Redação

Combate ao Racismo

Pesquisar

Pesquisar

  • 03

    DEZ

    2015

    A hora da verdade

    por Regina Pundek em 03/12/2015

    Primeira história:

    - Regina, tem uma chita lá no quintal.  Levanta rápido e vem comigo. Temos que salvar as crianças e as professoras! – me disse o João, de 6 anos, com a convicção de quem acredita no Papai Noel, no Coelho da Páscoa, na Fada do Dente e em todos os Super Heróis e Princesas.

    Confesso que tive que pedir que se acalmasse até que eu descobrisse no google que a chita é uma espécie de tigre muito veloz.

    - Mas, então vamos lá avisar as professoras para que subam com as crianças! – eu falei pra ele

    - Não! Vão ficar todos muito assustados – me alertou ele.

    - Então o que faremos?

    - Vamos até o zoológico buscar um elefante que lutará contra a chita e vencerá ao esmagá-la com suas enormes patas! - essa solução saltou de seus lábios com a velocidade de uma chita, hehehe.

    - Mas, João, como vou colocar um elefante no meu carro? – devolvi-lhe o problema, tentando não rir.

    - Err, não vamos colocar no carro.  A gente vem montado nele, vó!

    Nisso a professora chamou para o lanche e eu relatei a ela o problema.  Então ela disse: - Vem tomar o lanche João, enquanto eu penso como vamos solucionar isso. Meu marido é biólogo, pode nos ajudar.

    Ufa, fui salva, pensei.  No dia seguinte ele me contou que a Chita seguiu o carro de sua mãe e agora mora na mata ao lado de sua casa; ficou sua amiga e o protege de grandes perigos.

    Segunda história:

    Hoje o Beto me disse que não gosta de caminhar pelas calçadas do bairro porque tem medo de ladrão. O assunto silenciou o grupo de 14 crianças, que arregaladas me olhavam com esperança. Então o Bruno tomou a palavra e contou que sua mãe o ensinou que se aparecer um ladrão é para ele entregar o que o ladrão pedir.  O Beto imediatamente perguntou o que faria se o ladrão lhe pedisse dinheiro. Nunca tenho dinheiro, disse ele.   Todas as outras crianças me olharam esperando que eu tivesse uma grande resposta. Quem dera eu fosse uma fada, pensei. Mas não sou, tive que voltar para a realidade. Eu disse: O pai do Júlio, que é policial, tem me contado que cada dia mais a polícia vem trabalhando bem e, que os ladrões estão sendo presos. Então falamos sobre as penitenciárias.  E, eles me perguntaram o que os presos ficam fazendo lá.  Eu contei que lá é um tipo de escola e que, os presos precisam aprender muitas coisas, entre elas a serem bons, a conviver pacificamente e a fazer coisas úteis.  Ainda bem que o ponteiro grande do relógio chegou no 6 e o Gustavo disse: Tá na hora de descer para o almoço! Pensei de novo: ufa, fui salva!

    Reflexão:

    Essas duas pequenas histórias ilustram bem a mente infantil em seus desejos, fantasias, anseios, receios.  E fica clara a necessidade de que os adultos percebam como agir para respeitar a criatividade e ingenuidade da fantasia e, proteger as crianças dos temores da realidade violenta, para que cresçam plenos, fortes, convictos de que o mundo é belo e de que viver é bom.

    Muitos adultos questionam quando falar a verdade para as crianças. Eu acredito que o tempo age contribuindo para o compreensão. Cada vivencia é uma peça de um quebra cabeças que a criança vai montando.  É preciso respeitar a imaginação e a fantasia que asseguram bem estar e desenvolvimento de criatividade.  E, também acredito que é preciso proteger as crianças de informações sobre a agressividade humana. E, além disso tem-se que acalmar o coração daqueles que indevidamente, foram expostos à dura realidade social.

    A mim, particularmente, descobrir que o Papai Noel é uma fantasia me outorgou a saída do status infantil para o mundo dos adultos. Me senti importante, parceira, guardando um segredo.  E, o contrário aconteceu quando aos nove anos li o conto: A Vendedora de Fósforos, de Andersen.  Eu não conseguia me conformar com a triste realidade que se abate sobre tantas crianças que não têm um bom Natal porque são pobres, famintas e sem aconchego. Durante muitos anos eu não gostava do Natal, porque não conseguia suportar a realidade social. Me sentia traída pelos adultos que pareciam não ver o que eu via.

    Revelar a verdade pode ser um problema. Se o que desejamos é proteger as crianças de frustrações, que aprendamos a respeitar seus tempos, ouvir suas perguntas e responder somente o que é questionado.

    Querem saber? Gosto de sonhar que o Papai Noel um dia vai mesmo me trazer uma varinha mágica que num único plim acabará toda a violência e pobreza do planeta.  Seria bom, hein?

     

     

    ...

    Regina Pundek