Educadores

  • 14

    JUN

    2015

    Cidadania

    por José Pacheco em 14/06/2015

    Numa escola, da qual não importa referir o nome ou lugar, por ser igual a tantas outras escolas, alunos destruíram mobiliário, depredaram o edifício. Num colégio particular, um jovem de 12 anos agrediu selváticamente um colega de 11 anos e foi “suspenso por um dia” ...

    O amigo Severino diz-nos que cidadania é a medida da qualidade de vida humana, que se desdobra apoiada na presença das mediações histórico-sociais.

    E o nosso amigo Freire considerava a educação uma prática de liberdade. Porque havia lido esses e outros sábios, a Maria entrou na sua nova escola disposta a fazer jus à leitura dos mestres. Chegada ao refeitório, deparou com uma longa fila e no último lugar da fila se colocou.

    Não tardou que uma criança lhe dissesse: Setôra, por que não vai lá para a frente da fila?

    Meu querido, eu devo ficar no meu lugar – contestou a Maria.

    A criança insistiu: Na nossa escola, os professores passam à nossa frente. A senhora é professora, pode passar à frente.

    Exatamente por ser professora é que eu não vou para a frente da fila, meu querido – Completou a Maria. E por aí se quedou o breve diálogo.

    Mas não o episódio...  Outra professora chegou ao refeitório, ultrapassou toda a gente e se serviu de alimento. A criança, que falara com a Maria, ousou interpelar quem tinha “passado à frente”. Foi repreendido por essa e outras indignadas professoras.

    A Maria herdara uma cultura diferente daquela que ali prevalecia. Havia trabalhado numa escola onde palavras como respeito e cidadania não serviam apenas para enfeitar um projeto pedagógico apenas escrito. Numa escola onde as regras eram decididas em coletivo e por todos cumpridas, onde valores escritos não eram negados na prática. Num tempo e lugar onde se educava no exercício da cidadania. Na sua nova escola, a Maria surpreendia-se com o fato de haver quarto de banho de aluno (coletivo e sem espelho) diferente de quarto de banho de professor (coletivo e com espelho) e este separado do quarto de banho do diretor (privativo e com espelho). Surpreendia-se que todo mundo “achasse normal” que até no defecar e urinar houvesse hierarquia. Sabia que não se prepara jovens para a cidadania, mas que se educa na cidadania, em contextos onde haja igualdade na diversidade, onde prevaleça o exemplo. Isso ela aprendera numa escola onde não se “passava à frente”.

    A Maria desta história encontrou quem partilhasse esperançosas práticas. Porém, quando se propôs trabalhar em equipe, reunir em assembleia com os alunos, partilhar projetos com a comunidade, foi-lhe dito que, há alguns anos, outra Maria havia tentado fazê-lo e se arrependeu.

    Vícios e tabus se revelam nos mais ínfimos pormenores, representações sedimentadas tendem a esconder a origem de formas sociais de dominação. Não surpreende, por isso, que uma solícita inspetora tenha demovido a Maria dos seus audazes propósitos, ordenando-lhe que desse as suas aulinhas e fizesse o que lhe mandavam fazer. E que uma prudente diretora a aconselhasse: Maria, tenha paciência. Aqui, manda quem pode e obedece quem tem juízo.

    Qual terá sido o desfecho desta história? A Maria terá conseguido cumprir o projeto pedagógico da escola e desenvolver cidadania? Ou terá passado da fila do refeitório para a fila de espera da consulta de psiquiatria?

    Esta história admite vários desfechos. Inclusive, aquele que o eventual leitor lhe quiser dar.

    ...

José Pacheco

José Pacheco

Fundador da Escola da Ponte, em Portugal. Trabalhou em conjunto com o MEC para iniciativa de Inovação e Criatividade na Educação Básica do Brasil. Colaborador do Projeto Âncora em Cotia - SP, orienta o projeto de mais de 200 escolas pelo Brasil. Especialista em Leitura e Escrita, é mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. É autor de vários livros e artigos sobre educação, destaque para o Dicionário de Valores, publicado recentemente.