Educadores

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    JAN

    2016

    Eu ensino, você aprende, combinado?

    por Nicole Rebeca Levy Plapler em 25/01/2016

    Você aprende porque eu quero ensinar, ou eu ensino porque você quer aprender? Isto importa? Para cada aluno existe um professor, ou há um professor para todos os alunos? É possível adaptar a escola ao ritmo do aluno, ou só ele fará este esforço?

    Há um ritmo certo para aprender? Há um ritmo necessário para aprender e seguramente, inegavelmente, para desaprender.

    Assim como uma respiração é mais profunda do que outra, um coração bate mais forte do que outro, cada um de nós tem seu tempo de assimilação, mas as escolas cobram das crianças o mesmo ritmo, para que pensem no mesmo instante, como se fossem preparados para uma maratona.

    Todos correndo com um só coração, uma mente  num corpo comum.

    Fala-se de "inclusão". Quem está incluído em nosso sistema de ensino? Estão todos excluídos de suas necessidades básicas. A começar pelo horário. Quem decidiu que as crianças pensam melhor as 7hs da manhã? Todas, de norte a sul, leste, oeste, na mesma hora, com o mesmo biorritmo, aprendem da mesma forma, comem no mesmo horário, brincam no mesmo instante, sentam no mesmo momento, levantam!

    Não é só o facebook que nos lembra "1984"! "Admirável mundo novo"! Todos uniformizados! Alunos? Soldados? Professores? Sargentos? Coronéis? Quem é quem neste faz de conta de "ensinar e aprender"?

    Crianças são ensinadas a aprender ou são capturadas e seduzidas, por conceitos e notas que mais tarde serão as "promoções e salários", presas a informações que dioturnamente se questionam "para que servem", preparando o caminho para mais tarde continuar na duvida de para "que serve seu trabalho".

    Sou contra informação e conhecimento? Sou contra informação que não será retida, contra o desgaste de se adaptar a um interesse que não é genuíno. Contra uma carteira que prende a vitalidade da criança,  um recreio que mais parece um "banho de sol" destinado a criminosos, que logo voltarão para suas "celas-carteiras", com o carcereiro-professor, estimulado a ameaçar e prender para combater a rebelião.

    Enfileirados nas trincheiras da escola, aprendem que a vida é uma guerra. Logo, matar ou morrer é a norma, faz parte.

    A violência perpetuada de uma forma "aparentemente branda", de tirar a vitalidade de quem é vivo, a criatividade de quem é criativo, deveria ser considerado crime!

    Obrigar um idoso a correr quatro horas por dia não seria ir contra o estatuto do idoso? Obrigar uma criança a sentar quatro horas por dia deveria ser contra o estatuto da criança!

    Há anos escuto o exagero sobre o estímulo de bebes e crianças. Primeiro se estimula, para depois desestimulá-los? Fala-se de uma geração canguru" que não quer crescer. Crescer como? Como andar e voar se ficaram presas? Como dar sentido a vida adulta, pensar, criar, resolver problemas, suportar dores, se foram crianças "institucionalizadas", presas. Tudo veio de fora para dentro. Como exigir de um momento para outro que saibam se conhecer, se perceber, se colocar, posicionar, optar, ingressar num mercado de trabalho, entender onde estão.

    O mundo não lhes foi apresentado, foi enfiado goela a dentro, sem digestão. A criança não se apoderou do seu conhecimento, de seu corpo, de sua mente, não digeriu, não integrou de um lugar subjetivo, só seu, transformado pelo seu ritmo.

    Se o sujeito é levado em conta, como único, que realmente é, quando necessitar, poderá, ao crescer, se adaptar, transformar, criar, enquadrar-se a princípios e normas entendidos e digeridos. Poderá tentar, se arriscar, crescer, dar sentido ao que vive.

    Inseridos numa cultura que acolhe e não só escolhe, que da oportunidade, que deixa sonhar, ser, realizar. Sem precisar só comprar, comer ou jogar.

     

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Nicole Rebeca Levy Plapler

Nicole Rebeca Levy Plapler

Pedagoga formada pela USP, psicopedagoga, terapeuta familiar e psicanalista pelo SEDES. Trabalha em consultório particular desde 1985.