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    JUL

    2015

    Da CONAE para CONANE: Entrevista com educador e historiador Diogo Garcia

    por Redação em 27/07/2015

    O Educador e historiador Diogo Garcia representou a cidade de São Paulo na etapa estadual da Conferência Nacional de Educação e atualmente atua como membro da coordenação da Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação. Em entrevista ao portal nos contou como enxerga estes dois movimentos e as possíveis reverberações para evolução das políticas públicas de educação no Brasil.

    Portal do Educador: Poderia nos contar um pouco sobre sua trajetória como educador?

    Minha trajetória como educador começou em 2003, em uma escola estadual localizada na periferia da cidade de Taboão da Serra, São Paulo. Cheguei na escola com uma amiga para fazermos o estágio da faculdade e quando a coordenadora nos avistou agradeceu a Deus por nossa presença, nos entregou uma pilha de livros e nos mandou para a 5ª série D. Era a sala do Custódio, um garoto maior do que seus colegas e que entrava e saía quando queria, escondia material dos colegas e distribuía tapas gratuitamente. Sempre faltavam professores e todos os dias eu substituía alguém. No ano seguinte, passei no concurso do Estado e lecionei por dez anos na mesma escola, Profa. Lucia de Castro Bueno, também no Taboão da Serra. Em 2012, passei no concurso da Prefeitura de São Paulo e comecei a trabalhar na EMEF do CEU Uirapuru; além disso, comecei a trabalhar em uma escola particular localizada em Cotia, o Colégio Viver. No ano seguinte, cansado do ritmo frenético de trabalhar em três escolas, me afastei no Estado, vindo me exonerar mais tarde. No CEU Uirapuru, entrei como professor de História, lecionando para turmas da 5º à 8º séries, e depois assumi o Laboratório de Informática para as turmas do 1º ao 5º anos, onde permaneço até hoje. No Colégio Viver, também entrei como professor de História e hoje leciono na área de Humanidades, além de Projeto Pessoal, Informática e Assembleia. Também integro a equipe de coordenação do colégio.

    Portal do Educador: Como foi sua participação na CONAE? E na CONANE? Como enxerga estes dois movimentos? Acredita que podem caminhar juntos para transformação da educação pública no Brasil?

    Participei da CONAE 2014 (Conferência Nacional de Educação), nas etapas municipal e estadual. Me envolvi nessa conferência através da prefeitura. Foi uma ótima experiência: nos encontrávamos para debater o Documento-Referência, estruturado em sete eixos, convidando pessoas com experiência no tema relativo a cada eixo. Participavam educadores, pais, estudantes universitários, pessoas de movimentos sociais, funcionários do CEU Uirapuru, do CEU Butantã, da Diretoria de Ensino do Butantã. A professora Sonia Kruppa, da USP, também participava dessas reuniões. Nos dividimos por eixo para aprofundarmos a discussão com intuito de levarmos propostas para a CONAE Municipal. E assim foi: apresentamos muitas emendas e novos parágrafos para serem debatidos na etapa municipal. Ela ocorreu durante três dias. Nos inscrevemos por eixo, discutíamos, votávamos e depois levávamos a discussão para a plenária final. Obviamente, foi pouco tempo, mas tínhamos ainda mais duas etapas. Ao final, e depois de muita controvérsia, foram eleitos os delegados para a etapa estadual. Lá fui eu participar mais uma vez, agora em Serra Negra. Lá chegando, começou minha desilusão: muitos delegados (professores, estudantes, pais, representantes dos movimentos sociais) haviam ido como turistas, não para discutir a educação no Brasil. Se os três dias da etapa municipal foram poucos, os três da etapa estadual foram ainda menores. Na última noite, de sábado para o domingo, veio mais uma decepção: observei movimentos de bastidores, reuniões de grupos pequenos, grupos grandes, todos tentando costurar acordos para a eleição dos delegados para a etapa nacional. Eu, de certa forma ingenuamente, acreditava que aquele era um espaço político por excelência, ou seja, um espaço de construção e discussão de assuntos públicos, não um espaço para manobras e interesses privados. Acreditava que os delegados deveriam ser escolhidos entre aqueles que tinham maior conhecimento da causa e maior capacidade de argumentação. No dia seguinte, após a aprovação de emendas e parágrafos novos, ocorreu a eleição dos delegados para a etapa nacional. Dessa vez não me candidatei, e já tinha me dado por satisfeito por ter participado até aquele momento. Obviamente que não quero aqui desqualificar os representantes que foram à Brasília para a etapa nacional, mesmo porque foram pessoas muito competentes - como as professoras Sonia Kruppa e Lisete Arelaro, além de conhecidos meus - mas não posso deixar de sublinhar o quanto me senti num microcosmo representativo de como são pensadas, organizadas e discutidas as políticas no Brasil. Além disso, foi possível uma reflexão sobre os conflitos de interesses e a correlação de forças que movimentam assuntos de interesse geral.

     

     

    Da CONANE 2013 (Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação) não participei, infelizmente. Mas pelo que sei, e pelo que tenho acompanhado agora na organização da CONANE 2015, é uma conferência de extrema importância para promover o debate dos caminhos que queremos para a educação brasileira. Acho que os dois movimentos são complementares: a CONAE trata mais de políticas públicas, tem um poder maior para influenciar a pauta junto aos governos, e a CONANE trata mais de práticas pedagógicas, de propostas concretas que acontecem junto às escolas, aos movimentos sociais, aos espaços educativos não-formais.

    Acredito que as duas conferências são essenciais para a transformação da educação pública no Brasil. Qualquer transformação nesse sentido tem de se alimentar de dois movimentos: de cima para baixo, ou seja, das políticas públicas para as escolas, movimento representado pela CONAE; e de baixo para cima, isto é, das práticas pedagógicas para as tomadas de decisões pelos governantes, onde a CONANE pode desempenhar papel relevante.

    Portal do Educador: Qual sua expectativa em relação à CONANE 2015?

    Minha expectativa em relação à CONANE 2015 é justamente que ela possa contribuir para a pauta das inovações pedagógicas, das práticas educativas, que ela possa de fato influenciar os gestores da educação e que eles se sensibilizem para os apontamentos que estão sendo realizados. E também que esses gestores levem essas discussões para a educação pública e fortaleçam o debate das questões levantadas, comprometendo-se com as mudanças e com um projeto educacional para nosso país. 

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