Educadores

  • 12

    JUL

    2015

    Autonomia por José Pacheco

    por José Pacheco em 12/07/2015

     

    "A infância tem valor, não tanto como período de adestramento, mas como período em que se pode experimentar livremente aquela maravilhosa sensação de sermos nós próprios, que predispõe a aceitar melhor as inevitáveis limitações da vida adulta."

    (Biasutti)

    Publiquei dois dicionários: um deles, sobre absurdos da educação; outro, sobre utopias. Como soi dizer-se, não há dois sem três: farei um dicionário de valores. E, se todos os dicionários obedecem à ordem alfabética, comecemos pela letra A... de autonomia.

    Há quase quarenta anos, partimos para a reinvenção da Escola da Ponte. Não partimos de problemas, mas daquilo que nós éramos para aquilo que queríamos ser, porque nós éramos o problema... Bem cedo compreendemos que, se reelaborássemos a nossa cultura pessoal e profissional, também estaria em nós a solução, porque um professor não ensina aquilo que diz; o professor transmite aquilo que é.

    Nos primórdios do projeto, realizamos um exercício simples: escrevemos num papel os dez valores que orientavam as nossas vidas. Três valores surgiam em todos os papéis: liberdade, solidariedade, responsabilidade. Porém, quando quisemos operacionalizar o valor “liberdade”, deparámo-nos com um obstáculo: não existe uma ciência da liberdade. Ela poderia ser ensinada, mas esse ensino não passaria por uma didáctica específica, mas por uma gramática que explicasse as transformações. O conceito que encontramos desenvolvido em termos ditos teóricos foi o de autonomia, conceito de vasto epectro semântico e com muitos apêndices: autoestima, autoconfiança, autocontrole, autodisciplina...

    Autonomia não é um conceito isolado, nem se define em referência ao seu oposto define-se na contraditória complementaridade com a dependência, no quadro de uma relação social aberta. O conceito de singularidade é-lhe próximo, mas situa-se aquém da autonomia, porque o reconhecimento da singularidade consiste na aceitação das diferenças inter-individuais, enquanto

    autonomia é o primeiro elemento de compreensão do significado de "sujeito" como complexo individual. Ou, como diria Morin, a componente egocêntrica deste complexo é englobada numa subjetividade comunitária mais larga., porque ser sujeito é ser autónomo, sendo ao mesmo tempo dependente. Desde o início, prevaleceu uma matriz axiologia bem definida no projeto da Ponte. Tudo aquilo que fizemos decorreu de valores. Não se pense que tais valores foram mero ornamento de um PPP. Eles foram assumidos integral e praxeologicamente pela equipe. E levados às últimas consequências, nas mudanças, que, gradual e responsavelmente, introduzimos nas práticas, até à celebração do primeiro contrato de autonomia de que há memória no mundo da educação.

    A autonomia exprime-se como produto da relação. Não existe autonomia no isolamento, mas relação EU-TU, no sentido que Buber lhe outorga. É, essencialmente, com os pais e os professores que a criança encontra os limites de um controlo que lhe permite progredir numa autonomia, que é liberdade de experiência e de expressão dentro de um sistema de relações e de trocas sociais. Conclusão: a autonomia convive com a solidariedade. Certo dia, acolhemos na Ponte um jovem jogado fora de outra escola. Na primeira ida ao banheiro, o jovem urinou no cesto dos papéis. Na reunião da Assembleia de Escola, um aluno pediu a palavra e disse:

    Eu faço parte da Responsabilidade do Recreio Bom, que também cuida dos banheiros. Quero dizer-vos que, nesta semana, um de nós urinou no cesto dos papéis. E quero pedir a ajuda de todos, para ajudarmos um de nós a não voltar a fazer isso. 

     

    Texto do livro Dicionário de Valores

     

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José Pacheco

José Pacheco

Fundador da Escola da Ponte, em Portugal. Trabalhou em conjunto com o MEC para iniciativa de Inovação e Criatividade na Educação Básica do Brasil. Colaborador do Projeto Âncora em Cotia - SP, orienta o projeto de mais de 200 escolas pelo Brasil. Especialista em Leitura e Escrita, é mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. É autor de vários livros e artigos sobre educação, destaque para o Dicionário de Valores, publicado recentemente.