Educadores

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    SET

    2015

    Da personificação ao genuino, o conhecimento como caminho de transformação da culpa

    por Leonardo Garin em 15/09/2015

    A Escola de hoje pode ser vista por alguns como um lugar infeliz, sem conhecimento de qualidade e frágil. A Escola, principalmente na rede pública, encontra tantas dificuldades que é duvidosa sua eficácia no dever de instruir os brasileiros ao mundo do trabalho, e para as condições necessárias de se viver em sociedade. Juntamente com esse sentimento de descrença no sistem educacional, vem o desprezo e o desrespeito. Tanto contra a estrutura física da Escola, quanto a seus funcionários.

    Para tristeza e desespero de todos os brasileiros, a escola está desacreditada e os professores estão perdendo o pouco prestígio que um dia já tiveram. O negativo cenário é refletido não apenas na baixa remuneração dos professores, mas principalmente nas atitudes agressivas de estudantes contra professores. As cenas de violência na Escola impressionam e doem em todos que imaginam do futuro um lugar melhor, mais justo e harmônico. São os exemplos mais tristes e cruéis os que se transmitem através dos noticiários, popularizando concepções negativas.    

    A fim de responder ao pessimismo contaminado pela mídia, a sociedade cobra soluções, que são direcionadas ao Estado e aos próprios funcionários da educação. O Estado está dando suas respostas através das privatizações e do abandono. Está abandonando para abrir espaço aos espaços privados, onde estarão livre das cobranças. A manutenção do FIES e a precarização das universidades federais é a maior propaganda dessa idéia. Somasse a isso o abandono da maioria das escolas estaduais. Além das privatizações, a precarização também é uma forma do Estado tranferir a responsabilidade, desta vez ao docente. A cobrança por melhores condições de serviço recaí sobre os professores e a sociedade pede por maior desempenho.

    Pressionados pelo poder público e pelo poder popular, os professores vivem um dilema. Abandonar a culpa e continuar com seu trabalho. Ou abraçar a culpa, se profissionalizando ainda mais, em busca de ferramentas metodológicas que modifiquem o ambiente da sala de aula. Lógicamente que essa realidade deve respeitar situações, momentos e condições sócio-econômicas. Imaginando o cenário ideal, mesmo sem crise de culpa, não devem haver pessoas que não busquem melhorar o seu desempenho no cumprimento de seu labor. Portanto, é esperado que a maioria dos professores tendam a buscar melhores condições de exercer seu trabalho, a fim de atingir os objetivos de sua função, e ao mesmo tempo tornar o processo mais prazeiroso e agradável.

    Na busca pelo melhor desempenho profissional muito professores focam, acertadamente, na figura do estudante e tendem a direcionar seu ensino a satisfazer suas necessidade psicológicas, sociais e cognitivas. No contexto de classes com mais de 30 estudantes, alcançar o bom desempenho em todas as funções e em todos o estudantes é muito complicado, para não dizer impossível diante as exigências do dia a dia. A coesão do grupo é fundamental para se trabalhar com grupos grandes e manter o alto astral, necessário para levar o cotidiano tranquilamente, progredindo com constância.

    Para a unidade do grupo é crucial ao professor saber trabalhar com os estudantes, suas crenças, desejos e sonhos. Não só trazendo problemáticas que chamem atenção, mas abordando-as de forma alegre e inspiradora. Dentro dessa problemática, temos que salientar que a maneira de discutir os assuntos pode ser determinante na forma em que esses serão compreendidos e vistos pelos estudantes.

    É nesse sentido que devemos não só trazer os temas com alegria e felicidade, mas trata-los com a simplicidade e naturalidade que lhes fazem sentido. Cuidando para não mascarar as condições, e evitando juizos de valor. O desafio dos professores na atualidade é a abordagem natural, simples, alegre e genuina. A constituição de genuinidade é o que torna o conhecimento particular ao estudante, onde se apropria e assim pode fazer seu uso. Só através desse caminho o professor pode trazer a coesão e a motivação que lhes são caras na atualidade. O conhecimento não pode ser particular. A matemática não pode ser legal apenas como o professor X e a biologia não pode ser divertida apenas com o professor Y. O conhecimento de se despersonificar, tornando-se genuinamente interessante, desafiador e instigante.

    A proposta não se trata de reformar e manter um sistema falido e ultrapassado, mas de transforma-lo gradativamente a fim de alcançar respostas condizentes a realidade contemporânea. Essa mudança não deve vir exclusivamente dos professores e dirigentes, mas deve incluir os estudantes, funcionários e a sociedade. As dificuldades para implementação existem, mas as barreiras estão aí para serem ultrapassadas. Sem assumir a culpa pela incompetência do sistema, mas assumindo nossa capacidade de agente transformador do mundo. 

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Leonardo Garin

Leonardo Garin

Educador formado em Ciências Sociais pela UFPR e pedagogo em formação, contribui com o processo educacional de crianças, jovens e adultos há mais de 10 anos.