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Leonardo Garin

Leonardo Garin

Educador formado em Ciências Sociais pela UFPR e pedagogo em formação, contribui com o processo educacional de crianças, jovens e adultos há mais de 10 anos.

  • 03

    ABR

    2017

    Controle, para quem? - Educação Integral

    por Leonardo Garin em 03/04/2017

    O ambiente escolar tradicional é conhecido por seu controle corporal e mental. Todas as leis e regras são voltadas para o domínio e adestramento do corpo. Nas séries iniciais os professores induzem e repreendem para ajustar os estudantes a essas medidas. Nas séries finais punem o corpo e a mente com notas baixas e disputas de poder. A possibilidade de autonomia, o pensamento crítico, a pedagogia freiriana, ficaram nas décadas anteriores. Pior, são lembranças de uma momento que parece nunca ter acontecido, os distantes anos 70, 80 e 90. Momento que deu origem a diversos movimentos sociais, que criou associações, que nos libertou da ditadura militar e que nos iluminou com a constituição cidadã de 1988. A coroação de uma história que parecia mudar o futuro.

    O tempo passou, o liberalismo contra atacou, e a cartilha de Washington foi empurada goela abaixo no nosso país, como de muitos outros. O final dos anos 90 trouxe o novo século, mas velhas idéias, baseadas no controle e na reprodução. O Estado perdeu sua voz, foi transformado em incapaz e assim privatizado, sinônimo de incopetência, corrupção e ineficiência. O mercado decretou, não há o que salvar. É ele quem dita as regras e aqueles que não se encaixarem serão condenados. O sistema público foi deflagrado, destituido e vem sendo destruido sistematicamente por políticas policiais investigativas que visam a substituição do poder. Pouco a pouco isso vai se construindo, e o que anteriormente era uma ótima forma de viver, como funcionário público, servindo a população, passa a ser sinônimo de vagabundagem interesseira e sindicalista.

    As concepções pedagógicas também assumem uma forma mercantilista, voltando suas práticas a aquisição de conteúdo e o alcance a metas estabelecidas pelo próprio mercado. Não apenas a prática da gestão total entrou dentro do ambiente escolar, mas também foi introduzida dentro do sistema escolar, contaminando a lógica de ensino e, principalmente, de aprendizagem. Os estudantes se tornaram máquinas de absorção e reprodução, empurrados e adentrados por uma maioria de professores  amorais  e antiéticos, que vendem a validade da ciência a quem defendem por um punhado de valor necessário a reprodução social.

    O fio condutor de tudo isso é o currículo, seja ele Curriculum Vitae, Currículo Lattes ou Diretrizes Currículares. Independentemente, qualquer que seja o currículo, não passa de uma mera lista de afazeres, diferenciando e excluindo pessoas e pensamentos. Alguns defendem a utilização de currículos como o simples reflexo da necessidade de categorização e possibilidade da meritocracia. Outros os culpabilizam como um reprodutor e massificador social, isolando pessoas, asfixiando culturas, possibilidades e potencialidades. De uma forma ou de outra, a utilização de currículos é sistêmica e endêmica. Estamos nos acostumando a tal ponto a nos basear em currículos que quando alguém questiona o nosso trabalho como educador a primeira coisa que vem a cabeça é encontrar uma justificativa escrita e publicada para a metodologia aplicada. As pessoas se livram de problemas se abraçando em currículos. São os salvas-vidas do oceano da concorrência. E enquanto se seguram em papéis, perdem a vida real que corre diante dos olhos, se privam de nadar e explorar, deixando de aproveitar e mergulhar no infinito de possibilidades interacionais que podem ter através da comunicação e da educação dialógica.

    Seria muito injusto culpabilizar os professores por serem as engrenagens do sistema atual, porém temos que alertar e relembra-los de sua importância em servir como ferramenta de transformação insubistituível e preponderante para que a mudança de paradigma aconteça.  Mudar atitudes é preciso.

     

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