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Regina Pundek

Regina Pundek

Escritora, Professora da Educação Infantil, Diretora Pedagógica, Psicopedagoga, Engenheira Civil, Educadora apaixonada pelo respeito ao Ser Humano.

  • 04

    JUL

    2017

    Ai que medo - Educar para Autonomia

    por Regina Pundek em 04/07/2017

    No avião voltando pra SP,  julho de 2017

    Sentei na poltrona 1F, janela.

    Dia de brigadeiro, céu lindo, azul ardido.

    Oba, vai dar pra ver tudo aqui de cima.  Floripa é imbatível.

    Tomara que ninguém sente ao meu lado. Tomara!

    Estou precisando de um tempo só comigo.

     

    Sentaram... A mãe no corredor e o rapaz no meio.  

    Sotaque carioca, que me encanta. Falantes.  Sentaram discutindo alto.

    Ouço o rapaz sendo grosseiro com a mãe.

    Logo antes de decolarmos a comissária diz:

    Senhor, por favor sua bagagem não pode ir no chão.

    Eu também acho! O quer que eu faça? Não tem lugar no compartimento.

    O senhor  pegue sua mala e me acompanhe, vou encontrar um lugar.

     

    Silêncio. Tudo que quero.  Olho o meu “pedacinho de terra” lá de cima e começo meus clicks. Percebo então que o jovem já está de volta com seu celular ao lado do meu, clicando também, viro meu rosto em sua direção, mas ele não me olha, me evita.

    Melhor. Sua antipatia me garante o silêncio que desejo.

    A mãe lhe pede algo e ele responde atravessado.  Levanta e vai sentar no 1A, a janela oposta a minha, do outro lado do corredor.

    Que bom! Tô apostando no silêncio, mas me distraindo com tanta movimentação.  

    Me volto para a janela. A ilha me emociona. Lá vem as lágrimas usuais de cada retorno.

     

    Senhora, esse iPad é seu? - me questiona a comissária apontando para o compartimento à minha frente.

    Sim, é meu.

    Ah, desculpe. Achei que alguém tinha esquecido aí e chamei a comissária. - justificou- se a mãe.

    A comissária sorri, sem graça. Viro o rosto pra janela e respiro fundo.  Quero me acalmar. Quero silêncio.

    15 minutos depois pego meu iPad coloco no colo e encerro um texto já iniciado. Registros de viagem.  

    Não dou chance da mãe me pegar pelo olhar. Evito-a como posso.

     

    16:00 hs o piloto avisa que estamos em processo de aterrissagem.

    Coloquem as poltronas na posição vertical, fechem a mesa a sua frente e mantenham o cinto de segurança afivelado.  

    São Paulo está gritando linda lá embaixo.  O rio Pinheiros espelha a cidade. Pego o celular para registrar e ouço:

    Você também vai para o Rio?

    Não, moro em São Paulo. Olha como está linda!

    Lindo é o Rio.

    É. E Florianópolis é maravilhosa! - a reação me vem impensadamente.

    Tenho um neto de cinco anos em Florianópolis. Fomos lá visitá-lo. Você pode me dar uma sugestão?

    O que? - o que essa desconhecida quer comigo?

    Sh Sh, fala baixo, não quero que ele ouça - apontando o filho do outro lado do corredor.  

    Me dá uma sugestão. Eu deixo de pagar a pensão pro meu neto ou paro de pagar as viagens do Rio pra Floripa.  Pago dois salários por mês e as passagens são muito caras, esse mês gastei 1800 reais.

    Mas se parar de pagar pensão teu filho vai preso!

    Vai não. Ele é desempregado! Não tem como o juiz tirar dinheiro de desempregado, tem?

    Eu que pago tudo. Tenho outro filho deficiente, cadeirante e minha mãe de 91 anos mora comigo.  Não tenho marido. Não tá fácil. A garota diz que eu minto, mas é tudo verdade.

    No que você trabalha?

    Sou veterinária. Ele também é veterinário, mas não quer trabalhar com isso.

    E pra que essa história de parar de pagar pensão?

    Eu quero que a garota, a sem vergonha da mãe do meu neto, permita que ele viaje sozinho pro Rio pra nos visitar.  Você acha que se eu parar de vir visitar ela vai mandar o garoto?

    Minha filha tem dois meninos. Ela não ia gostar nada deles viajarem sozinhos.

    Mas o meu neto é esperto.

    Os meus netos também são espertos, mas minha filha não ia gostar não.

    Ãh?... então como vou fazer? Sabe que viemos passar três dias com ele e ela infernizou a nossa vida. Um dia não o vimos porque disse que tinha festa junina na escola e noutro piquenique com amigos. De três dias só o vimos um. Meu filho está P da vida.  Ele é muito estressado, ficou surfando pra se aliviar. Mas essa garota é horrível, faz a cabeça da criança. Tá gastando o meu dinheiro com a outra menina.

    Que menina?

    Ela casou de novo e teve uma menina. Casou com um gordo inútil.

    É. Mas, teu filho é magro e não está com ela.

    Ãh? … Se eu parar de mandar meu dinheiro eles vão ter que se virar. Ela não trabalha e nem esse marido.

    Você vai acabar perdendo seu neto.

    Ah? … O que faço?

    Eu sugiro que busque a paz.

    Como?

    É. Faça de tudo pro teu filho se relacionar bem com a ex esposa.

    Essa sem vergonha nunca foi e nunca vai ser esposa dele!

    Mas são vocês que estão querendo ver a criança, não é ?!

    Eu sei, temos direito.

    O teu filho tem direito e ele tem obrigação de pagar pensão. Fez o filho com ela!

    Mas, o meu filho também não quer ter paz com ela. Eles só brigam. Ele é muito nervoso.

    Ah, então acho que ele ainda a ama. Deve estar sofrendo porque ela casou com o outro.

    Que nada! Ela é insuportável!

    Olha, não tem relacionamento de nora e sogra que dê certo assim com tanta interferência.

    Que?

    Eu tô te sugerindo sair de cena. Deixa eles se virarem. São adultos, tem que arcar com as consequências de seus atos.

    Que nada. A mãe dela vive se metendo na história, uma encrenqueira. Uma mulherzinha intrometida, que não deixa meu filho fazer o que quer.  Fica incentivando a filha a tirar nosso dinheiro, e a ensinar o menino a não querer ficar com a gente.

    Nossa. Isso não vai ter jeito não.

    Não?

    Vocês gostam de brigar.

    Que nada. Isso tudo é porque eles  têm inveja do meu filho porque ele é playboy, sabe. E eles têm que trabalhar. Coitados!

     

    Aterrissagem perfeita.  O jovem pai levanta e busca sua mala antes da autorização. A comissária chama sua atenção, ele responde: já estou sentando.  A mãe finge que não viu nada.

    Ao sermos autorizados a sair da nave, mãe e filho levantam impetuosamente e se colocam  na porta, precisam ser os primeiros a sair.  

    Vamos fazer conexão pro Rio. Temos mais um voo. Foi um prazer, obrigada!

    Me fala ela piscando, como quem diz: temos um segredo.

    Eu espero que saiam antes de levantar. Quero distância.  Mas não deixo de pensar: qual será o segredo que tenho com ela?

    Tudo tão singular.  O tal silêncio desejado foi trocado por essa história toda ensurdecedora.  Tenho certeza de que vou ficar ruminando. E, eu ainda precisava disso, é?

     

    Lá fora minha filha me aguarda. Abraço bom, apertado. Cada uma inteira na sua história, tanto pra trocar.

    Descemos as escadas rolantes para o estacionamento e ouvimos um chorinho de manha. Nós duas buscamos pra ver de onde vem.  

    Uma criança de uns 6 anos no colo de uma mãe pequena e magrinha, chora sem lágrimas. A mãe a mima com afagos.

     

    Ai que medo!

     

    ...