Educadores

  • 08

    JUL

    2015

    Kombi dos jogos ressignifica espaços públicos em São Paulo

    por Carlos Eduardo Lima Braga (Kadu) em 08/07/2015

    Uma Kombi, vários jogos tradicionais, e uma proposta de ocupação e ressignificação dos espaços públicos na cidade de São Paulo

     

    No dia 27 de junho, tive a oportunidade de acompanhar de perto as atividades da Kombi dos jogos - brinquedos e brincadeiras.

    Fui ao bairro do Jaguaré, mais precisamente na comunidade ‘Mutirão’ - comunidade cujo nome já explica muito de seu processo histórico de resistência, logo a primeira vista.

    Sendo assim, estacionada na praça ao final da pequena rua Quero Quero, estava a Kombi e seus educadores - já devidamente rodeados de algumas crianças que se aproximavam. Tratava-se da 4ª e última ída do grupo à comunidade, o que já pressupõe uma aproximação menos acanhada das crianças e adultos da região para com as atividades.


    Como havia sido gentilmente convidado pelos fundadores do projeto a ‘me jogar’; aproveitei o ensejo e sem muitos ensaios me pus a brincar. De início acho válido registrar neste pequeno artigo, que, embora esteja eu com 25 anos, me vi brincando de jogos que - ou não conhecia e nunca tinha nem ao menos ouvido falar - ou não brincava há pelo menos 10 anos.

    Passei a ter vertigens nostálgicas, lembrando de meu tempo de criança e das brincadeiras que mais me empolgavam; e de fato, isso me deixou em um estado de ligeira euforia somado a uma imensa vontade de participação e soma com o projeto.

    Em muitas brincadeiras, as próprias crianças é que me ensinavam as regras e a jogabilidade; e a partir daí, o resto eram divertidas risadas, e como não se pode deixar de registrar, o “resto” também contemplava um claro momento de criação de vínculo.

    Em poucos minutos todos os ambientes já estavam montados, e os educadores e educadoras (Gabriel e Bianca, juntamente com duas voluntárias-militantes, Alice e Priscila) se dispuseram pelo espaço de maneira a mediar os processos do brincar, juntamente com a organização do espaço e acolhida aos que ficavam mais de longe, apenas observando o movimento.

    A sensação que me passava a cada momento, era de imensa tranquilidade e simplicidade, porém que trazia em si, conceitos importantes de ocupação popular dos espaços públicos. Via-se pais e filhos, adultos e idosos, os quais, alguns brincavam, enquanto outros apenas observavam de longe. Mas um fato concreto é que todos - sem exceção - exibiam um belo e largo sorriso no rosto. Nas crianças travata-se de um sorriso de encantamento e empolgação; enquanto nos adultos e idosos, a leitura desse sorriso me passava um sentimento de saudade de um tempo que se não fosse guerreiros como os educadores e educadoras dessa Kombi - e de tantos outros projetos e iniciativas - estariam cada vez mais distante.

    Durante a atividade, me concentrei entre uma brincadeira e outra, para conseguir entrevistar algumas pessoas do entorno. Busquei colher depoimentos de adultos, idosos e crianças participantes, com o foco de deixar ao leitor, aqui, uma - minimamente - boa noção das inexplicáveis sensações que fui acometido durante aquelas poucas horas de mais um sábado.

    Com falas simples, porém que transmitiam algo muito maior do que apenas suas palavras, a aprovação foi consensual. Crianças e adultos adoravam as intervenções da Kombi no bairro, e já premeditavam a saudades após a partida do projeto.

    Há de se ressaltar, que dentre alguns dos adultos entrevistados, já via-se o desejo e articulação da continuidade das atividades lúdicas, como por exemplo quando conversei com Dona Sônia Aparecida da Silva, senhora sorridente e simpática, nascida e criada na comunidade; cujo trabalho há 33 anos na ONG Sociedade Benfeitora Jaguaré  lhe credenciava grande experiência e empolgação para as articulações de seguimento das atividades. Sônia inclusive comentou que já havia iniciado o processo de construção de novos brinquedos de madeira para a utilização futura das crianças.

    Esta educadora local me informou que a Kombi lhe serviu de grande inspiração, uma vez que após ‘levar a ideia’ para dentro da ONG que atua, a aceitação fora grande, empolgando e inspirando mais pessoas para o seguimento das atividades e somatória de forças distintas.

    Sônia vê no seguimento das brincadeiras daquele sábado, a construção de importantes valores sociais, como o do compartilhamento, o respeito às regras coletivas, e o poder inclusório das brincadeiras, uma vez que após aprenderem, são as próprias crianças que ensinam umas as outras e mediam muitos de seus processos em torno daquela atividade em específico.


    Quanto às crianças entrevistadas, os depoimentos eram mais simples, pois afinal de contas, espremiam-se entre suas oportunidades de entrar de novo em alguma nova brincadeira.

    Juninho, Vitor e Kaique (respectivamente com as idades de 5, 6, e 12 anos) foram unânimes em dizer que a movimentação causada pela Kombi era muito boa, e produziram respostas curtas à esse - ainda inexperiente - escritor: “Sobre isso? Eu acho é que eu vou jogar mais!”, ou - respondendo aos questionamento acerca do que estavam achando disso tudo: “Brincar muito!”. E pronto; saiam correndo.

    Kaique, um pouco mais velho, deve ter se apetecido com este jovem escritor, e deu-me um pouquinho mais de seu tempo, podendo registrar inclusive um processo interno de ressignificação acerca da comparação entre os ‘jogos de hoje em dia’ e ‘os jogos tradicionais’:

    “É muito da hora! Legal! Já é a 2ª vez que eu venho; o meu irmão que me chamou e a galera me recebeu bem. Aprendi um monte de jogos novos”

    - É melhor que video-game? (perguntei)

    “É melhor. Video Game… GTA… tem muita violência. Mas é legal também.” E correu.


                Para mim, foi um pouco confuso ver nesta criança, talvez, a reprodução de um discurso familiar, indicando a violência presente nos jogos de hoje em dia; em paralelo à empolgação de Kaique frente à esses jogos também. Porém, uma coisa que podemos afirmar com relativa tranquilidade e certidão, é que naquele sábado - pela 2ª vez - um novo e mais amplo leque de brincadeiras e jogos se abriu para ele; conquistando-o, pelo menos por hora, sob um viés do resgate dos jogos de rua; integrando praça e moradores, vizinhos, familiares e amigos.

    Enfim, tive um sábado surpreendente, que mesmo após uma longa reunião de meus projetos paralelos, pôde levantar minha energia de maneira incrível; conhecendo um projeto que por de trás de uma capa simples, carrega conceitos importantíssimos à qualquer comunidade; de que dentro do universo do brincar, entram uma troca intensa de saberes, trabalhando o respeito mútuo, em paralelo ao empoderamento popular sobre o espaço que lhes é fruto caro de uma resistência histórica nas periferias, frentes às desigualdades brutais que lhes são impostas no processo de construção e crescimento da cidade caótica de São Paulo.

     

    Histórico do projeto:


                Durante todo seu processo de formação em pedagogia, pela Universidade de São Paulo, Gabriel Douek e Marina Perlman entraram em contato com iniciativas e disciplinas que traziam em si, um aprofundamento dos aspectos acerca do universo da brincadeira.

    Impulsionados por isso, pensaram portanto na criação de um projeto que se baseasse em conceitos acerca da cultura lúdica, através dos jogos e brincadeiras tradicionais (nacionais e internacionais), juntamente com ideias de ocupação de espaços públicos da cidade.

    Sendo assim, moldaram suas ideias à uma proposta itinerante, através da utilização de uma Kombi.

    O projeto ficou relativamente parado por um tempo; até que participaram de um processo seletivo através da fundação Arymax, pelo Programa "Jovens Talentos" - desenvolvimento de pessoas e projetos. E Gabriel portanto, se inscreveu, colocando na cena - finalmente - sua ideia de uma Kombi itinerante, levando às comunidades periféricas da cidade, uma ótica de ressignificação dos espaços públicos, ocupando-os com atividades lúdicas, mediando os contatos interpessoal, sob novas perspectivas de situações de aprendizado, inseridos no universo dos jogos e brincadeiras tradicionais.

    Escreveram um projeto piloto, criaram uma página no Facebook (Kombi dos jogos) e iniciaram a divulgação de suas ideias na Rede.

    Através dessa primeira difusão, a educadora Bianca Rozenberg, também formada pedagoga, pela USP, pôde entrar em contato com o projeto, que tanto tinha a ver com sua ideia de pesquisa, assim como suas aflições internas e militância. Bianca, que após ter participado de algumas oficinas de construção de jogos, e atuado em projetos com enfoques lúdicos, inicia no mestrado a pesquisar a cultura do brincar e dos jogos, enquanto patrimônio cultural da humanidade, e quais os usos, apropriações e (re)invenções são possíveis dos próprios jogos e brinquedos; nas relações entre os brincantes e com os espaços onde ocorrem. A Kombi dos jogos  passa portanto, a ser uma potencializadora para sua pesquisa.

    Gabriel, Marina, e agora Bianca, carregando suas ideias inovadoras, foram aprovados e selecionados no processo seletivo e assim, iniciaram um processo mais pragmático, de uma efetiva estruturação e viabilização do projeto, agora, contando com financiamento - que embora restrincivo, já possibilitava dar vida a uma ideia.

    Para tal, tendo em vista as ambições internas dos fundadores do projeto; em paralelo ao cunho comunitário do processo seletivo do qual participaram; iniciaram as sondagens em vias de escolherem as comunidades de atuação.

    Há de se registrar porém neste momento, que o projeto, assim como a ideia de ocupação lúdica dos espaços públicos da cidade, mediados pelo brincar; não se limita a um recorte de classe social, podendo obviamente ser aplicado e impulsionado em qualquer setor social. Afinal de contas, como nos disse Bianca “Todo ser humano é um ser brincante”.

    Porém, como dito acima, neste início de vida do projeto, coube ao grupo selecionar os bairros de atuação. Assim, escolheram iniciar seus trabalhos no bairro no Jaguaré, Zona Oeste da capital paulista. Esta escolha fora pareada ao contato prévio já estabelecido pelo programa Jovem sem Fronteiras, uma iniciativa da Hebraica São Paulo da qual Gabriel e Marina já participa. Logo, aproveitando dessa primeira iniciativa, o local fora escolhido em vias de acolher o projeto da Kombi em um espaço que já vinha se habituando a presença de educadores terceiros à comunidade.

    O outro local de ação selecionado foi a comunidade São Remo, também na Zona Oeste da capital. A comunidade, localizada na margem à Oeste da Universidade de São Paulo, por sua proximidade geográfica, e tendo como paralelo o engajamento social de parte relevante dos estudantes, não poderia ficar de fora das atividades iniciais de itinerância da recém materializada, Kombi dos jogos.

    Por outro lado, independente da cultura de proximidade construída entre os estudantes da USP e a comunidade São Remo; para os criadores da Kombi, seria uma primeira entrada em uma comunidade sem um contato prévio pessoal dos educadores.

    Dentro das concepções de atuação do grupo; principalmente quando se trata da atuação em comunidades carentes; há uma importante preocupação com o seguimento das atividades, e dos conceitos levantados durante as ações, como a manutenção das ocupações lúdicas, só que após as intervenções dos educadores, sendo estas mantidas daí pra frente pelos próprios moradores da comunidade - fortalecendo o processo de empoderamento autônomo das lideranças orgânicas do subdistrito.

    Dessa forma, pude ver em minha visita às atividades da Kombi, na comunidade do Jaguaré um ótimo exemplo do processo de continuidade das ocupações lúdicas através da articulação própria dos moradores. Os brinquedos estavam em processo de construção em uma serralheria próxima, e ao julgar pela empolgação dos moradores entrevistados, as ocupações lúdicas iriam continuar - inclusive com o desenhar de uma parceria com uma creche local.

    O contato e disposição dos adultos que circundavam as atividades era notório.
    Embora estivessem em número menor do que as crianças envolvidas, os adultos sempre que perguntados, mostravam-se não só em apoio ao projeto, mas empolgados por poder ver, mais uma vez, naquelas mesmas ruas, um peão de madeira rasgar a areia, enquanto a bolinha do futebol de botão batucava o banco da praça.

    Assim, a Kombi dos jogos entra portanto no cenário da resistência urbana, via ocupação e resignificação dos espaços públicos, junto à ‘ferramenta sócio-cultural do brincar’ enquanto instrumento para algo muito maior; como um instrumento de empoderamento popular local, em paralelo à um resgate histórico de uma cultura na qual as ruas eram cheias de crianças; e no qual inclusive, os adultos também brincavam.




    Para entrar em contato com o projeto Kombi dos jogos - brinquedos e brincadeiras, basta acessar:


    Facebook: https://www.facebook.com/kombidosjogos

    Email: kombidosjogos@gmail.com

    Tel: (11) 971873787

     

    Educadores envolvidos:

    • Gabriel Douek  - Fundador(Pedagogo - FEUSP )
    • Bianca Rozemberg - Fundadora (pedagoga formada pela USP; e mestranda na Educação pela Universidade Federal de Viçosa)
    • Marina Perlman - Fundadora (pedagoga  FEUSP)
    • Alice Signorelli (Pedagoga - FEUSP)
    • Priscila Tavares (Pedagoga - FEUSP)
    • Igor Oliva (Pedagogo - FEUSP)

     

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Carlos Eduardo Lima Braga (Kadu)

Carlos Eduardo Lima Braga (Kadu)

Estudante de Ciências Sociais (Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e Educador, com atuações na Secretaria Estadual da Cultura, enquanto Educador Cultural, e atualmente no Colégio Oswald de Andrade. Cofundador do Cursinho Livre da Lapa - projeto que integra a Casa Mafalda, Espaço Autônomo onde leciona na área de Geografia.