Educadores

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    OUT

    2015

    A escola-empresa como elemento nocivo ao conceito de educar

    por Leonardo Garin em 22/10/2015

    É natural que esqueçamos que Educar é um conceito, e por ser conceito, ele pode variar em seu significado, trabalhando de acordo com a intenção de resultados a serem obtidos. Sejam eles voltados para construção de uma identidade nacional, mercado de trabalho, docilidade dos corpos, liberdade da mente, e/ou etc. Para todas as intenções, uma variável é constante, educar não admite resultado controlável. Na medida em que Educar atua sobre indivíduos, podemos considera-lo  portador de uma particularidade impar, mágica e surpreendente, principalmente nas idades mais tenras.

    Paradoxalmente a singularidade da relação humana, sistemas de ensino pretendem contrariar essa regra, prometendo transformações através de resultados. Os sistemas de ensino se apegam a padrões ideais, baseados em uma ciência régia, com padrões de comportamento identificáveis. Pela complexidade social atual, é esperado que todos os sistemas de ensino de uma forma ou de outra acabem encontrando adeptos e admiradores.

    Por sua importância social, os sistemas de ensino se tornaram uma peça do mercado, com alto custo e significativo valor de troca simbólica, fazendo com que instituições assumam sistemas de ensino tidos como ‘’bem sucedidos’’ em outros lugares/regiões, a fim de que produzam resultados similares em seus estudantes. Não obstante, a implementação de um sistema de ensino chega como promessa, antes mesmo de conhecer o material humano com que vai trabalhar. A merce estão estudantes, professores, diretores e funcionários, que devem se sujeitar a pressão e aplicar forma sistêmica de produzir robôs.

    Concomitantemente a angústia produzida nos profissionais que aplicam o sistema de ensino, também estão aqueles que de uma forma ou de outra pagam com suor de seu trabalho a chance de serem submetidos a esse processo. Considerando que um jovem na escola, significa uma família na escola, pais e estudantes, aguardam os resultados provenientes da oferta do sistema de ensino. Se as provas provarem positivamente, receberão um papel, um atestado de regularidade e eficiência, e só. Caso contrário o sistema, que nunca falha, pedirá ajuda a Ritalina e outros estimulantes conhecidos, estigmatizando o estudante perante família e amigos.

    Os sistemas de ensino dirigem-se a ignorar a educação integral, tendem a não se importar com as condições domésticas de seus estudantes, a não relevar diferentes capacidades cognitivas, a não lidar com suas particularidades psicológicas e sociais, e não levar em consideração sua classe social e seu ponto de vista econômico. Os sistemas de ensino não querem saber do ponto de vista do estudante. Excluem ao invés de incluir. São sistemas, e por serem sistemas são constituidos de princípios reunidos de modo que formam e estabelecem uma doutrina e/ou teoria. Sendo a doutrina o conjunto de princípios fundamentais de uma crença, fica claro que tudo que não estiver dentro da doutrina não é essencial, não deve ser considerável, respeitável e ser importante.

    Portanto, é capital refletir sobre a inserção e disceminação de sistemas de ensino e o quanto danoso pode ser para uma sociedade creditar a capacidade de educar as novas gerações à sistemas doutrinários que visam apenas um único fim, desamparando o ser humano por detrás da máquina. As escolas não trabalham com máquinas, mas com seres que precisam de atenção particular e carregam sua singularidade. Essa inconstância do ser que não pode ser abandonada, negada ou sujeitada a patologias e remédios. Não serão choques de gestão que transfomarão notas, conceitos ou atitudes. Mas o reconhecimento, a aceitação e a instrução constantes. A lógica empresarial não tem lugar na escola.  

     

     

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Leonardo Garin

Leonardo Garin

Educador formado em Ciências Sociais pela UFPR e pedagogo em formação, contribui com o processo educacional de crianças, jovens e adultos há mais de 10 anos.