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    2016

    Luta como substantivo feminino: precisamos discutir gênero na escola

    por Gabriela Guth em 25/11/2016

    O dia 8 de Março é celebrado internacionalmente como dia da mulher, assim como Dia da Não-Violência contra a Mulher, no dia 25 de novembro. São datas para recordar os avanços do movimento social de luta pela conquista de direitos das mulheres, pelo enfrentamento das desigualdades e violências de gênero. Em pleno século XXI, marcada profundamente por um sistema de domínio patriarcal, a sociedade brasileira se esquiva de dialogar no espaço escolar sobre questões de gênero e hesita em conferir às mulheres o direito a decisões sobre seu próprio corpo.

    Os dados exibidos no Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil são assustadores e apontam que entre 1980 e 2013 morreu um total de 106.093 mulheres, vítimas de homicídio. Ocorreu um crescimento em ritmo acelerado ao longo deste período, com aumento de 252%, o número de vítimas passou de 1.353 mulheres em 1980, para 4.762 no ano de 2013 o que significa 13 homicídios femininos diários, colocando o Brasil no 5º lugar no ranking de países nesse tipo de crime. O culpado pela maioria dessas mortes é o machismo impregnado nas relações sociais e institucionais.  

    Como se estas informações já não fossem suficientemente preocupantes, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil, segundo estatísticas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, isso considerando somente os boletins de ocorrência registrados, ressaltando que chegam ao conhecimento da polícia apenas 10% dos casos de estupro, dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no Estudo no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde.  

    Diante de um cenário como este é imprescindível que a escola, enquanto um espaço de construção de conhecimento e diálogo assuma o papel de promover uma reflexão crítica sobre violência e descontrução de estereótipos de gênero. 

    A instituição educativa não pode ser espaço de reprodução de preconceitos e privilégios de um sexo sobre o outro, perpetuando modelos tradicionais dos papéis exercidos pelos gêneros. Pelo contrário, deve ser local de se discutir sobre as estruturas sociais de domínio entre homens e mulheres. A questão da violência não pode ser vista apenas sob uma ótica punitiva, é necessário que atuemos na prevenção e na conscientização.

    O ENEM 2015 utilizou como mote de uma questão trecho do livro O segundo sexo (1980) de Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher, torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário sobre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

    Simone de Beauvoir levantou inúmeras polêmicas e questionou a concepção de mulher, o sexismo, a liberdade de escolha e a política feminista. Pensadora extremamente estudada dentro do movimento feminista e símbolo de resistência da desigualdade enfrentada pela mulher.

    Outra inspiração para a luta feminista e que merece ser lembrada hoje é Rosa Luxemburgo, conhecida como Rosa Vermelha. O humanismo revolucionário de Rosa ansiava “Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”. Sua militância na política por uma sociedade menos desigual para a classe proletária, pelo direito ao voto das mulheres e por uma autoeducação popular para emancipação do sujeito são algumas das idéias que defendeu com sua própria vida. Vítima de assassinato foi torturada antes de morrer e levou um tiro na cabeça, tendo seu corpo jogado no canal.

    O histórico de atuação das mulheres pelo avanço na conquista de direitos é marcado por violência e sofrimento, mas, sobretudo, uma luta incansável. Hoje, dia internacional da mulher nos inspiremos em grandes mulheres que contribuíram para a diminuição da desigualdade de gênero e não nos calemos diante da mordaça que sagazmente quer excluir das escolas a reflexão sobre questões de gênero.

     

     

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    Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher é um serviço gratuito de atendimento, 24 horas por dia, para que se possam receber orientações e denunciar casos de violência de gênero, seja ela física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral. 

     

    Referências:

     

    http://www.forumseguranca.org.br/produtos/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica/9o-anuario-brasileiro-de-seguranca-publica

    http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/140327_notatecnicadiest11.pdf

    http://agenciapatriciagalvao.org.br/wp-content/uploads/2015/11/MapaViolencia_2015_homicidiodemulheres.pdf

    http://agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/dados-e-pesquisas-violencia/dados-e-fatos-sobre-violencia-contra-as-mulheres/

    http://www.compromissoeatitude.org.br/

     

     

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Gabriela Guth

Gabriela Guth

Advogada formada pela PUC - SP e pedagoga em formação. Atuou no Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, no desenvolvimento de políticas e ações sociais voltadas para garantia dos direitos humanos. Com experiência no trabalho em defesa do direito a moradia, na assistência a adolescentes em situação de extrema vulnerabilidade social e no monitoramento de ações judiciais referentes aos direitos territoriais de comunidades indígenas e quilombolas no Brasil. Atualmente trabalha no Programa Criança e Natureza.