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Sami Elia

Sami Elia

Sami Elia é escritor voluntário do Portal do Educador.

  • 24

    NOV

    2015

    O que acontece quando os estudantes assumem a escola?

    por Sami Elia em 24/11/2015

    Relato de uma visita a escola estadual Neyde Sollito.



     

    O anúncio da reorganização das escolas estaduais de São Paulo, imposta pelo governo estadual sem um aprofundado diálogo com alunos e comunidade provoca uma reação muito maior que a sua causa.

    Na escola ocupada Sollito, localizada na zona Sul de São Paulo, participei de uma roda de conversa com as alunas Mayara Leite e Fernanda Braga. Começamos pelo trivial, os motivos da ocupação. Elas me explicaram algumas das evidentes consequências da reorganização: dificuldade logística para as famílias, prejuízo na falta de interação do mais novos com os mais velhos, aumento do número de alunos por classe e por professor e a quebra do vínculo do estudante com sua escola. Até então o discurso representava muito do que vi e ouvi na grande mídia e como não quero ser repetitivo encerro por aqui a análise sobre as justíssimas motivações dos estudantes para esta série de ocupações.

    Mas ao observar atentamente o que está acontecendo dentro da escola, resolvi fazer um questionamento mais amplo visando a identificação de interesses (muitas vezes ainda latentes) por traz de cada movimento, cada ação, e felizmente na Sollito são muitas ações, entre elas:

    1 As decisões estão sendo tomadas em conjunto, de forma democrática. A decisão do fechamento das escolas foi um símbolo da completa falta de autonomia dos alunos e da comunidade, subverter essa dinâmica expõe a real necessidade da democratização da escola.



    2 As aulas estão acontecendo em rodas e no formato de oficinas. Segundo Mayara e Fernanda uma oficina de capoeira realizada no dia da consciência negra começou pela história do povo negro em diferentes perspectivas, o que envolveu e interessou os alunos. Até quando as aulas serão enfileiradas, com grades fixas e presas num currículo fechado que afasta e desestimula?



    3 Pessoas felizes usavam o espaço livremente (skate, futebol, Ping Ping, nossa roda de conversa). Existe algum indicador de felicidade? Se não, deveria.



    4 A comunidade está doando e participando das atividades e os alunos estão pensando atividades na comunidade. Foi reforçada a identificação entre escola e comunidade, um entendimento de que a escola não está na comunidade, ela é da comunidade.



    5 Os alunos se orgulham e valorizam a escola. Quando está sujo, limpam, desarrumado, arrumam, desorganizado, organizam. O compromisso, quando existe de fato um sentimento de pertencimento, é tão intenso que vai além da rotineira manutenção regular, na Sollito estão sendo realizadas até reformas pelos alunos (vestiário, horta, quadra).

     


     

    6 Os alunos se posicionam politicamente contra o fechamento da escola. Uma aula de cidadania e democracia.

    Finalmente as escolas (ocupadas) estão desenvolvendo uma educação inclusiva e de qualidade, respeitando a individualidade e interesse dos alunos e desenvolvendo a possibilidade de produção e construção de conhecimento, uma filosofia moral própria pautada no coletivo, na comunidade, nas relações sociais e nas relações de poder dentro do território. Graças à incompetência do governo estadual ficou comprovado que a construção conjunta da educação (escola e comunidade) é possível e também é muito melhor. 

     

    Espero que o governo tenha a humildade de não só perceber que é necessário uma discussão mais ampla com a comunidade no tema da reorganização, mas também reconhecer que as práticas educacionais precisam ser revisitadas, e se não for pedir muito, espero que comecem por aprender com os próprios alunos.

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