Educadores

Denis Plapler

Denis Plapler

Atuou como consultor da UNESCO para o Ministério da Educação para iniciativa de fomento a política pública de Inovação e Criatividade na Educação Básica. Mestre em Filosofia da Educação pela Faculdade de Educação da USP. Cientista Social pela PUC - SP.  Criador do Portal do Educador, foi membro da equipe de coordenação da CONANE, membro da equipe de fomento ao III Manifesto pela Educação,  da rede Românticos Conspiradores e um dos membros fundadores da Rede Nacional de Educação Democrática. Participou da Comissão de Difusão da Jornada de Educação Centrada na Pessoa, em Barcelona.  Como educador atuou com EJA, onde encontrou adultos que desejavam resgatar a experiência escolar que lhes foi negada na infância, atuou com os meninos aprisionados na Fundação Casa pelos maiores infratores e, por mais de dez anos, acompanhou crianças em assembleias, elaborando suas regras e resolvendo seus conflitos, assim como aprendendo através de projetos desenvolvidos a partir de seus interesses, de forma não seriada,  no Colégio Viver.

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    MAI

    2017

    Os retrocessos de uma Base Nacional Comum Curricular

    por Denis Plapler em 10/05/2017

    Colégio Viver - Cotia, SP. Saudade...

    Nos últimos anos acompanhamos o andamento do projeto de construção de uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o Brasil. O Ministério da Educação (MEC) em conjunto com pesquisadores, professores, representantes de associações como a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), dentre outras organizações da sociedade civil, vêm se reunindo periodicamente para efetivar a iniciativa.

    Este movimento por um currículo comum, para todas as escolas do país, procura definir os conteúdos mínimos que todos os estudantes precisariam aprender. Mas será que isto é  possível? Será que isto é realmente necessário? Pior, o projeto implica em criar uma relação de conteúdos e saberes que devem ser absorvidos pelos estudantes a cada ano da educação básica. Encontramos ai diversos equívocos. De qual concepção de vida e de educação partirmos para afirmar que todos nós, independente de nossas diferenças e interesses pessoais, precisamos aprender necessariamente as mesmas coisas? Todas as pessoas precisam realmente aprender as mesmas coisas em cada etapa da infância e da adolescência?

    O MEC explica que a proposta da BNCC oferece autonomia para que as diversas regiões do país possam ensinar saberes referentes a cada realidade local, entretanto este argumento se torna incoerente diante da quantidade de conteúdos já pré-determinados.

    Faz-se necessário pensar sobre as desastrosas consequências deste projeto político que, depois de implementado, passará inclusive a nortear os parâmetros das avaliações externas das escolas brasileiras. Sabemos como estas avaliações acarretam em cobranças sobre os estudantes e desviam completamente os objetivos fundamentais do processo educativo. Ou seja, nossos estudantes passarão a ser avaliados por uma série de conteúdos que precisam aprender obrigatoriamente a cada ano.

    Se já é um absurdo mantermos crianças divididas por idades e disciplinas, presas em salas e carteiras, me parece indispensável compreendermos que, até então, a legislação brasileira é uma das mais avançadas do mundo no campo da educação. Os Parâmetros Curriculares Nacionais, criados em 1998, não determinam conteúdos, mas habilidades e competências inerentes a cada campo do saber. Assim como as Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), reelaborada em 1996, com grande participação do genial Darcy Ribeiro, garante a autonomia pedagógica e administrativa da escola pública, além de permitir as diversas formas de organização da instituição escolar, que entretanto segue se organizando de forma conservadora por puro hábito, desconhecimento, ou medo de fazer diferente.

    No livro Liberdade para Aprender, o psicólogo americano Carl Rogers, especialista em educação, é bastante preciso e esclarecedor:

    "ensinar o que? Que é que, do nosso ponto de vista superior, uma outra pessoa precisa saber? Admiro-me de que, ainda hoje, nos justifiquemos com a presunção de que somos uns sábios, em relação ao futuro, ao passo que os jovens são uns tolos. Estamos realmente seguros a respeito do que eles deveriam saber? Aí, aparece o ridículo problema da extensão: que é que o curso abrangerá? Essa noção de extensão baseia-se na suposição de que o que é ensinado é aprendido; o que é apresentado é assimilado. Não sei de suposição tão obviamente errada. Para evidenciar sua falsidade, não é preciso pesquisar, basta conversar com uns poucos estudantes."

    Ou seja, o currículo é a vida, o conhecimento é infinito, impossível de ser delimitado. As inteligências são múltiplas e imensuráveis. Por mais inteligentes e esforçados que possamos ser, jamais poderemos aprender a totalidade dos conteúdos, habilidades e competências existentes no mundo. Pré-determinar conteúdos que devem obrigatoriamente ser aprendidos pelos estudantes é limitar suas possibilidades diante dos inconcebíveis caminhos que são capazes de percorrer em suas trajetórias pessoais.

    O poeta Khalil Gibran é mais uma referência que nos permite aprofundar a reflexão sobre o assunto. Escreveu ele:

    “Teus filhos não são teus filhos,

    São filhos e filhas da vida, anelando por si própria,

    Vem através de ti, mas não de ti. E embora estejam contigo, a ti não pertencem.

    Podes dar-lhes amor, mas não teus pensamentos, pois que eles tem seus pensamentos próprios.

    Podes abrigar seus corpos, mas não suas almas, pois suas almas residem na casa do amanhã, que não podes visitar se quer em sonhos.

    Podes esforçar-te por te parecer com eles, mas não procureis fazei-los semelhantes a ti. Pois a vida não recua, não se retarda no ontem.

    Tu és o arco do qual teus filhos, como flechas vivas são disparados...

    Que a tua inclinação, na mão do Arqueiro, seja para alegria.”

     

    Difícil ser mais preciso que o poeta sobre o papel de nós educadores, seja como professores, pais ou mães. Para qualificar a educação pública no Brasil não precisamos entupir as crianças de conteúdos obrigatórios, mas de professores melhor remunerados e com um número mais adequado de estudantes por educador. Mas isto é assunto para outro artigo.

    O Brasil precisa aprender a trabalhar com projeto.

    No link abaixo é possível conhecer um pouco sobre o Mapa da Rede de Inovação e Criatividade, organizações educativas que resistem em acreditar no ser humano, na democracia, na justiça social, na liberdade. 

     

    http://simec.mec.gov.br/educriativa/mapa_questionario.php

     

    Neste outro link abaixo você poderá conhecer um pouco sobre outras experiências, do Brasil, América Látina e Mundo, experiências que resistem como bolhas democráticas, bolhas que se somam, que se multiplicam, que estouram por ai, como bolhas de sabão, brilhantes e coloridas...

    http://www.portaldoeducador.org/bolhas-democraticas

     

     

     

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