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    JUL

    2013

    Ouvir as Ruas

    por Helena Singer em 31/07/2013

    As manifestações que tomaram conta do país nos últimos dias têm aglutinado grupos e demandas das mais diversas, mas certamente há pontos em comum importantes para que elas tenham se espalhado com tamanha força a ponto de conquistar a redução da tarifa de ônibus nas diversas cidades e o compromisso da Presidenta com uma agenda de debates e mudanças. Já que agora os governantes estão anunciando que vão ouvir as ruas, é melhor atentar para estes pontos comuns ao invés de tentar desqualificar o interlocutor alegando a ausência de lideranças.

    O primeiro deles é que de uma atitude de passividade e alienação que tem sido característica da população brasileira por muitas décadas, estamos agora diante de uma clara demanda por participação. Uma demanda tão explícita que está superando inclusive a nossa paixão pelo futebol – a população parece dizer que até preferiria que a Copa não fosse aqui, já que não há transparência nos processos decisórios relativos aos investimentos feitos. Mas, o estopim da crise, o aumento das passagens, já trazia a mensagem: não importam argumentos de que o reajuste seria inferior à inflação, o que importa é que a decisão foi tomada sem que tenham sido ouvidos os principais interessados – ou seja, os milhões de usuários do sistema.

    Deste aspecto já deriva o segundo ponto comum: o conflito claro e contundente entre democracia direta e democracia representativa. Todos os partidos e representantes eleitos pelo povo – prefeitos, governadores, Presidenta, vereadores, deputados, senadores, bem como suas equipes, foram acuados. Tiveram que sair pelas portas dos fundos, escapar de agressões, ficaram atordoados, reagiram de forma equivocada dando declarações que supostamente agradariam uma maioria conservadora ou simplesmente se calaram por tempo demais. A mensagem aqui também é clara: passadas mais de duas décadas de retomada da democracia, a população já não se sente mais representada pelos que são eleitos em processos que dependem de vultosas “doações” e alianças partidárias que incluem os posicionamentos mais antagônicos para garantir a continuidade do poder nas mãos dos mesmos grupos.

    O terceiro aspecto que unifica as manifestações refere-se a sua estratégia de organização. Aqui entra a força avassaladora das redes sociais que pegou a todos, sobretudo os mais velhos, de surpresa. As ocupações são chamadas por diversos grupos para pontos comuns ou pontos diversificados e se espalham de forma viral pelas redes. Ao se encontrarem nos pontos indicados, a comunicação continua pelo celular já que não há carros de som. A informação para os que não estão no encontro continua de forma descentralizada: as pessoas filmam, fotografam, comentam e enviam para as redes sociais. E para as redes de televisão que perceberam a riqueza deste material e passaram a estimular que seus telespectadores lhes enviassem os registros. Ou seja, as manifestações estão também mandando um recado sobre o poder das novas tecnologias para o acesso, a criação, modificação e distribuição do conhecimento.

    Por fim e não menos importante é preciso perceber a forma escolhida para a manifestação: a ocupação das ruas. Em São Paulo, são tão espalhadas as manifestações que dá a impressão de que a cidade toda foi tomada. Neste aspecto, a conexão com o ponto inicial de todo este processo é fundamental: a questão do transporte urbano. As manifestações reivindicam o direito à ocupação da cidade. No início, quando a mídia e os governantes ainda achavam que a “maioria pacífica” não iria concordar com esta bagunça – ruas fechadas, tráfego interrompido etc. – mandaram as forças policiais com toda sua truculência contra os supostos “baderneiros”. Mas, depois, ficou claro que a maioria concordava com esta estratégia. A ocupação das ruas coloca em xeque o fato de que o direito à circulação é na realidade um privilégio nas grandes cidades do Brasil hoje. Em São Paulo, por exemplo, apenas quem mora do centro expandido tem direito a se deslocar cotidianamente entre casa e trabalho com condições mínimas de dignidade. Os que moram na periferia, para ir ao trabalho no centro expandido, são expostos cotidianamente a condições degradantes; mesmo que recebam vale transporte, ele não parece compensar a humilhação. E nem estes nem a maior parte da população, que não recebe o vale transporte, tem o direito de usufruir de centros culturais, parques, bibliotecas e cinemas. Em relação aos direitos de educação e saúde, também bastante citados nas manifestações, os hospitais e escolas do centro tem recursos consideravelmente melhores que os da periferia.

    Enfim, se os governantes nos seus diversos poderes de fato ouvirem as ruas passarão agora a priorizar agendas referentes a criação ou fortalecimento de espaços de participação popular na formulação das políticas públicas, transparência na gestão administrativa, reforma política, acesso e distribuição das tecnologias da informação e mobilidade urbana. Os que evitarem esta agenda correm sério risco de precisarem continuar escapando pelos fundos.

    Helena Singer escreve para o Portal Aprendiz http://aprendiz.uol.com.br

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Helena Singer

Helena Singer

Foi Diretora Nacional de Ações Estratégicas e Inovação do SESC. Como Assessora Especial no MEC, presidiu a iniciativa por Inovação e Criatividade na Educação Básica. Atuou como Diretora pedagógica da Cidade Escola Aprendiz e foi membro fundadora do Núcleo de Psicopatologia, Políticas Públicas de Saúde Mental e Ações Comunicativas em Saúde Pública da Universidade de São Paulo (NUPSI-USP). Doutora em Sociologia pela USP, com pós-doutorado em Educação pela Unicamp. É autora de livros e artigos publicados no Brasil e no exterior sobre educação e direitos humanos.