Educadores

  • 11

    JUL

    2017

    Mais ou menos - por José Pacheco

    por José Pacheco em 11/07/2017

    A partilha de conhecimento acontecia naturalmente entre professores, que desenvolviam projetos reconhecidos como inovadores pelo ministério da educação. Da agenda constava a apresentação de uma proposta de protocolo de avaliação de projetos considerados inovadores. Uma senhora apresentada como “especialista em currículo” ordenou a uma subordinada que desse início à sessão de power point. Rendidas as devidas homenagens pelos seus inferiores, a “especialista” passou a conduzir os trabalhos, lendo slides, numa sequência monótona.

    A exposição da especialista estava repleta de equívocos. Ao meu lado, um professor suspirava de enfado, pois já deparara com vários disparates com chancela de cientificidade, que ninguém ousara comentar.  Não se conteve, quando a dita “especialista em currículo” referiu como critério de avaliação do projeto o “índice de reprovação”.

    Respeitosa e pertinentemente, questionou:

    A senhora admite que projetos inovadores naturalizem o insucesso, que se deva reprovar? Na nossa escola, acabamos com segmentações. Por isso, não se reprova.

    Sem disfarçar a irritação, a “especialista” interrompeu-o:

    Senhor professor, eu fiz doutoramento em currículo! Quem é o senhor para me questionar? As outras escolas não são como a vossa e não podemos exigir mais dos professores. Eles não sabem trabalhar de outra maneira. E o senhor não pode impor as suas teorias aos outros!

    Não agradou ao professor que alguém tratasse outros professores com condescendência. E respondeu que não se tratava de teorias, mas de práticas transformadoras, desenvolvidas em escolas onde arcaísmos como a reprovação deram lugar a uma avaliação formativa, contínua, sistemática.

    Em vão... A “especialista” respondeu com um esgar de desdém na face. Ignorou a interpelação e até mesmo a presença do professor. E a apresentação prosseguiu até ao momento em que a especialista prescreveu que fosse feita observação de aulas. Após escutar o enésimo absurdo, o ignorado professor perguntou à ignorante doutora:

    Aula? Em que século estamos, minha senhora?

    Ela respondeu com ironia à ironia:

    Não queira parecer original! Terá de ser, mais ou menos, assim. E o senhor professor terá de fazer, mais ou menos, como estou a dizer-lhe que faça! Ouviu? E agradeço que não volte a interromper-me!

    Observador atento, fui mais fundo na compreensão do drama daquela especialista cativa de um modelo de escola que apenas admite uma prática pautada no “mais ou menos”. Vivemos, mais ou menos, submetidos às decisões de ““especialistas em currículo”, que consideram os professores incapazes de compreender e ainda menos de fazer diferente, de inovar.

    Muitos anos decorridos sobre esse lamentável episódio, entre a sofisticação do discurso e a pobreza das práticas, os gestores “mais ou menos”, os formadores “mais ou menos”, os técnicos superiores e especialistas “mais ou menos” vão parindo medidas de política educativa “mais ou menos”. E o ministério, os institutos, as fundações e outras agências de financiamento vão apoiando projetos “mais ou menos”, perpetuando a reprodução de seres humanos “mais ou menos”, a quem recusam o direito à educação.

     

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José Pacheco

José Pacheco

Fundador da Escola da Ponte, em Portugal. Trabalhou em conjunto com o MEC para iniciativa de Inovação e Criatividade na Educação Básica do Brasil. Colaborador do Projeto Âncora em Cotia - SP, orienta o projeto de mais de 200 escolas pelo Brasil. Especialista em Leitura e Escrita, é mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. É autor de vários livros e artigos sobre educação, destaque para o Dicionário de Valores, publicado recentemente.