Educadores

Denis Plapler

Denis Plapler

Formado como Sociólogo pela PUC-SP e Mestre em Filosofia da Educação pela USP. 

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    ABR

    2018

    Para ser professor é preciso acreditar no ser humano

    por Denis Plapler em 20/04/2018

    Não por acaso no pátio central da escola permanecia uma lousa na qual qualquer pessoa, estudante, professor, funcionário ou familiar, poderia passar e anotar o assunto que desejasse levar à assembleia realizada semanalmente. Assim a pauta era sempre aberta e coletiva. Entretanto escrevo este artigo não para contar a respeito do funcionamento das assembleias, mas sobre o maravilhoso trabalho proposto pelos professores de artes e realizado pelos estudantes em conjunto com seus familiares.

    Em 1651 Thomas Hobbes publica o Leviatâ, uma das obras mais influentes da história da ciência política. Neste livro o filósofo e matemático inglês estabelece uma analogia na qual compara o Estado a este famoso monstro bíblico. Com isto constrói um dos exemplos mais influentes de um conceito conhecido como o contrato social. De forma concisa, defendia Hobbes que nossa natureza humana não nos permitiria viver em liberdade, pois os interesses comuns nos levariam a violentos conflitos que acarretariam no que ele nomeou como a Guerra de todos contra todos. Assim Hobbes criou uma narrativa na qual fundamentou a necessidade de abdicarmos de nossa liberdade em troca da necessária segurança de um Estado soberano e absoluto capaz de impor a ordem através do uso legítimo da força, um contrato social no qual teríamos de forma consensual abdicado de nossa liberdade em troca de uma suposta segurança. Entretanto o que acompanhamos historicamente é o próprio Estado muitas vezes como promotor da violência e da desigualdade. Assim, há quem como eu considere a visão de Hobbes bastante pessimista a respeito do ser humano e de nossa capacidade de dialogar e conviver pacificamente em liberdade.

    Nos vários cantos do Brasil encontramos comunidades nas quais o Estado se faz presente levando apenas a polícia e oferece condições precárias de moradia, saúde e educação. Entretanto este não é um discurso privatista que demoniza o público para favorecer o privado. São muitos os lugares também nos quais a boa oferta dos serviços públicos proporciona uma diferença vital para as pessoas que ali vivem. Portanto, é preciso ressignificar o público e saber que a crítica ao Estado pode tanto ser apropriada por um discurso neoliberal, como por uma perspectiva libertária capaz de vislumbrar nossa capacidade humana de construir uma sociedade mais justa, onde possamos viver com liberdade e ao mesmo tempo proporcionar coletivamente melhores condições de vida para todos, fazendo dos espaços públicos de fato o lugar do público, das pessoas, e não da propriedade privada ou do Estado. Neste sentido vale sempre lembrar que qualificar a educação pública implica em qualificar não apenas as escolas públicas, mas também os espaços públicos como um todo. Entendo que para valorizar a escola pública no Brasil se faz urgente remunerar melhor seus profissionais e reduzir o número de estudantes por educador.

    Portanto naturalmente educávamos alinhados a vertente da ciência política que acredita profundamente na liberdade como um valor fundante do projeto político pedagógico e compreendendo que, para sermos educadores precisamos necessariamente acreditar no ser humano. Não acreditar na capacidade humana significa não acreditar em nós mesmos.

    Cassiano Reis e Danielle Noronha estão sem sombra de dúvida dentre os maiores artistas e educadores que tive a oportunidade de conhecer, nos anos que passamos juntos pude aprender muito com eles e certamente me tornei uma pessoa melhor a partir desta convivência. Nesta ocasião tiveram a brilhante ideia de unir arte e política como uma forma de fortalecer a filosofia da escola e o resultado foi maravilhoso. Junto com as crianças desenharam um monstro assombroso e posteriormente convidaram os familiares dos estudantes a finalizar a atividade em conjunto, auxiliando assim a construir coletivamente o significado do trabalho proposto.

    Na época eu atuava como membro da equipe de coordenação da escola e pude acompanhar todo o processo. Além de maravilhoso, o trabalho permitiu que os estudantes se divertissem bastante, ao mesmo tempo em que desenvolviam a criatividade, apreendiam sobre filosofia política, técnicas de pintura e se apropriavam do significado da proposta pedagógica da escola.

    O dia da conclusão foi bastante marcante para todos, estudantes, familiares e professores, juntos passaram por uma manhã muito agradável pintando o muro do pátio central da escola e deixando ali ilustrado o enorme Leviatã como uma ameaça permanente durante a realização de nossas assembleias, fazendo-nos lembrar constantemente de que, ou resolveríamos nossos conflitos de forma coletiva, pacífica e dialógica naquela grande roda, ou, caso contrário, teríamos nossa liberdade devorada por este monstro que nos obrigaria a aceitar nossa incapacidade humana de conviver em harmonia.

     

    Leia mais sobre o assunto:

    A Assembleia como instrumento pedagógico para o exercício da Democracia

    http://www.portaldoeducador.org/educadores/detalhe/denis-plapler/a-assembleia-como-instrumento-pedagogico-para-o-exercicio-da-democracia

     

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