Educadores

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    MAI

    2015

    Um breve cenário da Greve dos Professores de SP

    por Carlos Eduardo Lima Braga (Kadu) em 22/05/2015

    Apesar de o Governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, afirmar incessantemente que não há greve de professores - assim como declara que não há racionamento de água -, algumas pessoas com ligeiro grau de percepção podem, puderam e ainda poderão perceber que nesses mais de cinquenta dias de greve, seja nas ruas, seja nas redes sociais, há uma grande categoria de trabalhadores mobilizada e em pleno processo de luta.

    Porém, infelizmente, algo que ainda se vê - e que por sua reincidência histórica já não surpreende mais - é a violência, o silêncio, e a intransigência por parte do Governo do Estado (na figura de Geraldo Alckimin) e de seu braço repressor, a Polícia Militar do Estado de São Paulo. Do mesmo infeliz formato, não surpreende a atuação explícita da chamada “grande mídia” e seus principais canais de comunicação. Estes, quando noticiam a Greve que há mais de um mês movimenta e se faz ouvir por toda a cidade, expõe informações pouco embasadas - fruto de uma pesquisa diminuta -,de forma leviana que a única demanda da categoria é por aumento de salários - mesma colocação do governador; isso quando ele não diz apenas que a greve não existe.

    Enfim, é nesse tabuleiro que se encontram nossos professores da rede pública: frente a um governo intransigente que se nega a negociar; e tendo suas demandas e lutas diminuídas por uma mídia corporativista.

     

    “os professores não são entrevistados apenas aparece declarações da direção do sindicato, e sempre querem fazer relação  da greve com disputa eleitoral entre PT e PSDB tentado de todo forma divulgar que e greve tem fraca adesão e as assembleias e passeatas estão atrapalhando o dia dia das pessoas.”

     

    “Geralmente a contagem dos participantes dos atos e assembleias noticiados pela grande mídia é descomunalmente equivocado; sempre em detrimento do movimento.”

     

    (relato de professores entrevistados durante as últimas manifestações)

     

    Levanto, portanto, alguns dos principais motivos para a paralisação da categoria, visando assim, dentro de um modelo de mídia independente, exaltar pontos coletados diretamente com professores em greve, de portais de mídias alternativas além de portais oficiais (APEOESP) e de portais de mídia autônoma da categoria - como as páginas “Eu apoio a greve dos Professores de SP”, “Professores em Greve 2015”, “Greve dos Professores do Estado de SP Março/2015”, “Professores Anarquistas” “Professores em Greve”; independentes à seu sindicato.

     

    Sendo assim, após realizada esta pesquisa, alguns dos motivos para a Greve são:

     

    •                Fechamento de 3390 salas de aula; o que obviamente ocasionou uma superlotação de classes com até 60 alunos no ensino regular e 90 no ensino de jovens e adultos (além do abandono de vários estudantes);

     

    •                Corte verbas destinados às escolas; o que, segundo entrevista divulgada pela Carta Capital, ocasionou em um estado de precariedade nunca antes visto; não há papel higiênico nos banheiros; há escolas sem carteira - logo, sem condições mínimas e básicas de acolhimento às crianças e adolescentes; lousas quebradas, falta de pintura; falta de laboratório de ciências e biologia em condição de uso - isso quando há o laboratório em si - pois muitas escolas nem ao menos tem esses espaços de pesquisa. Impressora tem, mas não tem tinta, que em muitos casos é comprada pelos próprios professores em vias de conseguirem aplicar suas fichas, exercícios e provas.

     

    •                Um professor PEB I (que leciona para anos iniciais do Ensino Fundamental) recebe R$ 10,43 por hora-aula.

     

    •                Um professor PEB II(que leciona para os anos finais do Ensino Fundamental) recebe R$ 12,08 por hora-aula.

     

    •                Neste ano, no Estado de São Paulo, 22.000 professores foram demitidos.

     

    •                A Lei Federal do Piso (LEI. Nº 11.738, de 16 de Julho de 2008) não é cumprida pelo Governo do Estado de São Paulo, desde 2008 - o ano de início de atuação da lei.

     

     

    Porém esses são apenas os principais motivos para a insurgência de nossos professores-guerreiros do sistema público; há inúmeros relatos acerca da insegurança, e do desamparo frente à tais situações; há relatos de professores que necessitam de acompanhamento psicológico e as vezes até psiquiátrico por causa de estresse causado por essas condições. Há de se ressaltar neste caso, que os professores e professoras, são a categoria de trabalhadores que mais adoecem por causas psicológicas por conta de suas péssimas condições de trabalho.

    Mas não podemos também, deixar de registrar e enaltecer, a capacidade e compromisso desses, que dia a dia, faça chuva faça sol, estão lá; na linha de frente da formação de nossa sociedade. São elas e eles que constroem de fato, o futuro; ao mesmo passo que são esses mesmos guerreiros, elas e eles, que sofrem todos os dias com as mazelas de nossa educação, expressando seus reflexos de maneira sempre violenta: seja pela violência da falta de estrutura, seja pela violência dos baixíssimos salários, seja inclusive pela violência da truculência policial, abusando de seus postos e fardas; e seja também, pela violência do silêncio sepulcral de Geraldo Alckimin, o governador do Estado de São Paulo, que, como se não bastasse se negar a dialogar com a classe, impõe sobre a mídia corporativa uma informação absurda e falta; de que a greve, nem ao menos existe.

    Toda força às professoras e professores do sistema público de educação!

    Hoje em dia, suas aulas ainda estão a ocorrer, mas destas vezes, ocorrem nas ruas e avenidas que estes guerreiros e guerreiras fecham com suas bandeiras e gritos pedindo nada mais nada menos, do que condições básicas e dignas de convivência, acolhimento e trabalho para que assim, possam exercer suas funções; que dentre elas, está a motivação de edificar o futuro de toda uma nação.

    Foto: Osvaldo de Souza Oz

    Veja mais informações - que não vão passar na grande mídia - nesse link: https://youtu.be/K4Rjk-R75ns

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Carlos Eduardo Lima Braga (Kadu)

Carlos Eduardo Lima Braga (Kadu)

Estudante de Ciências Sociais (Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e Educador, com atuações na Secretaria Estadual da Cultura, enquanto Educador Cultural, e atualmente no Colégio Oswald de Andrade. Cofundador do Cursinho Livre da Lapa - projeto que integra a Casa Mafalda, Espaço Autônomo onde leciona na área de Geografia.