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    FEV

    2016

    A língua escrita: bruxa ou fada madrinha?

    por Ângela Franco em 26/02/2016

     

    O domínio da linguagem escrita sempre foi uma preocupação da escola, dos pais e dos alunos.

    Escrever bem tem sido sinônimo de escrever certo, isto é, ortografia impecável, concordância adequada, regência perfeita.

    Vê-se, em todos os setores, a luta entre  o escritor e o objeto de uso, a linguagem escrita, em que o sujeito/escritor, quase sempre, sente-se como um eterno derrotado, e o objeto de uso, a língua escrita visto como a bruxa malvada, difícil e impossível de ser conquistada.

    Por que essa luta?

    Por que a sensação de fracasso?

    A língua escrita na escola tem sido apresentada de forma fragmentada, hierarquizada, em linguagem altamente técnica, por meio de  exercícios difíceis, textos complicados. A alfabetização é  entendida,  na maioria das vezes,  como codificação e decodificação da língua.

    Decorar conjunções e conjugações, regras e princípios tem sido norma nas aulas de Português. Exercícios de interpretação, de completar, de aplicação do já aprendido/ memorizado permeiam a prática escolar. Assim, a luta entre sujeito/escritor e o objeto de estudo, a língua escrita, nasce e cresce, e a sensação de fracasso se fortalece a cada encontro  com a complexidade linguística.

    O silêncio absoluto nas aulas de redação é exigência máxima para que o sujeito/escritor crie, em seu individualismo, a partir de temas fechados, centrados e pré-determinados pelo professor.

    Não é que o silêncio não seja necessário. Ele o é, mas terá o seu espaço, no momento adequado quando a necessidade for real, concreta.

    O sujeito/escritor deve se posicionar frente aos temas colocados em debate, em situações de escrita que lhe permitam confrontar-se com outras ideias, até contrárias às suas, descobrindo caminhos para lidar com as contradições, tão comuns na sociedade de hoje e necessárias ao desenvolvimento social.

    A escola deve criar oportunidades para que  o aluno descubra o prazer de escrever, troque informações e enfrente dificuldades normais que a língua escrita traz em seu bojo e, a partir dessas dificuldades, construa o seu conhecimento léxico/gramatical.

    Se a escola pretende a competência comunicativa do  usuário da língua escrita, tem que instrumentalizá-lo para tal. Há que trabalhar o uso da escrita, em suas variadas dimensões (cartas, bilhetes, propagandas, receitas, textos informativos, formativos, literários...). Qualquer fragmentação ou hierarquização da língua é reducionista e comprometedora.

    O sujeito/escritor e aprendiz é um sujeito ativo – ativo mentalmente – cuja  atividade cognitiva consiste em levantar hipóteses. Ele, o sujeito, precisa atuar sobre o objeto em estudo, a língua escrita, em seu processo de construção de conhecimento.

    É atribuição da escola colocar o aluno em contato com a língua de maneira planificada, de tal forma que seja necessário se colocar em situação de uso da língua escrita, intérprete e produtor, e não como simples executor de uma atividade/exercício. O exercício, por si só, não ensina nada. Há que se trocar o exercício por situação de aprendizagem.

    A língua escrita, para mim, não é bruxa nem fada madrinha, ela é varinha de condão: abre portas, espanta o cinza, fertiliza a imaginação, traz alegria.

    E para você, professor, o que ela é?

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    Ângela Franco