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Nicole Rebeca Levy Plapler

Nicole Rebeca Levy Plapler

Pedagoga formada pela USP, psicopedagoga, terapeuta familiar e psicanalista pelo SEDES. Trabalha em consultório particular desde 1985.

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    FEV

    2017

    A educação não deve nos afastar de nós mesmos

    por Nicole Rebeca Levy Plapler em 01/02/2017

    Me parece que uma grande ferramenta de vida e para vida, está desaparecendo, o bom senso e o senso comum. Estes dois aliados a nossa sensibilidade e sensações sempre funcionaram como uma bússola para o nosso cotidiano. Algo para se amparar em momentos difíceis, estranhos, por vezes confusos, situações inusitadas, não rotineiras, transformando o desconhecido em compreensível, até familiar.

    Um chão sólido quando tudo parece insólito. É um saber que algo está errado, mesmo quando não se sabe qual é o certo. Hoje em nome de respeitar e aceitar as diferenças, não se pode estranhar nada, muito menos discriminar no sentido de estabelecer diferenças, que é confundido com rejeitar, segregar, marginalizar.

    Aliás, não se pode pensar e nem se tem tempo para isto, perdidos em manuais de condutas e Apps que tem que ser acessados para orientar nossos caminhos no trânsito, na vida, nas emoções, nos sentimentos, nas condutas, no que se deve fazer, achar, pensar, agir...

    Acessa-se tantos Apps e não se acessa "quem os acessa". Quanta ironia! Tantos selfies, sem EUs. Imagens refletidas. Só imagens. Fotografa-se a si mesmo para talvez ter algum retrato de si, já que nem os Apps nem os selfies nos retratam verdadeiramente, continuamos procurando "fora" algo que está sufocado dentro de nós. O desejo de ser. Simplesmente ser.

    Adultos infantilizados, talvez tentando resgatar os bebes que não puderam ser, pois hoje em dia até os bebês tem "agenda", já não podem ter no seu próprio ritmo a adaptação ao mundo que recém chegaram para conhecer. Bebês "praticamente estudam"! Cantam, dançam, são estimulados incessantemente (já podando aquele super início de contato consigo mesmo), precisam já ouvir determinado numero de palavras, fazer exercícios, "bebes ocupados", crianças atarefadas, sem tempo de jogar, ganhar, perder, treinar, criar e recriar a vida com sua imaginação e fantasia.

    Um mundo tão precocemente apresentado sem digestão, sem interação, provoca um "empachamento" uma over dose de estímulos e atividades, levam rumo a "hiperatividade" para chegar na "ritalina", passando pela  cocaína, para finalmente poder chegar no "Rivotryl"! (não sem antes sentir um tédio fenomenal). Aprendendo inglês, francês, chinês, mandarim, "prontas" para correr atrás...

    Correr atrás do que? De quem?

    Com certeza haverá alguém correndo atrás delas. Os bebes que não foram, as crianças que não puderam ser, o adulto que não se conhece nem se reconhece, mas se vê "entupido de afazeres", tarefas, sem tempo de preencher o  preenchido por um estranho e enorme vazio, que por mais que estivesse com ele, desde o início, continua desconhecido, pois nunca o olhou, nunca o " postou", nunca o "curtiu", nem "compartilhou". Não está no "face", mas está na face, no ser, nas entranhas, "correndo atrás dele", enquanto ele está correndo atrás...

    Atrás...Atrás de que mesmo?

    ...