Educadores

  • 07

    JUN

    2016

    Carta a Alessandro Cerchiai

    por José Pacheco em 07/06/2016

    São Paulo, abril de 2013.

    Amigo, Alessandro,

    Amigo Alessandro, Mais de um século não foi tempo suficiente para dar corpo aos teus ideais, que eram os de Zola(1) , de Louise Michel(2), os princípios de Francisco Ferrer(3) . Crê, caro Alessandro, que, nesta segunda década do século XXI, o teu mestre catalão já não acabaria vilmente executado no morro de Montjuic, mas talvez os seus desígnios fossem frustrados por sutis modos de impedir que a humanização da escola aconteça. 

    A Escola Libertária Germinal, que fundaste em 1902, na cidade de São Paulo, pouco mais durou do que a de Tolstói(4), que o czar da Rússia mandou fechar. O sonho de uma escola elementar racionalista, para ambos os sexos, ingloriamente foi encerrada em 1904. Apesar de veres malogrado o teu intento, foste o precursor dos precursores da Escola Nova. Mas, hoje, apenas emprestas o teu nome a uma rua de São Paulo, cujos moradores nem sequer sabem quem foste, ou o que fizeste.

    Depois de um breve inquérito de rua, apenas um transeunte ensaiou resposta: “Alessandro? Isso é nome de jogador de futebol, não é?”. 

    Na Germinal de 1902, os pais não apenas participavam com uma pequena mensalidade como intervinham na arrecadação de fundos e, de algum modo, na gestão do projeto. Decorrido mais de um século, os teóricos continuam a produzir teses sobre a relação escola-família, mas as famílias continuam marginais à vida nas escolas e são frágeis as estruturas de participação. 

    Em novembro de 1904, lançavas um derradeiro apelo nas páginas do jornal O Amigo do Povo(5): “Pensai no futuro de vossos filhos!”. E reafirmavas as virtudes dos métodos aplicados na tua escola. Ao que parece, a população do Bom Retiro não se preocupava com a educação dos seus filhos… Nem parece que se importa, quando, no século XXI, os submete à nefasta influência de práticas sociais denunciadas ao longo de um século pródigo em práticas alternativas. 

    Amigo Alessandro, existe um pacto de silêncio em torno de iniciativas como o Círculo Educativo Libertário Germinal, de São Paulo, a Universidade Popular de Ensino Livre, do Rio de Janeiro, as Escolas Modernas de São Paulo e de Bauru, todas da primeira década do século XX. Quem ouviu falar da Escola Germinal, do Ceará, da Escola Social, de Campinas, da Escola Operária, de Vila Isabel, e da Escola Moderna, de Petrópolis? As faculdades de educação não informam aos futuros professores de Porto Alegre que, em 1906, havia por lá uma escola com o nome de Elisée Reclus(6)… 

    Eu sei que te custará compreender, mas, no Brasil de 2014, as escolas ostentam designações com referência a coronéis, genocidas, ditadores e torcionários. Uma professora deteve-se em frente à sua nova escola. O que a impedia de entrar? A blindagem do portão? A catraca? O carrancudo guarda? Não. Aquilo que a fez parar foi a leitura da placa, que indicava o nome da escola: o nome de quem havia torturado e ajudado a matar o seu pai, durante a ditadura. Querido Alessandro, ainda vivemos num país onde escolas celebram a morte da memória, onde pesam a herança neocolonialista e outros males sociais, perpetuados pela velha escola, reprodutora de desigualdades, analfabetismos, exclusão. 

    Tal como o país, a escola está imersa numa profunda crise ética e moral, a serviço da reprodução de uma sociedade doente. Sei que será difícil acreditar, mas crê que eu li num muro de uma cidade brasileira este dístico: Colégio D. – a seleção natural. Não restam dúvidas de que, 110 anos decorridos sobre a tua tentativa de humanizar a escola, nos mantemos na proto-história da escola. E da humanidade.

     

    NOTAS

    1 Émile Zola (1840-1902) foi um escritor francês da escola naturalista, autor de Germinal (1885), romance que retrata a vida de mineiros no século XIX. 

    2 A francesa Louise Michel (1830- -1905), também conhecida como Enjolras, foi professora e escritora anarquista, participou da Comuna de Paris (1871), primeira experiência revolucionária de influência anarquista da história. 

    3 Francisco Ferrer (1859-1909) foi um pensador anarquista e pedagogo, criador da Escola Moderna, um projeto de educação libertária. Foi executado pelo governo espanhol, acusado de ser um dos líderes de um movimento conhecido como Semana Trágica, em Barcelona, no ano de 1909. 

    4 Liev Nikolayevich Tolstói (1828- -1910), autor de Guerra e paz (1869), foi um escritor russo de grande sucesso. Também adepto do anarquismo e preocupado com a precariedade da educação no meio rural de seu país, Tolstói criou, em Yasnaya Polyana, uma escola para os filhos de camponeses. Ele mesmo produziu parte do material didático e, procurando caminhos diferentes da pedagogia da época, propunha uma educação libertária, da qual os alunos pudessem participar ativamente. 

    5 Trata-se de um periódico anarquista publicado em São Paulo a partir de 1902. Comandado por diversos imigrantes anarquistas – Neno Vasco, Benjamim Mota, Ricardo Gonçalves, Oreste Ristori, Giulio Sorelli, Tobia Boni, Angelo Bandoni, Gigi Damiani e Alessandro Cerchiai –, teve forte influência no movimento operário brasileiro durante a Primeira República. 

    6 Trata-se de escolas criadas por anarquistas na Primeira República. Sobre elas, podem-se encontrar informações em JOMINI, Regina Celia Mazoni. Uma educação para a solidariedade: contribuição ao estudo das concepções e realizações educacionais dos anarquistas na República Velha. Campinas: Pontes, 1990.

     

    Quem foi Alessandro Cerchiai ?

    As informações sobre a vida de Alessandro Cerchiai são bastante escassas. Sabemos que nasceu em Pescia, na Itália, em 1877. Viveu na França entre 1884 e 1896, quando tomou contato com ideias anarquistas. Voltou para a Itália e lutou na Guerra Greco-Turca, em 1897, que se referia à disputa entre Grécia e Império Otomano pelo controle da ilha de Creta. 

    De volta à Itália, Cerchiai se envolveu no movimento anarquista que tumultuou Milão, em 1898. Por conta dessa participação, foi detido e condenado a dois anos de prisão. Ao deixar o cárcere, Alessandro emigrou para o Brasil, onde se juntou aos imigrantes anarquistas dos bairros operários de São Paulo. 

    Entre 1902 e 1904 se dedicou à Escola Libertária Germinal, que, aparentemente, encerrou as suas atividades por falta de recursos. Em 1903, fundou, com o também imigrante italiano Gigi Damiani, o jornal La Barricata. Colaborava escrevendo também para O Amigo do Povo e La Battaglia. Todos, evidentemente, jornais anarquistas que circulavam pelos bairros operários, principalmente na cidade de São Paulo. 

    Ao que parece, entre 1914 e 1916, deixou a capital paulista e foi viver em Bauru, onde teria lecionado numa escola de caráter anarquista. Nesse local, ensinava sobre a ideia de solidariedade anarquista e pretendia incutir nos estudantes a relação entre liberdade e responsabilidade. 

     

    Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-18), Cerchiai colaborou em jornais antifascistas da Itália e do Brasil, liderando alguns deles, como La Difesa e Il Risorgimento. Até o fim de sua vida, manteve a militância anarquista e a defesa de uma educação libertária. Alessandro Cerchiai morreu em São Paulo, no mês de outubro de 1935.

     

    Texto retirado do capítulo 20 da Obra “Aprender em Comunidade"

    O livro na íntegra está disponível em PDF nesse site:

    http://www.edicoessm.com.br/catolicas/assets/af_aprender-em-comunidade_miolo2.pdf

     

    ...

José Pacheco

José Pacheco

Fundador da Escola da Ponte, em Portugal. Trabalhou em conjunto com o MEC para iniciativa de Inovação e Criatividade na Educação Básica do Brasil. Colaborador do Projeto Âncora em Cotia - SP, orienta o projeto de mais de 200 escolas pelo Brasil. Especialista em Leitura e Escrita, é mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. É autor de vários livros e artigos sobre educação, destaque para o Dicionário de Valores, publicado recentemente.