Educadores

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    DEZ

    2016

    O currículo como campo de disputa: Os professores, os estudantes e os interesses de classe (social)

    por Gabriela Guth em 15/12/2016

    A crescente disputa pelo conteúdo do currículo escolar e as discussões em torno da criação de uma Base Nacional Comum Curricular com o intuito de orientar a formulação dos projetos político pedagógicos das escolas, partindo de temáticas obrigatórias e  facultativas de serem trabalhadas no processo de aprendizagem têm gerado polêmica e preocupação entre os pensadores da educação.

    Em um mundo globalizado a complexidade que envolve os fatores no momento de escolha da proposta curricular deve ser analisada sob a óptica da função social do ensino e de uma visão reflexiva sobre o papel social da educação e do currículo para a formação de cidadãos que sejam capazes de intervir de forma consciente e crítica na realidade em que habitam. O estudioso espanhol Antoni Zabala, formado em Filosofia e Ciências da Educação pela Universidade de Barcelona na Espanha foi um dos responsáveis pelo movimento de transformação do sistema de ensino após a ditatura de Franco. Disserta a respeito das decisões sobre a organização dos conteúdos do currículo, a metodologia didática e a formação de professores como instrumentos para alcançar uma finalidade característica e consciente de intervenção na realidade ou sua manutenção. 

    Em seu texto “Enfoque Globalizador e Pensamento Complexo- Uma proposta para o currículo escolar” Zabala busca conscientizar o leitor sobre a dimensão ideológica que existe em toda atividade educativa, por mais específica que seja, e ainda que pareça ser um ensino de conteúdos neutros, deve-se recordar que estas opções têm a intencionalidade de veicular uma determinada visão do ser humano e promovem o que se espera dos comportamentos interpessoais.

    Nesse sentido, o educador pondera que a situação é ainda mais grave porque os próprios professores não têm consciência da relação existente entre a seleção de conteúdos, a forma de ensinar e os modelos e ideias de sociedade e de pessoa. Apresenta uma perspectiva histórica de como as decisões sobre as finalidades do ensino e as estratégias para alcançá-la sempre foram afastadas dos docentes, se aproximando dos interesses das classes dominantes e grupos hegemônicos que fazem a organização dos conteúdos escolares.

    Nessa perspectiva, Zabala analisa o reflexo dos modelos sociais vigentes, dominados pelas classes hegemônicas, e sua consequente influência no papel dos sistemas educativos adotados. Assim, sob uma ótica de conservação dos sistemas econômicos, políticos e corporativos, a educação e os currículos escolares são utilizados como forma de reprodução da ordem social estabelecida e de manutenção desse sistema.

    Acredito que a ideia que Zabala apresenta é fundamental para compreendermos a lógica de organização das escolas, do quê e de como se trabalha dentro da sala de aula atualmente, com uma crescente subordinação do espaço educativo ao mercado de trabalho, traduzido na importância significativo que o vestibular e a especialização têm alcançado na sociedade.

    Se partirmos de uma reflexão-critica de que a escolha por trás do conteúdo e da metodologia empregada nas práticas educativas têm sempre uma opção política, no sentido de embasar um projeto de cidadão que se quer desenvolver, seja ele emancipatório ou de conservação do status quo, podemos ser francos uns com os outros sobre a nossa própria opção e escolha de qual a alternativa que vamos assumir para a continuidade da vida em sociedade. As perspectivas futuras para o currículo escolar, a exemplo da Base Nacional Comum Curricular, precisam ser analisadas com cautela, de modo a não negligenciar a função social da educação.

     

     

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Gabriela Guth

Gabriela Guth

Advogada formada pela PUC - SP e pedagoga em formação. Atuou no Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, no desenvolvimento de políticas e ações sociais voltadas para garantia dos direitos humanos. Com experiência no trabalho em defesa do direito a moradia, na assistência a adolescentes em situação de extrema vulnerabilidade social e no monitoramento de ações judiciais referentes aos direitos territoriais de comunidades indígenas e quilombolas no Brasil. Atualmente trabalha no Programa Criança e Natureza.