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    JAN

    2018

    Por um outro Brasil

    por Denis Plapler em 26/01/2018

    Impossível acreditar que aqueles que comemoram a condenação de Lula enxerguem isto como o progresso da justiça no Brasil. Não consigo deixar de pensar que, ou não estão entendendo nada, ou estão muito mal intencionados. A esperança da primeira justificativa ainda me move a escrever.

    Não se trata de acreditar na inocência de Lula ou do PT, que certamente se entregou a lógica da propina, financiamento de campanha e troca de favores. Entretanto é necessário termos a consciência de que o PT não se corrompeu quando chegou ao poder, se corrompeu para chegar ao poder.  Compreender esta diferença é imprescindível para entendermos minimamente o cenário atual.

    Isto é aceitável? Há quem defenda que sim, uma vez que a era Lula bateu recordes nacionais no combate ao desemprego, a fome, a miséria, na conquista do aumento do poder de consumo do trabalhador e de crescimento econômico do país. Nosso PIB cresceu em média anual 4%, o dobro registrado de 1981 a 2002. Passamos do 12º para o 8º lugar no ranking das maiores economias do mundo. Foi também no governo Lula que milhares de estudantes da escolas públicas passaram a ter acesso a universidade. Durante as gestões Lula e Dilma o número de matrículas no ensino superior passou de 3,5 milhões em 2002 para mais de 7,1 milhões em 2014. Sem falar na quitação da dívida externa, questionada pelo aumento exorbitante de nossa dívida interna. Ainda assim, Lula deixou o cargo de presidente com 83% de aprovação, algo nunca visto.

    A condenação de Lula às vésperas das eleições presidenciais, como líder absoluto de todas as pesquisas, representa claramente uma estratégia de manipulação política para perpetuação de um projeto de governo imposto sem validação das urnas. Enquanto isto, muitos outros processos vão sendo arquivados para que outros tantos criminosos se perpetuem no poder. 

    Em rede nacional escutamos o áudio de Romero Juca com Sérgio Machado, articulando simplesmente um golpe de estado: “Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [...] um grande acordo nacional, com supremo e tudo”. Dito e feito! Mais claro que isto impossível! Um crime escancarado! Entretanto, enquanto Lula é condenado, Juca é o atual líder do governo no Senado! Como se não bastasse, após as delações da JBS de que o atual “presidente” Michel Temer teria comprado com uma mesada o silêncio de Eduardo Cunha na prisão, o TSE, com Gilmar Mendes, contrariando o próprio Ministério Público, o absolveu. Nem mesmo um filme com Rocha Lourdes recebendo uma mala de R$ 500 mil e um áudio com Temer dizendo “tem que manter isso ai, viu?” foram suficientes para incriminá-los.

    Os exemplos não param por ai. Aécio Neves, último candidato do PSDB a presidência, segue no Senado mesmo com o vazamento de seu pedido de R$ 2 milhões de reais ao empresário Joesley, e uma ameaça de homicídio vazada com áudio, “Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação”. Espantoso? Um dia depois da condenação de Lula a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu arquivamento do inquérito aberto contra o senador José Serra (PSDB-SP) acusado de irregularidades em sua campanha a presidência da república, em 2010. Enquanto isto aguardamos também autorização do STJ para abrir inquérito sobre o processo contra Geraldo Alckmin, atual governador de São Paulo e candidato do PSDB as eleições presidenciais deste ano, citado por delatores da Odebrecht como beneficiário de caixa dois de R$ 10,3 milhões para abastecer suas campanhas de 2010 e 2014.

    Um país onde a luta por poder supera a luta por justiça demonstra que suas instituições funcionam a favor de interesses pessoais e partidários (neste caso em benefício de PSDB e PMDB) e não a favor do bem comum, do interesse público e coletivo. Não podemos ignorar o perigo de vivermos desta forma. A imoralidade e a antiética de nossas instituições destroem a credibilidade do Brasil, mataram uma democracia recém-nascida. A tendência deste projeto de governo imposto contra vontade da maioria é aprofundar as desigualdades sociais e consequentemente a violência, que se volta contra todos nós, inclusive contra esta própria elite, dona do golpe.

    Fico imaginando se estivéssemos vivendo justamente a situação contrária, com o PT no poder, julgando e prendendo apenas os crimes dos partidos de oposição, arquivando, absolvendo e mantendo no poder suas próprias lideranças. Nesta situação o que diriam aqueles que batiam panelas e silenciaram no governo Temer, que não tardam em comparar o Brasil a Venezuela, mas não enxergam que o que há de mais semelhante é o comportamento de suas elites, antiéticas, preconceituosas e golpistas. Nestas circunstâncias imaginem o que seria capaz de fazer a criminosa Rede Globo?

    E o discurso da crise? Para onde foi? No pouco tempo do atual governo Temer assistimos um acidente aéreo extremamente suspeito impedir uma delação histórica, testemunhamos a desvalorização do salário mínimo, o congelamento dos investimentos sociais, inflação, retirada de direitos historicamente conquistados, mas nada disso foi suficiente para que aqueles que acusavam um cenário de crise abandonassem o silencio em que mergulharam após o golpe.

    Não me parece coincidência que tenham retirado do governo a presidente que deu direitos trabalhistas para empregadas domésticas, em um país de raízes escravocratas, para empossar um governo machista com um presidente que acabou com direitos trabalhistas conquistados historicamente ao longo de décadas.

    Não sou petista, nunca fui filiado a nenhum partido, mas como brasileiro estou profundamente preocupado com o país que estamos oferecendo aos nossos filhos. Gostaria muito de ver afastados do governo todos aqueles que se mostraram desonestos na administração da verba pública. Como escreveu Hannah Arendt “Devemos conceber instituições e políticas que afirmem e preservem o caráter não escolhido da coabitação plural e sem fim”. Penso que só será possível superarmos estas relações de ódio presentes na bipolarização em que nos encontramos se houver de fato vontade política para superarmos as desigualdades que fazem do Brasil um dos países de maior concentração de renda do mundo.

     

     

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Denis Plapler

Denis Plapler

Formado como Sociólogo pela PUC-SP e Mestre em Filosofia da Educação pela USP.