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    NOV

    2014

    INTER-DISCIPLINAS: de uma cartografia do conhecimento ao livre pensar

    por Plinio Bronzeri em 15/11/2014

    Atualmente, muito se fala sobre inter-disciplinas. De fato, as multi-disciplinas, isoladamente, pouco constroem uma possibilidade de interlocução. Mas: como podemos, então, entender a “transitorialidade” entre elas?

    [Segundo Pierre Lévy…]

    Vivemos, desde a criação e expansão da internet, uma sociedade de informação em massa. Segundo o autor, passamos por um verdadeiro dilúvio. Podendo assim, comparar metaforicamente esse derramamento incontrolável à história de Noé. Nessa perspectiva, deveríamos apontar para a solução de construirmos Arcas. No livro “Cibercultura”, ele apresenta que deveríamos salvar o essencial nesta “similarização” de acontecimentos. No momento em que Noé coloca apenas um “exemplar” [sei que essa palavra não é boa, mas fiquemos com ela] de cada espécie animal, faz um resumo zoológico. Se seguirmos nesse entendimento, deveríamos fazer o mesmo com as informações que nos assolam diariamente e nos pre-ocupar apenas com o que é “essencial”.

    Na tentativa de organizar um pensamento sobre a interdisciplinaridade, Lévy é um convite inicial?

    […convite…]

    O que faço, é um convite para acompanharmos uma pequena trajetória sem a priori ter um destino certo ou lugares antecipadamente combinados. O objetivo é iniciarmos em algum ponto e relatar até uma suposta interdisciplinaridade. O único aspecto a ser respeitado é a cartografia-relevo…

    […primeira paisagem…]

    Talvez, a primeira figura a nos deparar é: a “estaca” – rígida porém móvel –, que marcará o caminho e sedimentar o processo… o ato de conceituar nos obrigará atentar ao conjunto de situações que darão sentido a operacionalidade desta questão. As formulações serão de ordem vivencial… na nomeação das multiplicidades, caso seja possível avançarmos por essa primeira formulação. Tange a essa ideia, creditar que: as multiplicidades de ações e a construção cartográfica do pensar passará a nos levar a uma suposta interdisciplinaridade.

    Para chegarmos a alguma definição, precisaremos nos apoiar na sustentação de um pensamento complexo, inter… pensar de forma multilinear e “compreendente” das intersecções propostas. Para atravessar o pensamento linear [que considero válido e não descartável] será necessário um entendimento mais amplo que nos leve a considerar às multiplicidades de saberes (as sobre-linhas).

    […segunda paisagem: metodológica ou epistemológica?]

    Ao determinarmos os métodos, determinamos epistemologias e, historicamente, as disciplinas. Não desconsideremos isso! No sentido etimológico a palavra “disciplina” vem da palavra “discípulo” [aquele que seguem linearmente ou não]. Nesta perspectiva, temos a ligação entre o sujeito disciplinado – aquele que segue com obediência – e a divisão das ciências em disciplinas com seus discípulos, como aqueles que seguirão uma posição de se fazer ciência, construindo conhecimento dentro ou fora de caixinhas… isso dependerá da disciplina.

    Assim, nas ciências (humanas, exatas e/ou biológicas) há uma divisão de apresentação aos potenciais discípulos e o que eles deverão fazer para seguirem com o rigor teórico-metodológico, caso adotem o saber apresentado. A obediência (do latim obedire) aparece no ato do discípulo que segue rigorosamente o episteme (ciência e conhecimento).

    […terceira paisagem: o conhecimento se divide em múltiplas epistemologias?]

    Elas são o controle que exige obediência daqueles que se tornam discípulos?

    A geração de conhecimento, conhecimento como informação científica, é restringida aos que detém uma metodologia aceita, rigorosamente, e que muitas vezes se restringem a si-mesmas. Inclusive, outra paisagem que mereceria destaque, é: dependendo do discípulo, poderá olhar para este texto e comentar:“ – o autor não foi rigoroso na utilização dos conceitos.” Nessa crítica válida, dependendo da ciência, teremos que o pensamento complexo (contrário ao simples) necessitará de um estudo rigoroso e condizente com a epistemologia e metodologia reconhecida para tal. Mas, aqui fica um questionamento: como realizar, então, um estudo interdisciplinar sem cairmos nas incompatibilidades de ciências diversas, de epistemologias incompatíveis? Incompatibilidade não de pensamentos, mas, sim, de métodos…

    Sem dúvida ao falarmos de multidisciplinaridade estamos deixando de lado esse questionamento e que variabilidade de disciplinas não garante suas ligações. O modelo escolar, por exemplo, no qual se ministram matérias, deixará a cargo do aluno essas interligações… o que torna a tarefa muito difícil. Fazer conexões, necessita ter conhecimento para tal. O pensamento livre fará isso de forma rápida se caso fique evidenciado a possibilidade da junção ou separação [vejam que eu escrevi pensamento livre e não interdisciplinarmente livre].

    Questões: com uma predisposição ao conhecimento do fazer científico, perante uma outra ciência-disciplina, ficará o sujeito mais propenso a estagnação frente a fragmentação das ciências? Um sujeito desconectado do proposito de outras ciências instituídas, pouco terá a fazer ao transitar nos conhecimentos gerados pelo outro? Se respeitar os relevos terá sim muito a construir…

    Imaginemos… nos propondo a fazer conexões de um profundo saber das ciências humanas com um saber das ciências exatas, com a mesma complexidade; que estas duas localidades habitam picos diversos de acúmulo de conhecimento, um sobre o outro, e que geram passíveis linearizações do pensar de quem sobe. Se olharmos do cume em que estamos pouco conseguiremos chegar até o cume do outro, a não ser, que olhemos a ciência do outro através da nossa [também será válido]. Caso queiramos olhar a ciência do outro por meio da ciência do outro, teremos algumas saídas: fazer uma ponte enorme, de cume ao cume, de um lado ao outro, nascida de uma construção também enorme; descermos da montanha e começar a subir a montanha do outro; solicitar que o outro desça e venha até nós; ou, solicitar que conversemos no pé das duas montanhas… no vale.

    […à volta…]

    Propor um método para viabilizar as interdisciplinaridades é também adotar uma postura cartográfica de saber. Esta proposição abarca o respeito aos relevos de cada ciência, no entendimento de suas divergências epistemológica, e na busca por saberes promotores de diálogo. Galgar por uma aproximação é possibilitar que diferenças existam e não precisem deixar de existir para que possa dialogar. É permitir, ser atravessado e atravessar por outras ciências sem perder o seu propósito, sem perder as suas possibilidades instituídas e instituintes. Adotar uma interdisciplina sem essa ressalva é perder a conexão com o propósito da ciência, é tornar o saber em sujeitos ausentes e não potencializados pelas diversidades científicas.

    Referência

    Pierre Lévy – Mesa redonda, TV CULTURA, São Paulo – 2001

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Wk76VURNdgw

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Plinio Bronzeri

Plinio Bronzeri

Mestre em Ensino, História, Filosofia das Ciências e Matemática pela UFABC; cursou formação em psicodrama, e didata, pelo Instituto Sedes Sapientiae; Psicólogo pela PUC-SP; autor de artigos sobre sociodrama e formação de professores; professor universitário e psicólogo clínico em consultório particular.