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    MAI

    2017

    Os Relacionamentos e o Tempo - Educação Infantil

    por Regina Pundek em 15/05/2017

    Gosto de assistir  filmes em curta metragem durante a semana, quando chego do trabalho.  Em geral são produções que oferecem bons desafios de reflexão e, embora cansada da rotina diária aprecio o “ganha-tempo” e não o passa-tempo.

    O relato abaixo se refere a um desses momentos. Um filme francês chamado “ Lê Goûter".  Apreciem:

    Um pai é chamado à escola de seu filho de oito anos porque o menino envolveu-se numa briga com um colega de classe.   O diretor da escola decide dar uma suspensão aos dois envolvidos sem julgar quem tinha ou não razão. O pai do menino em questão desespera-se.  É um homem separado e tem a guarda da criança.  Precisa trabalhar.  Com quem deixará o menino diariamente durante uma semana?  Sua angústia só se resolve quando telefona para seu pai, de 84 anos e este concorda em ficar com o neto durante os dias em que foi suspenso.

    Dentro do carro, a caminho da casa do avô, o pai zangado grita com o filho, dizendo-lhe que não deve brigar, não deve bater nos colegas.  O filho tenta argumentar, contar o ocorrido, porém o pai não quer ouvir.  O sangue do machucado nos lábios do pequeno ali permanece seco, da mesma forma as possíveis lágrimas de seus olhos infantis não encontram vazão em abraço ou aconchego. O menino cala.

    Quando chegam à casa do avô, a mesa do lanche está posta com esmero.  Ele pensou nas guloseimas que agradariam a criança.  Assim que o pai vai embora para o trabalho, enquanto o menino se delicia devorando os bolos e chocolates, o avô pergunta o que acontecera. Ele ouve o neto. Interessa-se pelos detalhes, questiona os sentimentos envolvidos.  Então lhe ensina alguns golpes de luta, golpes de defesa e de ataque. Orienta que o pequeno treine em sua própria casa, com travesseiros e almofadas.

    Mais tarde, enquanto o avô lê seu jornal, o menino encontra uma fotografia e questiona quem são as pessoas retratadas.  O avô então relata a triste história de seu primeiro casamento. Sua esposa e seus dois primeiros filhos que foram mortos na segunda grande guerra, sob os seus olhos.  

    - Vô, por que eu nunca soube desta história?  

    - Agora você sabe.  Você é a terceira pessoa a quem conto esta história.  Primeiro contei a sua avó, depois a seu pai e agora pra você.

    - Você odeia os homens que mataram sua primeira família?

    - Eu decidi não ser igual a eles.  Decidi não ter ódio dentro de mim.  Eu os perdoei.  O tempo me ajudou neste sentido.

    - Vô, você acha que eu devo perdoar o colega que me bateu hoje?

    - Você tem que avaliar.  Se ele é malvado e você perdoar, ele vai te bater sempre.  

    - Você está me deixando confuso. Você perdoou aqueles homens que mataram seus filhos e sua esposa...

    - VOCÊ é quem tem que decidir o que  fazer da sua história!  Eu só estou lhe contando a minha, não estou lhe dizendo o que você tem que fazer...

    No final do dia, quando o pai retorna para buscar o filho, encontra-o silencioso, sentado a pensar.  Então pergunta ao seu pai:

    - O que ele está fazendo?

    - Ruminando -  é a resposta.

    O neto beija a face do avô, que lhe sorri e diz:

    - Amanhã lhe ensinarei alguns golpes de karatê.

    O menino corresponde ao sorriso e sai com seu pai.

    Esta história propõe a reflexão sobre  relacionamentos e tempos.  O pai não tem tempo.  O avô tem tempo.  O avô ensina o neto a lutar, mas não aponta um único caminho.  Ele fala em ataque e defesa.  Em agressão e perdão.

    Temos que ruminar....

    ...

Regina Pundek

Regina Pundek

Escritora, Professora da Educação Infantil, Diretora Pedagógica, Psicopedagoga, Engenheira Civil, Educadora apaixonada pelo respeito ao Ser Humano.