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  • 04

    JUN

    2015

    Que país é esse?

    por Regina Pundek em 04/06/2015

    Um esquilo passou correndo em frente ao meu carro, em plena Rodovia Raposo Tavares. Ele ficou ilhado, no ponto do ônibus no km 23. Minha reação foi imediata, mas impensada. Freei bruscamente e por alguns segundos fiquei olhando para aquele animalzinho indefeso e assustado, sem saber o que eu poderia fazer. As buzinas dos carros que vinham atrás de mim me tiraram daquele momento letárgico. Tive que dar a partida. Carrego ainda a sensação de incompetência que me invadiu, assim que meu campo de visão perdeu o esquilo. Mas minha tela mental está gritando até hoje. A última vez que estive na praia vivi outra situação semelhante. Lá vinha caminhando descompassadamente uma enorme ave, a mim desconhecida. Sem rumo certo, sem defesa e com um comportamento totalmente distorcido, o tal pássaro se aproximava das poucas pessoas que ali estavam. Grasnava como a agredir quem o tirara de seu habitat. Peguei meu celular e liguei imediatamente para minha filha, que é veterinária. Ela me orientou a jogar minha canga sobre a ave e tentar pegá-la no colo para que pudéssemos encaminhá-la ao IBAMA. Um encaminhamento correto para uma situação triste. Têm sido comum no terreno baldio ao lado da escola em que trabalho, aparecerem diversos saguis que ficam ali por um tempo a gritar. As crianças ficam encantadas. Tivemos a orientação de não alimentá-los para que não se acostumem com a aproximação humana. Estive no centro de São Paulo num domingo de chuva em novembro último. Estava indo ao teatro com meu filho, para assistir um Festival de Dança de Contato e Improvisação. Como nos perdemos acabamos estacionando longe e tivemos que caminhar pelas ruas invadidas de mendigos amontoados sob as marquises para protegerem-se da chuva. Tínhamos que cuidar onde pisávamos, pois eram corpos deitados lado a lado. Mulheres, crianças, velhos, jovens. Pessoas como nós. E subitamente, largado na chuva um homem bêbado inerte jazia, correndo o risco de hipotermia. Parei ao seu lado na intenção de no mínimo tirá-lo da chuva, mas o dono do bar em frente correu ao meu encontro me impedindo de agir, me garantia que eu me cercaria de sérios problemas se me envolvesse com aquela situação. Estamos realmente num momento de crise, há histórias tristes por todos os lados. Falo de uma crise de humanidade, mas ainda temos outras crises como a hidráulica, energética, social e política que estão avassalando o país. Vale ainda mencionar que o número de assassinatos no Brasil que ultrapassa o de mortos nos países em guerra – uma verdadeira guerra civil! Onde buscar a solução? No que acreditar? Algumas pessoas entendem que é hora de abandonar o barco e buscar outro, com outro capitão e marinheiros. Pois é, as crises estão mesmo provocando o abandono de nossos habitats. Precisamos urgentemente encontrar respostas – a história nos mostra que civilizações em crise descobriram melhores ferramentas e estratégias para lidar com o momento. O homem só chegou onde chegou porque tem uma capacidade muito peculiar, a resiliência. Resignação? Acomodação? Jamais! A nossa indignação não pode calar! O ser humano precisa rever suas prioridades, necessidades e urgências. Não podemos simplesmente ficar aguardando o surgimento uma liderança democrática, limpa e justa, que magicamente resolva tantas questões. A resposta está em cada indivíduo, em cada cidadão. Em cada família, em cada bairro, em cada município... Anseio que a alegria que nos caracteriza como povo e se declara tão veementemente no carnaval, seja também fonte de energia que nos faça reconhecer uns aos outros e assim agir em benefício de todos!

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Regina Pundek

Regina Pundek

Escritora, Professora da Educação Infantil, Diretora Pedagógica, Psicopedagoga, Engenheira Civil, Educadora apaixonada pelo respeito ao Ser Humano.