Educadores

  • 04

    MAI

    2015

    Com-Viver: Eis uma questão para além da democracia

    por Maria Regina Potenza em 04/05/2015

    Gente... sabe aquele lado macarrônico que todo mundo tem, mas usa moderadamente? Pois é, o meu despertou no dia 29/04/15 - Dia Internacional da Educação. DIA INTERNACIONAL DA EDUCAÇÃO!!!!!!!! E-DU-CA-ÇÃO!!!!!! Entendeu a extensão disso?

    Nem estive lá no Paraná, mas senti na carne as balas de borracha, senti no olho o gás lacrimogênio, senti o medo e o desespero de ser perseguida e indefesa. Senti a força do ódio atirado em humanos que bradavam por seus direitos. Senti a impotência de um incapaz diante do poder e do autoritarismo armado. Senti na pele a INJUSTIÇA, lembrei das que sofri na infância e na juventude. E nada se compara em grandeza.

    Nunca imaginei que presenciaria NOVAMENTE situações como essa, depois da Anistia nos anos 80.

    As emoções vieram fortes, descontroladas. Meu lado macarrônico xingou muito nesse dia. Jogou praga. Desejou vingança. Maquinou justiça. Procurou uma arma qualquer e tal qual supermulher voou pra cima dessa corja que envergonham brasileiras como eu. Não encontrei nenhuma arma de verdade no tamanho da humilhação então, lembrei-me de Gandhi: vou fazer greve de fome. E Satiagraha!... Satiagraha!... Satiagraha!... Repetia em minha mente.

     

    No dia seguinte li uma frase que me atingiu: “Estou doente com toda essa situação.”

    Colega... Estou doente também! Uma doença incurável: sou humana com sentimentos. E é por estar doente que não suporto mais tanta desumanidade ocorrendo pelo mundo e os autoritários se deliciando sadicamente com minha (nossa) doença. Ser humano, ter sentimentos virou doença nestes dias de horror.  Não suporto mais “falar com as paredes” literalmente. Perceber que ao meu lado imediato há pessoas que passam, olham e seguem como se nada disso tivesse havido ou, ainda pior, defendendo o autoritarismo como legítimo.

     

    Mais um dia depois, comecei a conversar com as emoções, conviver com elas e permaneço na condição de doente até hoje. Uma doença da qual não quero me desfazer, não porque não haja remédio, mas porque de autoritarismo estou farta. Então: Satiagraha! Responder com violência não faz meu estilo e nunca fará. Prefiro estar doente. E a saída pra continuar doente é ser humana e permanecer conversando com minhas emoções. É aprender a CONVIVER todo santo dia. Servir de exemplo para as crianças da minha turma, na convivência.

    Todos esses autoritários que hoje tem mais de 30, estiveram nas “carteiras” da escola da Ditadura. Nessa escola não havia diálogo, não havia respeito à diversidade, não havia emoções, não havia convivência. Além dos conteúdos que conseguiram memorizar, receberam exemplos e altas doses de:

    sadismo (riam das humanidades (diferenças, fragilidades, erros, fracassos) dos colegas junto com o professor),

    ambição desmedida (se digladiavam para ver quem tirava a melhor nota ou ganhava uma competição),

    arrogância (tendo dinheiro posso comprar o que quiser, até o diploma)

    não empatia (não estão nem aí se o colega tem emoções ou se se ferrou),

    esperteza (usa sua inteligência para se sair bem a qualquer custo, nem que seja passando por cima)

    E a última e talvez mais importante... opressão (já dizia Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.”)

     

    Passados quatro dias, estas ideias emocionadas vieram como jato de vômito. E Isso tudo explica, mas não justifica que pessoas ocupando altos cargos políticos, empresariais, na igreja, na comunidade etc, ajam como se seus direitos estivessem acima dos demais humanos, da ética e da moral. Aliás, vou incluir: acima da lei e da Constituição.

    Vão aprender a ser humanos pessoal!

    Urge aprender a CONVIVER: emocionar-se, ser empático, cooperativo, solidário, merecer respeito e respeitar a todos, usar a inteligência e os conhecimentos com responsabilidade e consciência social, ética e moral.

    Agora, se me dão licença, vou ali conviver com os humanos e já volto. Estou cozinhando todas essas emoções na mesma panela e está fervendo!

     

    ...

Regina Potenza

Regina Potenza

Regina Potenza é Professora especializada em Educação Infantil; Pedagoga pela FMU. Autora de “Cala boca...já morreu!” Atualmente na função de Professora da Rede Municipal de São Sebastião – SP onde já exerceu as funções de Direção e Coordenação Pedagógica. Reside em Boiçucanga e participa do “Grupo do Livro” que se reúne semanalmente para ler e conversar sobre a leitura de diversos títulos e diversos conteúdos e autorias. Integra também a Rede Românticos Conspiradores.