mais de 10 anos, completamente abandonado. Sem função. Abandonado pelas empresas que o construíram, abandonado pela governança municipal e abandonado pela União.

     

    Sendo assim, o imóvel foi ocupado por aproximadamente 120 famílias, somando um total de aproximadamente 300 pessoas, seres humanos com os mesmos direitos supostamente garantidos pela Constituição Federal, como eu que aqui escrevo e como você que daí lê esse texto. Eu, e provavelmente você, lemos este texto nesse exato momento, debaixo de algum teto. Convido o/a leitor/a a pensar por um instante sobre o enorme privilégio que é se ter um teto sobre nossas cabeças - seja ele alugado, seja ele uma propriedade sua.

     

    Muito se fala, e pouco se sabe sobre os reais motivos que iniciaram o incêndio. Essas 300 pessoas não estavam ali por escolha. O processo de ocupação de um imóvel abandonado se dá justamente quando se depara face a face com o descaso que temos com outros seres humanos sem os mesmos privilégios que nós.Tendo começado por um curto circuito, por uma panela ou botijão de gás, tendo sido um incêndio iniciado por criminosos ligados ao crime oficializado das diversas linhas do poder institucional, tenha sido o incêndio iniciado por criminosos ligados ao crime organizado (não institucional - das ruas). O que importa, ao meu ver, é que a vida e a dignidade dessas 300 pessoas são a única coisa que importa nesse breve aspecto do debate.

     

    De fato, não era um prédio com finalidade - inicialmente - residencial. Da mesma maneira que, de fato, não era um prédio com a intenção de ficar mais de uma década completamente abandonado, apodrecendo e às moscas. Porém, como diz o jargão exposto em vários cartazes de luta por moradia “Se morar é um privilégio, ocupar é um direito”. Ninguém almeja em sua vida morar em um lugar que nem ao menos foi feito para se morar. Porém, a vida desigual na cidade de São Paulo não se regula pela racionalidade aristotélica. Aqui, pessoas nascem, vivem e morrem de jeitos e em lugares que não foram pensados para essa finalidade. Porquê isso acontece é o X da questão, e a resposta é simples e complexa ao mesmo tempo: privilégios e condições historicamente construídas desde nossa formação enquanto nação.

     

    Aos o desastre do desabamento, essas 120 famílias (compostas de seres humanos, com os mesmos direitos que eu e você, garantidos pela Constituição Federal), sem terem para onde ir, iniciaram um acampamento improvisado na frente da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos - local histórico de resistência negra em nossa cidade - que em mais um episódio, se faz quilombo do povo oprimido de nosso país. A prefeitura cadastrou as pessoas sobreviventes do desabamento, prometendo-lhes (e até o momento sem entregar) um auxílio-aluguel de 400 reais. Pergunto ao leitor/a: Em qual local da cidade de São Paulo se paga um aluguel de 400 reais?

     

    Porém, o fato é: ali se uniram pessoas. Vítimas do desabamento do edifício e apoiadores em geral, grupos religiosos, parte da torcida organizada ‘Independente’ do São Paulo Futebol Clube, movimentos sociais e populares em geral. E lá fui eu também.

     

    Fui pelo simples fato de que tem que ir. Não somente eu, mas temos que ir. Não somente lá. Tem-se de trabalhar em prol dos menos privilegiados pelo simples fato de que existem menos privilegiados. Lá, encontrei uma situação delicadíssima. Não há nem como ser diferente. A casa dessas pessoas, por mais que improvisada, por mais que criminalizada pela grande mídia, por mais do que for, a casa daquelas e daqueles seres humanos desabou sobre suas cabeças, em chamas, na madrugada do Dia do Trabalhador. Há de fato exaltação de ânimo, xingamentos e desentendimentos. Há espetacularização da miséria e da tragédia vivida por essas pessoas. Há mídia corporativista indo, sem o menor sinal de respeito, enfiando suas câmeras gigantescas na cara das pessoas e invadindo o que lhes resta de privacidade.

     

    Logo, de fato, não é nenhum lugar para passeio, ou conversas calmas sobre temas filosóficos e teóricos. Cheguei no acampamento, me identifiquei enquanto apoiador autônomo, educador e ser humano cujos braços estão disponíveis para o que for necessário. No mesmo momento ouvi um grito em minha direção que dizia: “Apoio!!! ta chegando 50 fardos de água, tem que carregar!!!”. Lá fui eu auxiliar a carregar os fardos de água. Ao chegar na cozinha que fora construída era notável a desorganização do estoque. Assim, começamos a juntar um pequeno grupo de pessoas para re-organizar e re-pensar toda a estrutura da estocagem, organização e distribuição dos alimentos recebidos.

     

    Foi trabalho de umas 5 horas. Abaixa, pega, leva, encaixa, o chão da praça não é nivelado, cuidado, risada (as primeiras que presenciei até então por ali), pergunta o nome, conversa, faz amizade, puxa, amarra, busca caixa de papelão, arroz com arroz, macarrão com macarrão, “tio me dá uma bolacha recheada”, chega mais doação, repensa tudo de novo, mais caixas, faz café (usando 1 quilo de pó por sessão), e assim foi entrando a tarde.

     

    Lá, pensei que, enquanto educador, poderia auxiliar com as crianças, realizando alguma atividade que as ocupasse. Sabe de nada inocente. Bastou ouvir os primeiros gritos de “Apoioooo” e seguir. Oferecer-se enquanto corpo, estar enquanto mente.

     

    Pois bem, colegas educadores e educadoras, não é essa, em muitos aspectos, a nossa função primordial? Oferecer-se enquanto corpo ativo, e estar - de fato - com toda a sua intenção e atenção naquela vivência que é, sempre, concomitantemente, de ensino-aprendizagem. Pensei comigo enquanto trabalhava: se eu trouxesse uma turma de escola para trabalhar aqui no apoio, o que - do conteúdo programático - eles aprenderiam?

     

    A resposta é plural e diversa! Cabe para todos os anos de Ensino Fundamental e Ensino Médio. Cada um em sua especificidade. Frações, Contas, Geometria, Sociologia, Urbanismo, História, Filosofia, Preservação de alimentos, Organização, Pensamento estratégico. Enfim, é muito!

     

    Hoje em dia, nos congressos que participo - seja como ouvinte, seja como palestrante - muito se escuta e se fala (eu incluso) da “Aprendizagem baseada em problemas” tradução livre para PBL - problem based learning, um termo chique que estampa atualmente os principais e mais atuais congressos sobre Inovação Pedagógica. Pois bem, pergunto-me então: Onde estão os educadores e educadoras, os educandos e educandas nesse que sintetiza um dos maiores problemas de nossa cidade, e de nossa sociedade global: moradia, privilégios, intersetorialidade e acesso?

     

    É lá que deve estar a Educação Inovadora que tanto se busca: nos problemas, nas crises, nos momentos calamitosos e sensíveis. Pois afirmo categoricamente: nos congressos, nas palestras e nos vídeos do YouTube, a tão buscada Educação Inovadora.

     

    Já é comum os discursos de que a escola deve romper com seus muros e atuar na sociedade. São páginas e mais páginas que teorizam a ideia, colocando-a como necessidade óbvia para um avanço sólido em nosso modo de pensar Educação. Pois bem. Façamos o novo hoje! Afinal de contas, para se fazer algo novo, não se requer experiência!

     

    Se todas as cabeças balançam em sinal afirmativo de apoio quando se cita Paulo Freire em qualquer simpósio, encontro, palestra, aula magna, porque não o escutam? A Educação deve ocupar, assim como os movimentos de luta por moradia, qualquer lugar que não esteja tendo uma função social. Até porque, é a própria Educação que se faz enquanto método de socialização do mundo. É através dela que se lê o mundo, se debate, se aprofunda. Logo, é também através dela que devemos trabalhar (com os braços e não apenas com a cabeça) para auxiliar nas questões mais problemáticas de nossa sociedade.

     

    Estudar sobre Educação baseada em problemas é algo, lindo, inquietante, é algo que fascina qualquer pessoa que se propõe a estudar a Educação em si. Porém, até quando esse tipo de reflexão ficará preso nas universidades - que por sua vez são elitizadas - ou nos congressos - que por sua vez, também são elitizados.

     

    Acredito cada vez mais, que tudo o que estudei e sigo estudando acerca de Educação Inovadora só faz sentido quando aplicada nos momentos de crise. Pois é ali que se lê o mundo. É ali que se vive ao vivo. É ali que as mais profundas situações de ensino-aprendizagem se constituem.

     

    Faço portanto esse texto, para que, aproveitando-me de meus privilégios reconhecidos e acessos facilitados, eu possa atingir você, leitor, leitora, educador, educadora, educando e educanda - pois segundo os maiores teóricos da Educação nunca deixamos de ser educadores e educandos, pois se ensina aprendendo e se aprende ensinando.

     

    Faço esse texto clamando e convocando por ação de nós, que temos casa, de nós que reconhecendo os privilégios desiguais de nossa sociedade, e reconhecendo seu lugar ocupado nesse cenário. Convoco portanto a todos e todas que se reconhecem, e que estão abertos a: enquanto carregam sacos e mais sacos de algo, enquanto se levanta uma tenta de madeira, enquanto se brinca com alguma criança que não tem casa, a aprender ensinando e ensinar aprendendo.

     

    A Educação deve ocupar os espaços. E principalmente os espaços de crise. Pois ali estão as principais inovações, ali estão as novas formas de se pensar, de se agir, de se estar. A Educação nasceu por demandas reais, ligadas estritamente à sociedade como um todo. Não se trata de ingressar em uma instituição para então “acabar os estudos” e ingressar no mercado de trabalho.

     

    Que a Educação, em todos os termos possíveis de compreensão ocupe seu espaço histórico e que se abra a atuação em momentos de crise.

     

    Nesses dias vivenciando uma dinâmica de trabalho árduo e coletividade entre desconhecidos, aprendi muito. E muito além do que qualquer instituição pôde ou se propos a me ensinar. Se a sala de aula é o mundo, que estejamos nela como seres ativos, que atuemos, construindo o novo, auxiliando nos momentos de crise.

     

    Aprendi mais sobre Educação carregando sacos de arroz e distribuindo café, do que a soma de todos os congressos que já presenciei ou dei palestra.

     

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    Pontos de coleta para doações:

     

    • Cruz Vermelha – O posto de doação fica na sede da instituição, na Avenida Moreira Guimarães, número 699, próximo ao aeroporto de Congonhas. Itens recebidos: água, roupas novas ou em bom estado, alimentos não perecíveis com prazo de validade superior a trinta dias, itens de higiene pessoal e limpeza, cobertores, sapatos e brinquedos.

    • Universal do Reino de Deus – Aceita doações na igreja do Brás (Avenida Celso Garcia, 499). Itens recebidos: água, alimentos não perecíveis, fraldas infantis e roupas.

    • Comunidade Sant’Egídio – A organização católica se organiza em dois pontos para coleta. O primeiro está localizado na Rua José Antônio Coelho, número 661, apartamento 24. O segundo na região central, na Rua José Bonifácio, número 325.

    • Ocupação Mauá – O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) tem recebido doações nessa ocupação, o endereço é Rua Mauá, 340.

    • A Igreja Nossa Senhora do Rosário, bem próxima dos escombros, no Largo do Paissandu, também está aberta a contribuições – e tem uma pilha de doações nas escadaria da frente.

     

    Hoje em dia, nos congressos que participo - seja como ouvinte, seja como palestrante - muito se escuta e se fala (eu incluso) da “Aprendizagem baseada em problemas” tradução livre para PBL - problem based learning, um termo chique que estampa atualmente os principais e mais atuais congressos sobre Inovação Pedagógica. Pois bem, pergunto-me então: Onde estão os educadores e educadoras, os educandos e educandas nesse que sintetiza um dos maiores problemas de nossa cidade, e de nossa sociedade global: moradia, privilégios, intersetorialidade e acesso?

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