Educadores

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    DEZ

    2015

    A esperança vem das ruas

    por Gabriela Guth em 08/12/2015

    Não consigo evitar de relacionar a luta dos estudantes, que vão às ruas protestar contra a reorganização das escolas,  com a luta que a democracia brasileira enfrenta, diariamente, para que saiam do papel palavras como “cidadania”, “participação popular” e “prevalência dos direitos humanos”. 

    Nossa democracia, ainda no processo de amadurecimento, foi presenteada em 1988 com uma Constituição “Cidadã”, nas palavras de Ulysses Guimarães, em virtude da ampla participação popular durante sua elaboração, além do conteúdo plenamente voltado para concretização dos direitos sociais.

    Apesar das diversas conquistas consagradas no texto constitucional, surge um contrassenso entre a forma violenta e degradante que a polícia militar atua e a crescente participação popular, em protestos pacíficos, amparada pelo direito à liberdade de expressão e direito à reunião.

    Diante de uma “decisão vertical” de reorganizar as escolas da rede estadual de ensino em São Paulo, sem antes abrir espaço para dialogar com a sociedade civil e com a população, os estudantes resolveram fazer valer seus direitos.

    Ocupando um espaço que é seu por essência, as escolas, os estudantes trouxeram à tona a situação de sucateamento que o sistema público de educação tem enfrentado. Como muitos afirmam, deram uma verdadeira “aula de cidadania” para a sociedade, se organizando politicamente e cuidando das tarefas para preservar o espaço público das escolas. 

    A gestão democrática do ensino público, consagrada no inciso VI do artigo 206 da Constituição Federal, é um dos princípios basilares do sistema de ensino. A participação efetiva de estudantes, pais, professores e funcionários, nas diversas esferas das políticas públicas educacionais (planejamento, implementação e avaliação) é indispensável para a construção de projetos pedagógicos essencialmente democráticos.

    Nesse sentido, vejo os estudantes irem as ruas como sinal de amadurecimento de uma consciência política e do papel que sua participação popular desempenha no caminho para uma sociedade mais justa e igualitária. Nossa democracia, assim como estes jovens, encontra-se em fase de amadurecimento. Exigindo desesperadamente: “Não me tomem como palavras ao vento, não menosprezem meu processo de formação”. O mesmo manifesta os estudantes.

    Rubem Alves compara a política à arte da jardinagem. Onde o político seria aquele que, por vocação, chamado de amor por um “fazer”, se dedicaria a cuidar do espaço público, do grande jardim. O jardineiro por vocação é movido pelo desejo de cuidar do jardim de todos, ainda que, para isso, tenha de abrir mão de cuidar de seu jardim privado.

    A política brasileira precisa, mais do nunca, de novos jardineiros, como estes estudantes que foram às ruas, ocupar os espaços públicos e clamar pela gestão democrática do ensino. Que eles floresçam e ocupem o jardim de todos, assim como a esperança que nasceu em mim ao ver sua capacidade de luta.

     

     

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Gabriela Guth

Gabriela Guth

Advogada formada pela PUC - SP e pedagoga em formação. Atuou no Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, no desenvolvimento de políticas e ações sociais voltadas para garantia dos direitos humanos. Com experiência no trabalho em defesa do direito a moradia, na assistência a adolescentes em situação de extrema vulnerabilidade social e no monitoramento de ações judiciais referentes aos direitos territoriais de comunidades indígenas e quilombolas no Brasil. Atualmente trabalha no Programa Criança e Natureza.