Educadores

José Pacheco

José Pacheco

Fundador da Escola da Ponte, em Portugal. Trabalhou em conjunto com o MEC para iniciativa de Inovação e Criatividade na Educação Básica do Brasil. Colaborador do Projeto Âncora em Cotia - SP, orienta o projeto de mais de 200 escolas pelo Brasil. Especialista em Leitura e Escrita, é mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. É autor de vários livros e artigos sobre educação, destaque para o Dicionário de Valores, publicado recentemente.

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    ABR

    2018

    CIEPs - Os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) são parte de um projeto educacional concebido por Darcy Ribeiro

    por José Pacheco em 20/04/2018

    Os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) são parte de um projeto educacional concebido por Darcy Ribeiro. Tinha como objetivo oferecer ensino público de qualidade em período integral. Darcy considerava-os "uma revolução na educação pública do País". Num vídeo com data próxima do seu falecimento, ele diz-nos que falhou em tudo aquilo que tentou e que seria tarefa dos vindouros concluir a obra inacabada. Se o saudoso Darcy nos deixou esse legado, compete-nos completar a sua obra. Se um câncer prematuramente o levou do nosso convívio, façamos juz à sua memória, devolvamos aos CIEPs a sua vocação.

    Esses edifícios escolares deveriam funcionar em tempo integral, num horário entre as oito e as dezessete horas, oferecendo oportunidades de aprendizagem do currículo regular, bem como atividades culturais e recreativas, estudos dirigidos e educação física. No segundo governo de Brizola, alguns CIEPs foram equipados com piscinas. E forneciam refeições completas, além de atendimento médico e odontológico. Visava-se tirar crianças carentes das ruas, oferecendo-lhes "pais sociais".

    Sucessivos desgovernos não deram continuidade ao projeto, desvirtuando a sua principal característica: a educação integral. Os CIEPs tornaram-se escolas comuns, com o ensino em turnos. Alguns, parcialmente concluídos, foram abandonados. Para melhor compreensão do projeto e da incúria do poder público, sugiro a leitura dos textos Cieps: a educação como prioridade e O livro dos Cieps.

    Na década de 1990, os jornais do Rio registraram uma saudável polémica entre Darcy Ribeiro e Lauro de Oliveira Lima. Apesar de reconhecer a genialidade do projeto arquitetônico concebido por  Niemeyer, o mestre Lauro aconselhava que o projeto do Darcy não se limitasse a um exercício de pedagogia predial. Ao sonho do visionário Darcy. Lauro acrescentava uma proposta teórica esboçada no livro Escola de Comunidade, publicado na década de 1960. Provavelmente, terá sido a primeira obra publicada no mundo sobre novas construções sociais de aprendizagem. Somente trinta anos depois, os anglo-saxônicos e os catalães conceberiam as suas “comunidades de aprendizagem”. À luz da contribuição teórica do Lauro, atualizemos a proposta do Darcy. Façamo-lo em concreto, no estado do Rio, que a viu nascer.

    O Projeto Alto Independência de Petrópolis teve início em meados de 2015. Em 2016 foi reconhecido pelo MEC como um dos projetos brasileiros mais inovadores, rejeitou o recurso a paliativos, com que o poder público continua a enfeitar um modelo educacional obsoleto, que nega a muitos brasileiros o direito à educação. Recentemente, foi convidado para representar o Brasil num importante evento internacional e agregou mais um espaço na comunidade.

    É provável que, em 2018, o projeto integre um novo espaço: um CIEP. E nesse CIEP poderá nascer um protótipo de comunidade de aprendizagem, uma nova construção social de aprendizagem. Será fruto do esforço de educadores, que assumiram um compromisso ético com a profissão, mas também por vontade da comunidade, por ação do Ministério Público e o apoio de parcerias, que reconhecem o seu potencial.

    Em conformidade com um projeto efetivamente político e pedagógico, o sonho do Darcy e do Lauro tomará forma, assegurando educação integral em tempo integral, sem contra turno de desculpabilização curricular, provando a oculta vitalidade da educação brasileira.

     

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