Educadores

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    OUT

    2015

    BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR

    por Regina Potenza em 23/10/2015

    http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/contribua

    Gostaria de fazer algumas perguntas sobre a Base Curricular Comum Nacional da Educação apresentada pelo MEC:

    1.     Porque esta Base Comum ainda apresenta-se dividida em grades de conteúdos se uma das Metas   do PNE é o Desenvolvimento Integral dos estudantes? Essa divisão já era feita no tempo em que estudei no antigo Primário, por volta de 1950. Não cabe mais hoje.

    2.     Porque uma Base Nacional definida pelo MEC se o PNE determina que as comunidades sejam envolvidas nas Diretrizes Escolares e, ao participarem, possam construir as aprendizagens consideradas úteis para elas de forma autônoma como prevê a LDBEN?

    3.     Porque os PCNs e os RCNEIs sequer são citados, sendo os documentos que até hoje existem como Base Comum Nacional já que foram criados em 1997, em decorrência da LDBEN de 1996 e cada Estado e Município criou - com base neles - seus Conteúdos Básicos com autonomia? Devo dizer que os Conteúdos Básicos do Município onde moro e trabalho até que são razoáveis pois incluem Conteúdos Conceituais, Procedimentais e Atitudinais e, mesmo divididos em Disciplinas ou Áreas do Conhecimento e por ano de escolaridade permitem certa flexibilidade, reflexão e exercício de autonomia para os pedagogos.

    4.     Não acham que os PCNs e os RCNEIs constituem documentos da Educação Brasileira dos mais modernos e completos? Principalmente por serem Parâmetros e não simplesmente uma Lista de Conteúdos que muitos ainda chamam de “obrigatórios” em cada faixa etária ou ano de escolaridade, o que, aliás, considero um absurdo determinar idade para aprender determinado conteúdo como no “Pacto Nacional de Alfabetização na Idade Certa” que, convenhamos é sem comentários não é mesmo?

    5.     Gostaria muito de saber se os PCNs e os RCNEIs são estudados nas Faculdades de Pedagogia e nas formações de Professores Especialistas das diferentes áreas do Ensino Infantil e Fundamental I. Será que eles realmente tem servido como Parâmetros Curriculares para os educadores, familiares e estudantes? Ou ainda servem de enfeite na prateleira dos professores que o receberam na época? E se os Temas Transversais realmente foram utilizados para que a prática pedagógica pudesse servir para a integralidade na educação?

    6.     Porque fazer novamente uma “Lista de Conteúdos Conceituais” – cada Município não tem sua?... Ela não obtém sucesso?... Porque uma Lista não obtém sucesso?... Mudar apenas a área do conhecimento onde ele vai aparecer vai resolver? A criança é um ser integral em convivência com o mundo e só assim é que ela aprende e não de forma compartimentada. Cadê a tal “interdisciplinaridade” – não gosto dessa palavra – porque já dá ideia de “disciplinas” em ligação. Desculpem mas, Integralidade não é isso. Houve sim a possibilidade de integralidade a partir dos PCNs. Quem quis, dedicou-se ao estudo e prática de Projetos e até mesmo Temas Geradores onde a integralidade foi e é possível. Quem quis, refletiu sobre os Conteúdos oferecidos nos PCNs e construiu e aplicou seus Critérios de Avaliação definidos nos PCNs, que estão traduzidos em Habilidades possíveis para cada Ciclo. E mesmo atuando num Sistema Classificatório, conseguiu ser desobediente e aceitar, a partir do interesse de cada estudante, o ritmo e o espaço individual, mesmo que a proposta seja coletiva, transformando a aprendizagem em algo natural e prazeroso. Se é pra ter uma Lista o Estado de São Paulo já tem o Programa Ler e Escrever que abrange o Ensino Fundamental I e que trata das Expectativas de aprendizagem na Leitura, na Escrita e na Matemática descritos em habilidades e competências (mesmo que estes termos ainda não estejam completamente dominados por uma parcela dos educadores), sugere ações e a planificação do trabalho do professor em Rotinas e sugere alguns Projetos ou Sequências de Atividades que podem ser utilizadas. Construir a integralidade partindo da Convivência e das Linguagens na convivência é bastante possível, só dependerá de cada Pedagogo ou da Equipe Escolar. Concluo que não faltam modelos, listas e matrizes (incluindo as Matrizes de Referência da Provinha Brasil, Prova Brasil, SARESP e ENEM). O que falta é mudar o foco da ensinagem para a aprendizagem, dos Conteúdos Conceituais, procedimentais e Atitudinais especializados para o Integrado e das Linguagens e Inteligências (Gardner) possíveis na convivência cidadã . São estas as tarefas às quais deveríamos dedicar nosso tempo como Pedagogos.

    7.     Porque manter Ano de Escolaridade dividindo as crianças por faixa etária? Eu sei por quê: por que assim a gente nivela por baixo, ou seja: criança que não aprende o conteúdo do seu ano “repete”, mantendo-se o conceito de série de antigamente e assim, nunca começamos a pensar em Ciclos, muito menos em Grupos de Estudo multietários constituídos a partir de interesses e motivações para aprender. É um dos motivos para tanta criança fora da idade/série e, infelizmente para o Brasil, essa relação no geral é para baixo. Parece que temos um prazer sádico ao classificar as crianças e jovens, em punir seus erros e castigá-los quando não aprendem aquilo que nós adultos queremos que aprendam. O que fazer por exemplo, com as crianças que aprendem os conteúdos antes de terminar um ano letivo? Elas não “passam de ano” no meio do ano pois não há procedimentos regulamentados. De novo os PCNs não foram realmente implantados, pois não foram criados procedimentos que permitissem aos estudantes concluir, por exemplo: um Ciclo, antes de ter a “idade certa” e participar de outro grupo cuja faixa etária não fosse a mesma ou similar. De novo a cultura dos que “não sabem” impera sobre a dos “que sabem”. Porque manter esse caráter classificatório/etário já na definição de Conteúdos Básicos separando por ano de escolaridade?

    8.     Porque criar mais um documento com 300 páginas se já temos PCNs com 10 Volumes e aproximadamente 150 páginas cada um? Vai completar 20 anos em 2017 e, será que já conseguimos nos apropriar dele e praticá-lo? Alguns gostam do modelo de “Lista de Conteúdos obrigatórios” que vem de cima para baixo e, portanto sem permissão para a autonomia e criatividade do professor. Uma Lista de Conteúdos dão passagem para os ultrapassados Livros Didáticos e tem gente que acha uma benção quando a escola compra Apostila. Isso é uma aberração e gasto inútil do dinheiro público. Alguns reclamam que não há tempo nem espaço suficiente para tanto Conteúdo. Reclamam principalmente da “falta de interesse dos estudantes” e da “indisciplina”. Não entendem que é justamente este formato autoritário “de cima pra baixo” que aceitam e reproduzem que gera sem dúvida tais dificuldades de aprendizagem, pois não tem significado para os estudantes, não gera convívio a partir da curiosidade natural, não faz parte do seu cotidiano. É da autonomia do professor que se poderá dar exemplo para oportunizar a autonomia dos estudantes. E é essa a Valorização que estamos precisando muito além de melhores salários.

    9.     Porque até hoje não conseguimos dar o tratamento Didático da informação proposto no Volume 2 dos PCNs: AÇÃO= REFLEXÃO= AÇÃO? Porque não foram criados Procedimentos que permitissem esse tempo e espaço tão necessário? Não só individualmente, mas coletivamente? Hoje, a possibilidade de ação=reflexão=ação é bastante limitada por vários aspectos da organização escolar: 1. Cada pedagogo está isolado em sua “sala de aula”, sufocado no cumprimento do Conteúdo, provavelmente em dois períodos (duas turmas) pois precisa compor um salário minimamente aceitável; 2. Mesmo quando há um PPP que poderia aglutinar a Equipe Escolar, não há um tempo claramente destinado a essa interação, principalmente dada a enorme rotatividade de profissionais numa mesma escola, até num mesmo ano; 3. Pedagogos e Especialistas (Fundamental II) não dispõem de tempo para essa reflexão, pois as HTPCs, HTPIs e HTPLs não são suficientes nem colaborativas e quando são suficientes individualmente, são utilizadas para Cursos de Aperfeiçoamento que geram mais e mais teoria, inviabilizando a ação=reflexão=ação. Mantem-se a crença de que Pedagogos precisam de melhor Formação e Aperfeiçoamento enquanto a prática didática é que merece atenção, diálogo, vivência e permanente mudança. Enchemo-nos de teorias que nem serão praticadas pois não há tempo disponível para nos apropriarmos delas na prática e os exemplos de práticas de sucesso que já estão disponíveis é que devem fazer parte da Formação e Aperfeiçoamento dos educadores brasileiros. Fica a sugestão de utilizarmos esses 2/3 do tempo para analisarmos as ações, refletirmos sobre elas e atualizarmos as ações, pois só assim poderemos agir com as crianças e finalmente aplicarmos o critério de organização dos conteúdos em termos de USO= REFLEXÃO= USO. As HTPCs não são suficientes para a construção de um Projeto Pedagógico integrado, principalmente no ensino Fundamental II, pois os horários e o número de professores estão organizados individualmente e raramente se encontram. E, convenhamos, 2 horas semanais de encontros entre pedagogos do Fundamental I não é quase nada. E as horas que destinamos no início do ano para pensarmos a Escola junto com a comunidade são praticamente inexistentes. Gasta-se algum tempo fazendo um inútil Plano de Ensino pra inglês ver. Porque não é feito colaborativamente nem entre educadores, nem com a comunidade, nem com os estudantes além de não refletir as metas do PPP. Por isso não é possível usar, refletir e refazê-lo periodicamente. É mais um absurdo que mantemos não sei por quê.

    10.  Se a finalidade da Lista de Conteúdos por ano é fiscalizar a ação docente e classificar as Unidades escolares em estatísticas, precisamos rever nosso conceito de aprendizagem e de inteligência. Não é possível classificar um país vasto e diverso como o Brasil em estatísticas que só nos tiram a autonomia e gera frustração aos brasileiros, principalmente em se tratando de OCDE cuja única preocupação é a formação do estudante para o mercado de trabalho. Com a fluidez cada vez maior e mais frequente de tal mercado e com a iminente queda do capitalismo, precisamos focar na humanização do estudante para que ele aprenda hoje a SER tudo o que virá a ser no futuro, em qualquer área profissional onde deseje atuar com responsabilidade individual e social, de maneira sustentável e feliz. Assim, uma Base Comum Nacional não deve ser uma Lista de Conteúdos, mas sim um diálogo sistêmico e permanente de Princípios Educacionais Escolares e não Escolares estabelecendo sim Procedimentos sistematizados que se dão no chão da escola, mas junto com a comunidade local.

    11.  Se a solução para a aprendizagem dos estudantes está na implantação de mais uma Lista de Conteúdos Nacional, porque insistir nesta solução que já se sabe fracassada? Porque continuar a analisar resultados de aprendizagem através de estatísticas que não provam nada? Será que ao mudarmos o entendimento sobre o que é aprender, sobre a escola, sobre o estudante, sobre a Equipe Escolar, sobre a família, sobre as oportunidades a que estão expostos os estudantes de acordo com sua vivência no contexto sócio/econômico no século atual poderíamos criar Educação de qualidade e na integralidade para todos? É preciso ampliar a visão e sair da caixa. Isto sim seria útil enquanto reflexão para os brasileiros, mesmo os que não são Profissionais da Educação.

    12.  Se entendermos que a escola é basicamente a convivência entre as pessoas e seus valores; que a aprendizagem acontece nessa interação - ou não - de resposta às curiosidades naturais que as motiva; e, além disso, se dá de dentro para fora em cada estudante ou educador, será possível que haja então uma Base Nacional Comum previamente decidida e que esta sirva para definir a qualidade no Ensino desprezando o espaço onde ocorre a aprendizagem e seus protagonistas? Ou vamos incluir Nacionalmente todo estudante, sua família, Equipe Escolar? Essa utopia só pode ser praticada na localidade/comunidade se respeitarmos a autonomia proposta na nossa LDBEN. E também só pode ser praticada dependendo do tamanho do grupo.

    13.  Reclamamos do afastamento da família nas decisões e na construção da autonomia da escola, mas já paramos para pensar em COMO estamos convidando? Com nossos discursos mirabolantes, nossa interminável lista de conteúdos que muitas dessas famílias não APRENDERAM na escola quando a frequentaram, portanto não usam esses conhecimentos em seu cotidiano. Já tentamos mudar o velho discurso “quero que meu filho seja alguém na vida” analisando que eles frequentaram essa escola dos conteúdos e então... porque hoje não são alguém na vida?

    Há muito mais perguntas a fazer, pois não é tema que se esgota. Ele é permanente. Considero estas as principais. E gostaria de contribuir com minha reflexão até o momento e que já dura quase 40 anos como Professora especializada em Educação Infantil e como Pedagoga do Ensino Fundamental I.

    Sei o quanto é difícil sair desse formato antigo pois nele fomos educados. Longe de sermos hoje cidadãos que conhecem e agem de acordo com a Constituição Brasileira que determina:  “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade,” (...) e que determina:  “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

    A LDBEN também determina: “A educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores”.

    Abaixo, minha proposta:

    PROJETO “EU QUERO APRENDER...” (vem sendo construido desde 2006)

    CURRÍCULO BÁSICO PARA A VIDA, INTEGRALIDADE e SUSTENTABILIDADE

    A)    CONVIVER:

    1.     Conhecer-se para identificar sua facilidades e inteligências e saciar suas curiosidades e motivações, experimentando o grande prazer de aprender permanentemente aquilo que não sabia antes;

    2.     Conhecer-se para compreender suas reações emocionais frente às situações e aprender a conviver com elas e com os outros;

    3.     Conhecer-se para traçar planos pessoais de vida (sonhos), auto avaliar-se, identificar o que já sabe e o que falta e quer aprender em relação a seus planos;

    4.     Conhecer as outras pessoas, suas curiosidades, motivações, reações frente às situações e seus planos pessoais (sonhos) para agir com empatia e respeito às singularidades;

    5.     Aceitar o outro como legítimo outro na convivência para fundar o humano social (Maturana): não é preciso ser igual, pensar igual para conviver amorosamente;

    6.     Conviver amorosamente, compreendendo que a rejeição não funda o social e sim o individualismo e a exclusão;

    7.     Dialogar para ampliar a linguagem da convivência amorosa (Humberto Mariotti);

    8.     Dialogar para ampliar conhecimentos com o outro e poder realocar seus próprios conhecimentos prévios (Humberto Mariotti);

    9.     Compreender que: ”Viver é conhecer, é relacionar-se, é estabelecer vínculos de cooperação” (Humberto Maturana);

    10.  Compreender que viver é aprender permanentemente, de acordo com sua estrutura e organização internas, apropriando-se das situações do cotidiano, podendo ou não modificar seu fazer e até seu ser (autopoiese – Maturana).

     

    B)    SABER:

    1.     Para poder conviver com as pessoas através da linguagem das palavras de forma oral e escrita na língua materna e outras línguas estrangeiras significativas para si e para a comunidade, além das demais linguagens humanas deste século e outras que surgirão durante o período escolar, por exemplo: a linguagem artística, cultural, audiovisual, factual, emocional, corporal, espiritual, tecnológica, da localização temporal e espacial, digital, simbólica, do cálculo, da solução de problemas (matemáticos ou lógicos), da pesquisa etc.

    2.     Para poder satisfazer suas curiosidades através da leitura e da escrita de conhecimentos e saberes acumulados pela humanidade: conhecimentos matemáticos, científicos, culturais, astronômicos, climáticos, da arte, lazer e comunicação social, de localização no tempo e espaço etc;

    3.     Para poder pesquisar na língua materna e outras línguas estrangeiras significativas para si e para a comunidade e estabelecer relações entre fatos observados para analisar, criticar, sistematizar e propor ações de manutenção ou transformação;

    4.     Para poder registrar coisas que precisar para não depender apenas da memória no cotidiano;

    5.     Para poder registrar o que desejar comunicar a outros de forma não verbal.

     

    C)    FAZER:

    1.     Utilizar as diversas inteligências e as linguagens e conhecimentos prévios e/ou aprendidos na solução de situações do cotidiano (isso é ser inteligente) de forma autônoma, responsabilizando-se por suas decisões pessoais contidas nas decisões sociais – ética - e em qualquer profissão que venha a exercer;

    2.     Utilizar suas vivências e convivências prévias e/ou aprendidas na solução de situações do cotidiano (isso é ser inteligente) de forma autônoma, responsabilizando-se por suas decisões pessoais contidas nas decisões sociais – ética - e em qualquer profissão que venha a exercer.

     

    D)   SER SUSTENTÁVEL:

    1.     Desenvolver a capacidade de se manter dentro de um ambiente sem causar impactos indesejáveis a essa convivência, que se refletirá no seu grupo de convivência/vizinhança e a construção da cidadania transformadora e consicente de seus direitos e deveres individuais e sociais.

    REGINA POTENZA

     

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Regina Potenza

Regina Potenza

Regina Potenza é Professora especializada em Educação Infantil; Pedagoga pela FMU. Autora de “Cala boca...já morreu!” Atualmente na função de Professora da Rede Municipal de São Sebastião – SP onde já exerceu as funções de Direção e Coordenação Pedagógica. Reside em Boiçucanga e participa do “Grupo do Livro” que se reúne semanalmente para ler e conversar sobre a leitura de diversos títulos e diversos conteúdos e autorias. Integra também a Rede Românticos Conspiradores.