Educadores

  • 09

    MAI

    2015

    A antipedagogia da abundância

    por Edson Grandisoli em 09/05/2015

    A chuva dos últimos meses parece que lavou da memória de muitos governantes, da população e da mídia a (ainda) gravíssima situação de muitos reservatórios espalhados pelo Brasil e, mais importante, a gravíssima situação daqueles que (ainda) se veem sem água muitos dias por semana.

    O esforço coletivo é pautado pelo esforço individual, e formar indivíduos solidários que pensam e agem de maneira a garantir e cultivar o bem coletivo é um dos papeis da escola e, claro, de toda “sociedade educadora”.

    Pensando especificamente na escola, na comunidade escolar e no seu papel nesse processo de (trans)formação, desenvolver aulas, projetos e atividades sobre os diferentes desafios de cunho socioambiental deve ser garantido (inclusive por Lei – Lei 9.795 de 1999) por meio de um trabalho continuado, transversal e interdisciplinar de Educação Ambiental que se inicia dentro do espaço escolar e deve se projetar para fora dele.

    Independente de estar associada a uma Lei ou não, a Educação Ambiental trata das bases de nossa vida e sobrevivência em sociedade, de como temos nos relacionado com a natureza e quais as alternativas que devemos buscar para garantir justiça e qualidade de vida para todos e todas em uma sociedade mais igualitária e sustentável.

    Em seu livro “Nós e a Natureza” (2008), Emilio Moran destaca

    “... deve existir uma parceria de confiança entre as comunidades humanas,

    ligadas por pactos que favoreçam a vida..., que favoreçam a dignidade

    dos membros da comunidade e a satisfação por se cuidarem

    mutuamente e da natureza como bem maior”

    As palavras de Moran me tocam profundamente e vão ao encontro de tudo que considero sagrado e fundamental como educador e biólogo. A Educação Ambiental carrega, dessa forma, a essência da manutenção de vida e de tudo aquilo que nos nutre física, mental e espiritualmente.

    Muito se caminhou nas últimas décadas, e como sempre afirma marina Silva, conquistamos um novo nível de “consciência” dos desafios que enfrentamos e suas consequências. Apesar do copo estar mais cheio, ele ainda está um tanto vazio.

    Tenho notado que o tema socioambiental na escola tem perdido espaço para outros mais contemporâneos como o da tecnologia educacional, por exemplo. Nada contra a tecnologia. Sou fã e, sem ela, não estaria escrevendo esse texto e enviando em 3 segundos para meus editores. Sinto, entretanto, que a ponte entre a tecnologia na escola e as questões socioambientais não foi feita. Falta unir o útil (essencial) ao agradável (lúdico), por assim dizer, e garantir a transformação tão necessária.

    Apesar desse esvaziamento, a crise aguça os sentidos, e nunca se falou tanto de água nas escolas como agora, ou seja, como se ela fosse tema importante e merecedor de atenção somente em épocas de escassez.

    Essa é a antipedagogia da abundância. Só consideramos o que é essencial na sua falta e, via de regra, quando nos sentimos impotentes para agir. Na sua disponibilidade (infinita), não nos preocupamos em falar ou pensar sobre ela  de forma  educativa, responsável e solidária.

    Que situação estaríamos se a água fosse tema de trabalhos verdadeiramente competentes e transformadores na escola e em outros espaços educadores? Infelizmente, essa pergunta não pode ser respondida no momento.

    Após a crise da água – que ainda ficará conosco por alguns anos – outras virão. Pensando nas megacidades, faço uma aposta que, daqui a poucos anos, o tema dos resíduos estará bombando nas escolas, pois estamos rapidamente ficando sem espaços adequados para descartá-los.

    Espero que esteja enganado. Enquanto isso, não seria legal já ir trabalhando com esse tema na escola por meio de uma discussão sobre consumo? Ou vamos esperar também pelo pior cenário?

    As mudanças via Educação são muito difíceis de serem mensuradas, mas são as que permanecem efetivamente por toda nossa vida. Sendo assim, mãos à obra. Dentro ou fora da escola, somos todos educadores e aprendizes de um mundo melhor.

     

     

    MORAN, E. F. Nós e a natureza: uma introdução às relações homem-ambiente. São Paulo: Editora SENAC: São Paulo, 2008.

     

     

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Edson Grandisoli

Edson Grandisoli

Idealizador da Rede de Escolas Sustentáveis (RESUS).Biólogo, Ecólogo e professor das redes pública e particular de ensino, tem dedicado sua vida à Educação em suas mais diferentes vertentes. Atualmente, trabalha como consultor de escolas públicas e particulares em Educação e Sustentabilidade, atua como formador de professores e diretor educacional da Escola da Amazônia, é associado da Reconectta e doutorando em Educação e Sustentabilidade pelo Programa de Ciência Ambiental da USP (PROCAM/USP).