Educadores

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    OUT

    2015

    PROJETO: “EU QUERO APRENDER...”

    por Regina Potenza em 14/10/2015

    Assistindo a fala do Denis Plapler no Congresso On- Line Educar Transforma percebi o quanto estou farta de teoria e mais teoria, blá, blá, blá, blá! Faz algum tempo quero compartilhar meu Projeto "Eu quero aprender..." O projeto é fundamentado  na Carta de Princípios dos Românticos Conspiradores. Venho o desenvolvendo e atualizando desde 2006, após fazer o Curso "Fazer a Ponte". Consegui o resumir aqui - e mesmo assim é longo e não definitivo - acho que consegui escrever sua essência e as prioridades com a profundidade que merece. A intenção é inspirar o diálogo e provocar a necessária reflexão no cotidiano da escola e não ser apenas um modelo para copiar. Para ter acesso a mais informações baste entrar em contato pelo e-mail que encaminho a seguir:

    Lá vai!

     

    PROJETO: “EU QUERO APRENDER...”

    (Diversos documentos, fotos, uma horta, composteira, painéis e objetos verificadores também podem ser solicitados por e-mail)

    AUTORA E DESENVOLVEDORA: REGINA POTENZA – e-mail: repotenza@gmail.com

    LOCAL: EM de CAMBURI – REDE MUNICIPAL DE ENSINO DE SÃO SEBASTIÃO - SP

    O RESUMO, DO RESUMO, DO RESUMO

    COMEÇA ASSIM... POR PRINCÍPIOS (inspirados na Carta de Princípios dos Românticos Conspiradores)

    QUEM APRENDE É O APRENDIZ. (QUE, ALIÁS, SOMOS TODOS E PELA VIDA TODA).

    PRÁTICA PEDAGÓGICA: Fazer a ponte entre o que existe na escola pública e como mudar a aprendizagem. Apresento de forma lúdica e ilustrada o Quadro dos Conteúdos Básicos Municipais (conceituais, procedimentais e atitudinais) que foram construídos colaborativamente (e que são até razoáveis) a partir dos PCNs e das Matrizes de Referência da Provinha Brasil, da Prova Brasil e do SARESP, logo no início de cada ano letivo como ainda é organizado nosso sistema de ensino. Escolhi esta turma em 2013 que acompanho até hoje. Explico que são Expectativas dos adultos responsáveis pela aprendizagem em determinada faixa etária (ainda estão divididos em ano de escolaridade). Converso livremente para descobrir o que já sabem e quais suas curiosidades e desejos de aprendizagem a esse respeito, e vamos acrescentando outros interesses que não estão lá contemplados. Vamos escolhendo periodicamente, durante o ano, com bastante flexibilidade. Mas, priorizando a prática da Convivência e da Leitura nas diversas Linguagens Humanas atuais.

    APRENDER É MUDAR (O COMPORTAMENTO).

    PRÁTICA PEDAGÓGICA: Escrevemos na Folha de rosto do Portfólio individual: EU QUERO APRENDER... (cada criança escreve a sua) para mostrar aos familiares em reuniões durante o ano, obtendo sua participação e colaboração no processo de aprendizagem. Agrupamos, quando possível, por interesse comum em Temas de estudo ou Projetos para promover a integralidade na aprendizagem. Definimos prazos e estratégias para “Eu já sei”, podendo redefini-los sempre que necessário em comum acordo, decidindo estratégias variadas de apresentação do que foi aprendido. Por exemplo: exposições orais na própria turma ou em outra turma da escola apoiados ou não em recursos audiovisuais, “desafios”(os estudantes são questionados sobre o tema), dramatizações, exposições artísticas ou instrucionais, ou seja, a escolha para demonstrar que “eu já sei” é feita em conjunto e depende do tema escolhido pois deve contemplar as múltiplas inteligências. Às vezes, utilizamos testes de múltipla escolha que chamamos de “sondagem” para que eles tenham oportunidade de registrar com autonomia “o que eu já sei” sobre os conteúdos conceituais  para que analisem e decidam se há interesse naquilo “que ainda não sei” - é assim que tratamos o "erro", sem cunho classificatório de qualquer natureza. Praticamos também a Avaliação Externa Municipal além da Provinha e Prova Brasil e SARESP como parte da burocracia, no mesmo formato, sem cunho classificatório ou fins estatísticos.

    SÓ SE APRENDE (MUDA) O QUE SE DESEJA!... OU TEM “NECESSIDADE”. (PORQUE ÀS VEZES A NECESSIDADE GERA O DESEJO DE FAZER, SER, CONHECER O QUE ANTES NÃO SABIA).

    PRÁTICA PEDAGÓGICA: Exemplo de como uma aprendizagem/desejo puxa outra/o: Um dos temas de interesse comum desde 2013 quando eles tinham 5/6 anos de idade cronológica, foi: “O homem das cavernas” que nos provocou a busca de informações sobre a Teoria Evolucionista comparativamente a Teoria Criacionista (que eles conhecem através da Igreja); sobre Darwin; arqueologia; locais no mundo e no Brasil onde foram encontrados fósseis; sobre a “Lucy” e a “Luzia”; a Linha do tempo desde o Big Bang, passando pelo período da existência e extinção dos dinossauros (que eles adoram); o aparecimento do Homo, o descobrimento do fogo e a invenção de armas de caça e a mudança de coletor para agricultor e a vida em grupos até o aparecimento da escrita etc.

    Em 2014 assistimos à animação “Os Croods” e criamos uma apresentação teatral formando grupos para: a) sintetizar e escolher cenas e atores; b) escrever as falas para ensaio; c) sonoplastia; d) vestuário; e) cenário. Definimos data da apresentação, convidados e convites além da divulgação. Fizemos um cronograma de ensaios com leitura do texto teatral e memorização das falas, marcas de palco de cada personagem. Os demais grupos construíram vestuário, cenário e CD de músicas sequenciais. Foi muito prazeroso pra nós e para quem assistiu. Em 2015 avançamos na Linha do tempo, passando pela Idade Antiga onde nos detivemos na Mitologia grega por interesse comum (que eles gostam por causa dos nomes de heróis dos games e filmes) e demos uma rápida passada pela Idade Média, Moderna e Contemporânea, quando esgotou-se o interesse.

    APRENDER É “CONDIÇÃO” DE TODO SER VIVO. (E NÃO UM DIREITO OU DEVER= AUTOPOIESE - MATURANA).

    PRÁTICA PEDAGÓGICA: procuro incluir na rotina semanal e diária momentos em que as crianças estudam e brincam individualmente e/ou coletivamente. A rotina semanal foi introduzida no Projeto inspirada no Programa Ler e Escrever em substituição ao Semanário para compartilhar com os estudantes a responsabilidade pela Planificação da Convivência e do Estudo. Minha responsabilidade na rotina é, a partir dos Temas de interesse ou Projetos: Disponibilizar recursos e fontes de estudo, orientar a planificação individual ou coletiva, pensar estratégias desafiadoras e propor brincadeiras e jogos, orientar pesquisa, escolher perguntas provocadoras, interferir só quando necessário, confiando na condição de aprendizagem de toda criança.

    APRENDEMOS NA RELAÇÃO COM O MUNDO. (EMBORA A MUDANÇA VENHA DE DENTRO E SEJA SINGULAR E INDIVIDUAL, ELA ACONTECE NA CONVIVÊNCIA).

    PRÁTICA PEDAGÓGICA: durante o período em que estamos na escola, o convívio ocorre o tempo todo. E é na aprendizagem do diálogo que temos oportunidade de ampliar conhecimentos, atitudes e ações olhando fatos sob diversas perspectivas porque no diálogo aprendemos a OUVIR e RESPEITAR as ideias de todos sem julgamentos antecipados e assim poder ser criativos, inéditos, internalizando novos saberes. Porém, nem sempre a convivência é amistosa. Toda vez que ocorre um conflito, assumo o papel de mediadora como adulto responsável, ajudando a refletir sobre a emoção despertada em cada criança e em mim mesma, esclarecer motivos ouvindo e praticando o diálogo e a empatia para ser exemplo de comunicação não violenta, fundamental para a construção do social e da cidadania democrática. Sempre que necessário, fazemos Rodas de Conversa  no caso das crianças desejarem dialogar sobre valores e emoções e as atitudes correspondentes.

     

    ENTÃO, O PAPEL DO EDUCADOR E DA ESCOLA PODE SER:

     

    FOCAR NA APRENDIZAGEM (E NÃO APENAS NA ENSINAGEM OU NOS CONTEÚDOS).

    PRÁTICA PEDAGÓGICA: estimulo a planificação do estudo individual ou grupal, observando atenta e permanentemente o estágio de desenvolvimento de cada estudante na Convivência, na Leitura, na Escrita e no Raciocínio Matemático, especialmente a Leitura que é fundamental para a pesquisa autônoma e para a compreensão do mundo, além de seus interesses e curiosidades sobre temas escolhidos. Penso que a alfabetização linguística e o letramento, devam ser prioridade durante todo o ensino Fundamental e Médio, especialmente a Leitura, porque entendo que a aprendizagem sobre a Língua materna ocorre durante toda a vida e não só no período que o Sistema de Ensino determina.

    FUNDAMENTALMENTE DIALOGAR (NO SENTIDO DE OUVIR, ENTENDER, EMPATIZAR E CONSTRUIR CONSENSO, SINERGIA E CRIAÇÃO COLABORATIVA DE APRENDIZAGEM - HUMBERTO MARIOTTI).

    PRÁTICA PEDAGÓGICA: utilizo o máximo possível: Rodas de Conversa, Perguntas provocadoras, Projetos e Sequências de Atividades onde o diálogo traga a experimentação e pesquisa feita pelo estudante em grupo ou isoladamente, oportunidades de desenvolver permanentemente a autonomia (respeito às singularidades) e o diálogo (respeito às generalidades).

    APRENDER A CONVIVER EM CADA MOMENTO, PREFERENCIALMENTE NA AMOROSIDADE. (ACEITANDO O OUTRO COMO LEGÍTIMO OUTRO NA CONVIVÊNCIA QUE FUNDA O SOCIAL (MATURANA), POIS O OPOSTO DA AMOROSIDADE É A REJEIÇÃO DO OUTRO E SEU AFASTAMENTO).

    PRÁTICA PEDAGÓGICA: aprendemos convivência no dia a dia, convivendo. Portanto, ao adulto responsável cabe viver e conviver com amorosidade demonstrando equilíbrio emocional que significa aceitar todas as emoções humanas e saber lidar com elas como parte do convívio afetivo, além de buscar equilíbrio na rotina diária intercalando atividades individuais e coletivas, gerenciando espaços de aprendizagem existentes dentro e fora do prédio escolar, estabelecendo relação de confiança, respeito e colaboração entre todos os envolvidos - equipe escolar, estudantes, pais e comunidade- e mediando e solucionando conflitos.

    SISTEMATIZAR EXPECTATIVAS/POTENCIAIS DE APRENDIZAGEM (COMO ADULTOS RESPONSÁVEIS NA RELAÇÃO, BASEADOS NAS CIÊNCIAS HUMANAS E NÃO SÓ NAS ECONÔMICAS, BUSCANDO A INTEGRALIDADE DO VIVER E CONVIVER HUMANOS).

    PRÁTICA PEDAGÓGICA: procurar fazer a ponte entre os interesses de aprendizagem individuais e coletivos e as expectativas que os adultos tem em relação aos estudantes, promovendo a escolha de espaços, tempos e ritmos de estudo. Neste aspecto, orientar a família e convencê-la da importância desta mudança de foco para criarmos e desenvolvermos a autoestima que é fator crucial para a aprendizagem como condição de todo o ser e na manutenção da curiosidade natural do ser humano. Auxiliar cada estudante na busca de situações significativas e sustentáveis, para o exercício da cidadania desvinculado de interesses capitalistas, sempre no exercício da convivência colaborativa e não competitiva que funda o social humano.

    ACOLHER COM CONFIANÇA OS DESEJOS DE APRENDIZAGEM SINGULAR DE CADA APRENDIZ E DE SEU RITMO. (PARA ALÉM DAS EXPECTATIVAS DOS ADULTOS RESPONSÁVEIS).

    PRÁTICA PEDAGÓGICA: desenvolver a prática da Co-avaliação, a partir da planificação do desejo de aprendizagem que cada estudante definiu no seu tempo, focando especialmente “naquilo que já sabe hoje” (data definida por eles), tratando o “erro”ou “eu ainda não sei” como parte positiva e construtiva do processo de aprendizagem além da planificação permanente, sistêmica e significativa, envolvendo a família nesta atitude avaliativa sem fins classificatórios, competitivos ou de promoção.

    OBSERVAR AS MUDANÇAS COM O DEVIDO RESPEITO E APROXIMAÇÃO EQUILIBRADA, DE FORMA INDIVIDUALIZADA, SEM VALORAR, COMPARAR OU DEPRECIAR, COMPARTILHANDO O GRANDE PRAZER DO “INSIGHT”.

    PRÁTICA PEDAGÓGICA: manter atitude observadora ao processo de aprendizagem de cada estudante de forma empática, desenvolvendo a parceria, ajuda e cooperação entre todos, através de comentários que enfatizem individual e coletivamente aquilo que antes não sabiam, especialmente no que se refere à convivência e a alfabetização linguística e letramento que são fundamentais na aprendizagem de todo o restante. Registrar em Portfólio esses momentos especiais e partilhá-los com a família. Mas o mais importante de tudo isso é participar emocionalmente da alegria e do prazer desses momentos de “insight”/aprendizagem/mudança. São estes os momentos que nos inspiram e nos motivam a viver e conviver na educação a despeito de todo o resto.

    PROVOCAR A INTELIGÊNCIA NATURAL DE CADA APRENDIZ. (E ACATAR SUAS CURIOSIDADES SOBRE O MUNDO QUE VIVE, A PARTIR DA VALORIZAÇÃO DA FAMÍLIA, BAIRRO, REGIÃO, CULTURA LOCAL).

    PRÁTICA PEDAGÓGICA: envolver a família e a comunidade,  através de comunicação direta e acolhedora, naquilo que os estudantes “já sabem” e o querem aprender a cada momento, convidando-os a participar de pesquisas, entrevistas, passeios pelo bairro, visitas etc. Eliminar totalmente das reuniões com a família, momentos de críticas negativas às crianças. Quando houver necessidade da participação da família nesse sentido, por exemplo quando a criança é resistente ao convívio amoroso mesmo participando das Rodas de Conversa, promover encontros separados das reuniões para conversas francas, demonstrando interesse legítimo pela criança como um ser integral que aprende hoje o que poderá ser no futuro.

    ASSIM, APRENDER PODE SIGNIFICAR QUE:

    AO MODIFICAR-SE/APRENDER, O APRENDIZ CONSTRUA COM RESPONSABILIDADE E CONSCIÊNCIA SOCIAL O SEU PRÓPRIO FUTURO PODENDO EXERCER QUALQUER PROFISSÃO PELA QUAL VIER A SE INTERESSAR POIS ATRAVÉS DO INTERESSE TERÁ RECURSOS PARA BUSCAR CONHECIMENTO PERMANENTE.

    ASSIM, MANTENHA-SE EM ESTADO DE APRENDIZAGEM (MUDANÇA) CONSTANTE, SENTINDO O ENORME PRAZER DE FAZER, SER, CONHECER O QUE NÃO SABIA ANTES.

    VENHA A SE RECONHECER, ACEITAR-SE E USAR SUAS MELHORES POTENCIALIDADES, HABILIDADES E ESTRUTURA PARA VIVER O PRESENTE, PODENDO ASSIM TRANSFORMAR SUA REALIDADE E A REALIDADE SOCIAL ONDE CONVIVE OU CONVIVERÁ.

    TOME DECISÕES QUE PROMOVAM A HARMONIA INTERNA, INTERPESSOAL E SOCIAL PARA CONSTUIR SEU FUTURO SUSTENTÁVEL E AMOROSO, COM QUALIDADE DE VIDA, EMPATIA, SOLIDARIEDADE E DE FORMA COLABORATIVA E DEMOCRÁTICA.

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Regina Potenza

Regina Potenza

Regina Potenza é Professora especializada em Educação Infantil; Pedagoga pela FMU. Autora de “Cala boca...já morreu!” Atualmente na função de Professora da Rede Municipal de São Sebastião – SP onde já exerceu as funções de Direção e Coordenação Pedagógica. Reside em Boiçucanga e participa do “Grupo do Livro” que se reúne semanalmente para ler e conversar sobre a leitura de diversos títulos e diversos conteúdos e autorias. Integra também a Rede Românticos Conspiradores.